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Professores são pressionados para não atribuirem negativas

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Conhecendo as orientações que muitas direções escolares emanam para os conselhos de turma e aquelas que emanam do ME, em conjugação com os vários artigos de opinião escritos na imprensa e redes sociais, pode-se afirmar que a figura da retenção/reprovação está informalmente extinta no 2º e 3º ciclos do ensino básico, bem como a atribuição dos niveis 1 e 2 (ou seja, na prática a classificação dos alunos baseia-se na escala 3 a 5). Como a ‘opinião comentadora’ tem assumido ao longo dos anos que a escola tem uma ‘cultura de retenção’ (isto é, tem a finalidade de reprovar os alunos), instituíram-se procedimentos burocráticos que desincentivam veementemente a atribuição de classificações abaixo do nivel 3, sob pena dos docentes e respetivos conselhos de turma serem assediados com a rejeição de atas e repetição de reuniões de avaliação, exigindo fundamentações kafkianas que levam inevitavelmente à atribuição de classificação igual ou superior a 3, independentemente da aplicação correta dos critérios de avaliação. Com esta atitude, o sistema educativo, com a responsabilidade governativa e beneplácito de vários docentes dirigentes escolares, está a assassinar social e pedagogicamente muitos alunos, porque é inevitável baixar o grau de exigência a patamares que permitam a atribuição fácil de classificação igual a 3, tendo como consequência a médio e longo prazo o aparecimento de populações estudantis analfabetas funcionais. A existência da figura da retenção tem uma função pedagógica porque continua a ser legalmente considerada na avaliação dos alunos; a sua função é idêntica à figura da multa, coima, contraordenação ou pena de prisão. Por isso é que nenhum governo até hoje extinguiu juridicamente a figura da retenção…

Com este modelo, os alunos que não são diligentes no seu trabalho não mudarão a sua atitude, estando paulatinamente a destruir a sua formação pessoal. Quanto aos professores, quando começarem a aparecerem resultados quantitativos que demonstrem o analfabetismo funcional, serão responsabilizados e confrontados com exigências kafkianas, para promoverem a quadratura do circulo na aprendizagem: elevada formação cognitiva nos alunos que querem viver num ambiente social de estimulo lúdico e de entretenimento contínuos, ignorando a responsabilidade individual do esforço e método de trabalho para aprender.

Mário Silva

15 COMMENTS

  1. É tudo verdade mas, como diz o Bardo:
    ”People are crazy and times are strange
    I’m locked in tight, I’m out of range
    I used to care but – things have changed”

  2. Na nossa escola, em anos intermédios, a regra é a progressão. Contudo, nenhum nível é alterado. O aluno pode transitar com 6 ou mais níveis 2 ou 1.

    • Discordo plenamente dessa filosofia. Se um aluno não conseguiu atingir o mínimo exigível num determinado ano de escolaridade como poderá estar preparado para o ano seguinte? Pelo menos não escondem a verdade como na minha escola em que alguns alunos passam com só algumas negativas quando no dia anterior à reunião de avaliação tinha 7 ou 8 e estava em situação de retenção por excesso de faltas.
      Por acaso não estudou em Castelo Branco?

  3. O Mário Silva não sabe o que diz. Nunca pensou para além dos chavões. Se assim não fosse, não diria o que diz. Veja a formação pessoal dos nossos políticos (para usar uma analogia fácil de entender) e diga – me se a escola os ensinou a ser PESSOAS.

    • Os primeiros comentários de cada participante são sempre lidos e aprovados à posteriori.

  4. Quem tem prazer em aprender aprenderá, se for motivado para tal. Não se for retido por não reter patacuadas que nada ensinam sobre ética e verdadeira educação.

    • Bom dia Maria, Acho que todos temos direito a opinião e respeito a sua mas, não posso concordar. Então um aluno que não faz nada, não se esforça ou não consegue aprender a matéria dada não deve ser retido? Não se trata apenas em decorar patacuadas…trata-se de aprender a materia dada durante as aulas, o programa que os superiores acham que devem aprender em cada ano letivo.
      Mais ainda um aluno que nada se esforça ou esforça-se o minimo porque inclusive já sabe que transita de ano, mesmo sem saber nada passa é no minimo injusto para aquele que tanto se esforçou e consegue uma nota justa que afinal é pouco mais que o outro que brincou todo o ano letivo…aí sim desmotiva o que trabalhou…
      A escola não se trata apenas de formar pessoas…essa educação dá-se em casa… são os pais os responsaveis por formar pessoas.

    • Há sempre os donos da verdade que sabem o que é ” a verdadeira educação” e qual é a Ética que deve prevalecer, o que é ”Ser” e o que é ”Pensar” … Por esses, com tantas certezas, espero que o meu filho não seja ensinado! Nem um argumento para rebater as ideias expressas… apenas um cutelo para decepar o que Mário Silva pensa!

  5. E como classifica os 6 valores no 1 e 2 período,no 10 ano e a alunos com déficite de atenção,quando 3 x 9 reprova e quando a prof de Mat faltou mais faltas do que as que deu,metendo atestados intermitentes de forma desonesta?O que fazem os DTurma,os dirigentes escolares e CPedagógico?E não é o 12 ano ensino OBRIGATÖRIO?isto é vingar nos alunos os dist;urbios da classe docente!Processo dsiciplinar?Os pais estão na mão de vingadores!Nunca precisei de “dar”negativas para ter classes disciplinadas!

  6. O grupo de trabalho que vai estudar os problemas da aprendizagem da matemática vai chegar a conclusões similares.
    Os chavões do MS tem natureza contrária, mas também alguma verdade. Já a história da motivação, do ensinar a ser e a pensar também tem muito que se lhe diga.
    No terreno as teorias encontram obstáculos, alguns tão inesperados que nem os teóricos se aperceberam deles.

  7. Em primeiro lugar, refira-se que a figura da “retenção” não foi criada pelos professores, assim como todo o edifício legislativo do sistema de ensino português!
    Portanto, se o legislador entender acabar com as retenções, ou seja lá o que for, por via administrativa, pode fazê-lo a qualquer momento, por conta própria, sem mais.
    Agora, continuar-se com o discurso mesquinho de que os professores estão formatados para as retenções é não querer ver os problemas reais e tentar encontrar soluções, é continuar-se na senda do ataque e da culpabilização dos mesmos de sempre.
    Mas o verdadeiro cerne da questão é este: que tipo de escola queremos?

  8. Completamente verdade! A pressão é enorme até pela operacionalização da avaliação. Os “castigos” são todos para os professores! Relatórios, projetos de recuperação, justificações em ata, e outras porcarias que, sendo as mesmas, mudaram-lhes o nome. Está instalada a psicologia do medo e da falta de liberdade! Portanto, o aluno continua a vadiar na grande maioria dos casos, e as medidas, essas, são apenas estratégia implícitas e dissuasoras da atribuição de níveis inferiores a 3. Portanto, as pressões são enormes e com repercussões no âmbito da avaliação do desempenho. Infelizmente esta classe docente, que é a minha, tem tolerado ser pau para toda a obra com a evidente degradação da profissão que observo nos últimos 20 anos. Mas a avaliar pela capacidade de luta e indiferença que têm manifestado, temos o que merecemos! 😉

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