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Professores terminam interrupção letiva e começam interrupção familiar.

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Escrito há 1 ano, mas podia ter sido ontem…


Para quem na última semana conheceu o ComRegras, pode ficar a pensar que se trata de um blogue ao estilo “Cristinas Caras Lindas”, “Perdoa-me”, ou “Quinta das Celebridades” na vertente melodramática… nada disso. As suas raízes são as questões disciplinares e a educação em geral, mas a componente emocional do professor é muitas vezes desvalorizada e em período de interrupção letiva justifica entrar um pouco nesse mundo. Quem quiser algo mais másculo, pode sempre sintonizar a Sic Radical e ver a WWE…

interrupçãoAmanhã é dia de regresso, dia de desejar bom ano aos nossos colegas e alunos. Mas também é dia de oficializar partidas, deixando para trás, mãe, pai, irmãos, sobrinhos, amigos, etc, bem como os cheiros das vilas e cidades que se configuram como locais de conforto e carregadores emocionais.

Considero-me um privilegiado, pois apesar dos 400 km de distância do meu local de conforto, vivo com a minha esposa e filha, 365 dias por ano… Ainda por cima frequentamos o mesmo agrupamento, eu sei… é uma sorte!

Porém, sempre que se galgam as primeiras dezenas de kms no regresso à cidade tão bem nos acolheu, o sentimento mantém-se, ano após ano, interrupção a interrupção, férias após férias… No banco de trás emana uma tristeza silenciosa, que me arrepia a espinha e faz questionar muitas das escolhas que eu e a minha mulher fizemos no totoloto dos concursos em anos anteriores. O olhar cabisbaixo, os dedos entrelaçados, os olhos molhados e os suspiros frequentes, brotam uma voz embargada com um arrepiante “vou ter saudades” ou “por que razão não podemos viver no Porto?”.

A explicação por mais verdadeira que seja e por mais carinhosa que seja, não lhe retira a tristeza do olhar e são os kms que lhe vão aliviando a dor e as conversas sobre as “Nancys”, “Frozens” e afins que a fazem regressar à normalidade. Normal dirão vocês, mas família é família e ela sabe que só daqui a 3 meses os voltará a ver…

O que ela não sabe é que eu também o sinto, e apesar de já terem passado 14 anos custa sempre, custa menos, mas custa… e quem foi obrigado (sim obrigado, pois a tutela obrigou-me a vincular no QZP onde lecionava) a emigrar cá dentro, sabe do que falo.

Sim, estou a falar de barriga cheia, mas o projeto de vida estava delineado e foi amputado porque nos gabinetes mudam-se as regras do jogo como quem muda de roupa interior… Não passamos de “0” e “1” num algoritmo de um processador dual ou quad core, enjaulados por uma caixa de “caprichos” de uma secretária qualquer na 5 de outubro.

Veja-se a diferença de tratamento aos professores franceses no concurso que se avizinha.

Mas se o abandono do lar (e para mim lar é onde estão as nossas raízes) é algo natural numa sociedade cada vez mais dinâmica, o abandono da família direta por razões laborais é algo antinatural, que é imposto e tolerado há muito e a muito custo.

A profissão docente é fértil em pais e mães de fim de semana que “abandonam” os seus filhos para ganhar o seu sustento, amealhando tempo de serviço precioso para a tão desejada estabilidade.

back to schoolOntem foi, hoje é e amanhã será, dia do beijo de despedida, dia do abraço apertado e de dizer a frase mais longa da semana, “Xau querida(o), a semana passa rápido, porta-te bem”. Trata-se de uma castração familiar que para muitos já dura há muito tempo e apesar do hábito, não fica mais fácil. Os primeiros kms de regresso ao trabalho são sempre os mais difíceis. Surge uma frustração e revolta genuína, e saltam aquelas dúvidas desgraçadas que queimam o espírito… “por quê?”, “para quê?”, “até quando?”.

Ninguém, NINGUÉM, devia passar por isto, seja professor, enfermeiro, polícia ou carpinteiro… Muitos já sabiam que seria assim, mas muitos alimentavam a expectativa que mais ano menos ano tal terminaria. Só que sem dar por ela, já passaram 10, 15, 20 anos e aqueles que choraram quando nos viram partir, hoje são homens e mulheres, ou em alguns casos a paternidade e maternidade foi um desejo que nunca se concretizou. E o tempo não volta para trás, e o que se perdeu, perdeu-se para sempre…

Viver com colegas de profissão, partilhando casas de banho e frigoríficos, até tem a sua graça quando temos 20 e poucos anos, mas chega uma altura em que queremos terminar os dias com um beijo na(o) nossa(o) filha(o) e o aconchego do(a) marido/esposa. É justo!

E eles? Estas crianças e jovens até que ponto ficam prejudicados? Esta amputação parental traz naturais consequências e quando se fala tanto na importância da família, não é através de um qualquer abono familiar que resolve tudo, principalmente se esta continuar a dizer “até amanhã”… via Skype…

O Alexandre Sardinha, fez um comentário (dia 29/12/2015 às 18:01) ao artigo que fiz sobre as “férias” dos professores que mostra um pouco do que vê e sente um jovem, filho de uma professora primária. Vale a pena ler e aqui fica um excerto:

Aos 14 anos comecei a ver que a minha mãe não se deitava às mesmas horas que quando acabava de estudar comigo, comecei a ver que ela não estava em casa às horas que acabavam as aulas dela, comecei a ver o recorte de figuras e as colagens nos cadernos, o fazer fichas no “word” quando ninguém a ensinou a utilizá-lo, o ir para a escola quando os alunos estavam de férias, as constantes reuniões e formações a acabarem às 22H, o planeamento de visitas de estudo e dinheiros, as preparações para exames e os exames e tudo o que vem com isso. As pessoas dizem 40H de trabalho??? Eu digo não sei que profissão é essa mas não foi a de professor a que eu vi sempre durante todos os anos da minha vida. Mais férias que o normal? Sim passei mais férias com a minha mãe do que com o meu pai, mas ainda assim quantos foram os dias que ia para a escola dela para não ficar sozinho as 10H que ela estava fora de casa, e quando ela estava nas chamadas “férias” que na verdade não estava mas despachando o trabalho mais cedo podia gozar uns dias a mais… mas acabava muitas vezes por ser chamada à escola, ou seja é impossível planear algo.

Por isso faz sentido questionar as escolhas que fazemos. Até que ponto não estamos a colocar o nosso trabalho e os filhos dos outros à frente dos nossos próprios filhos e cara metade?

Muitos fizeram essa pergunta e a resposta foi que não vale a pena. Mudaram de rumo, são professores apenas num “canudo” guardado em cima do armário. Fizeram bem? Fizeram mal? Só eles podem responder, mas uma certeza conquistaram, não há mais semanas à distância, noites sozinhas ou beijos e abraços por dar.

Para os que continuam a acreditar, é hora de voltar a colocar a máscara, pois ser professor não se coaduna com fraquezas de espírito perante 20 ou 30 alunos. Talvez se soubessem o que vai por detrás da máscara, não nos gozavam tanto, ameaçavam, insultavam ou agrediam. Hora de encher o peito, entrar naquela sala e ensinar o futuro deste país.

Tenham um bom regresso 😉

P.S – este texto pode ser para uma minoria ou maioria, não sei, só sei que esta realidade existe e não me parece justo fazer-se comentários sobre outras realidades como se essa fosse melhor/pior mais ou menos importante. Já disse e volto a dizer que há sempre alguém pior que nós, mas não é por isso que me vou calar ou ignorar o que se passa ao meu redor. Sou professor e este texto é sobre e para professores. Os restantes opinem o que quiserem, mas respeitem, respeitem como nós respeitamos as virtudes e defeitos das vossas profissões. Obrigado.

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14 COMENTÁRIOS

  1. Um dia tive a coragem de deixar tudo para trás. Sempre disse que nada me levaria para longe da minha família…e não levou. Sou muito feliz com as minhas escolhas…um professor é muito forte. Devia aproveitar a força interior para desenhar o seu futuro. Se pudesse vendia o meu tempo de serviço no OLX.

    • Cara Isabel Alves, como eu te compreendo pois, apesar de adorar ensinar, optei por deixar para trás esse sonho que estava a tornar a minha vida pessoal num pesadelo, ao fim de quase 20 anos como contratada, à espera de dias melhores que cada vez mais estavam a ficar piores. Só quem tem um professor na família é que compreende como vivemos e como nos sentimos…infelizmente, para quem não tem, permanece a ideia de que ganhamos muito e fazemos muito pouco. Convido essas pessoas que pensam assim a experimentarem por um mês levar a vida de um professor e depois, sim, pronunciarem-se. Hoje tenho menos dinheiro (não muito menos, pois havia alturas em que quase pagava para trabalhar) mas sou (bem como a minha família) muito mais feliz!

  2. Boa noite!

    Concordo em absoluto com tudo o que está escrito. kms após Kms, ano após ano, … São, de facto, as nossas escolhas. Somos, muitas vezes, injustiçados, começando pelo próprio ministério.
    Saí ontem de casa às 5:30 para apanhar o expresso para Lisboa. Deixei família, uma casa fechada, … Trouxe uma grande dor no peito, é verdade, mas o consolo de vir fazer o que gosto, sem refletir muito naquilo que os outros possam pensar. Os meus alunos até merecem alguns sacrifícios. Horas depois, estava a entregar as bagagens para alguém as colocar dentro de um avião, que iria aterrar no Pico. Mau tempo! Alteração de rota! Aterragem no Faial! Duas horas e tal de “pancadaria” no ar pode até ter alguma graça. Já lá vão uns anos, por isso até já estou habituado! Se essa turbulência não é agradável, pior é o choque de, depois de ver todos os passageiros com as suas malas, reparar que a sua não chegou! Pois é! Tudo ficou algures, parado num canto?, a viajar por outras bandas?, perdido?, danificado? Não sei! É triste pensar que os nossos pertences não nos acompanharam, que os miminhos da família não chegaram ao mesmo tempo e não se sabe se aparecerão ou se estão em condições de serem observadas pelos nossos olhos! Dói o preço da viagem, dói o tempo da viagem, dói…, dói…, mas dói mais não termos as nossas coisas!
    Caros Professores, coragem para podermos aguentar todas as adversidades em prol de uma causa em que ainda acreditamos: a educação das nossas crianças e jovens, o futuro de um país.
    Um abraço do meio do atlântico a todos aqueles que por amor fazem tamanhos sacrifícios.

  3. Parabéns pelo seu texto!
    Não sou professora, mas tenho familiares e amigos que o são e observo o que sofrem com a deslocalização, com os horários de loucos e os trabalhos em casa.
    Espero que o futuro reserve melhores condições para as novas gerações de professores, para que possamos ter professores mais felizes, mais satisfeitos e, como tal, melhores professores.

  4. Realmente são as vossas escolhas. E esta situação não acontece só com os professores, mas são os únicos que reclamam. Têm trabalho e ganham bem em relação a outras profissões que tem mais responsabilidade. Sim porque a vocês professores do ensino público nada vos acontece se os alunos reprovam de ano.

    • “Têm trabalho e ganham bem”, não sei em que país vive mas não é neste com certeza! há milhares de professores não colocados, sem turma e com horário zero. nada mais é preciso acrescentar ao texto, os professores põem muitas vezes o trabalho à frente da família porque assim a profissão o exige e os menos de 1000€ que ganham não compensam nem de longe os sacrifícios que têm de ser feitos, já para não dizer que muitos gastam metade do ordenado em gasóleo, portagens e restantes custos com o carro devido aos km que são obrigados a fazer todos os dias e sem outro meio para se deslocarem (principalmente os que trabalham em aldeias).
      “a vocês professores do ensino público nada vos acontece se os alunos reprovam de ano” – pelo contrário! para já muitas vezes são obrigados pelos directores de agrupamentos a aprovar os alunos porque caso contrário há insucesso na escola e, se por ventura os reprovam são eles que ficam com as consequências – se o aluno reprovou é porque o professor é mau, a turma tem insucesso e o professor tem avaliação negativa, o que lhe prejudica a carreira; além disso é ainda obrigado a justificar a reprovação e a dar aulas extras de apoio – não pagas.
      Realmente é preciso ser-se muito forte emocionalmente para aguentar esta tão nobre profissão de ser professor (obviamente sem tirar mérito às outras nem dizer que são mais fáceis ou não, como se apela no texto)

    • Realmente Carla, os professores são uns tiranos, uma classe da pior espécie, só é pena a Carla não ter o ato nobre de se dedicar a esta profissão. Tenho a certeza que seria um exemplo…afinal 1000€ “chega e sobra” para ter uma vida rica e desafogada! Para além disso…a educação e formação dos adultos de amanhã não carece mesmo de responsabilidade…quando isto se tornar o faroeste, aproveite e passe para PSP.

  5. Quem me dera viver a só 400km de casa. Que bom seria poder voltar mais que uma vez por ano e ver os meus amigos mais do que umas horas por ano, falar a minha língua todos os dias, comer a minha comida, ver o meu filho a falará minha língua na escola e a crescer num ambiente com os mesmos valores. Isso sim, seria um luxo. Há quem tenha e não veja o que tem. 400 e 13.000 km são números muito diferentes…

    • “este texto pode ser para uma minoria ou maioria, não sei, só sei que esta realidade existe e não me parece justo fazer-se comentários sobre outras realidades como se essa fosse melhor/pior mais ou menos importante. Já disse e volto a dizer que há sempre alguém pior que nós, mas não é por isso que me vou calar ou ignorar o que se passa ao meu redor.”

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