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Professores Partilham Como É Dar Aulas Com Filhos Em Casa E Os Críticos À Espreita

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Professores do Agrupamento de Escolas de Vale-Aveiras foram rápidos a reinventar-se assim que as escolas fecharam. São youtubers improvisados e ensinam com métodos divertidos para que a motivação não se perca.

Os horários fixos desapareceram, as divisões da casa têm de ser partilhadas pela família, há interrupções constantes e dúvidas a cair no e-mail a toda a hora. Ao fim de quase três meses a trabalhar em casa, depois de as escolas terem fechado em meados de Março, o desgaste é evidente, mas nem por isso se deixa cair a criatividade e se perde a vontade de ensinar. É esta a nova realidade de três professores do Agrupamento de Escolas Vale-Aveiras, em Aveiras de Cima, que partilham com O MIRANTE a sua experiência do ensino à distância.

Eládio Gouveia é professor de 1º ciclo em Aveiras de Cima e tem uma filha de cinco anos com quem passou a compartilhar o local de trabalho. “A mãe tem dado uma ajuda preciosa, mas não é fácil de gerir, pois nesta idade quer é brincar e receber atenção. Entra pelo escritório e interrompe-me umas 40 vezes ao dia”, conta.

A escola tinha fechado há um dia, ainda não havia orientações do Ministério da Educação, mas Eládio Gouveia quis pôr-se à prova e atirou-se de cabeça. Transformou o escritório num estúdio coberto de telas verdes e passou a planear as aulas como quem escreve um guião para um filme, com super-heróis e cenários paradisíacos à mistura. Tem mais de 30 aulas partilhadas na sua página do Youtube e milhares de subscritores de todo o país. A prova é que “pais de Lisboa, Leiria e Gouveia entram em contacto para esclarecer dúvidas dos filhos, o que é muito motivador”, diz.

Na casa de Luís Jorge são dois professores e dois filhos com aulas em simultâneo, a lutar por manter a organização. “É cada um numa divisão diferente da casa, em frente a um ecrã. Eu a dar aulas e os meus filhos a precisarem da minha ajuda. É complicado gerir o tempo”, desabafa o professor de Educação Física que também virou uma espécie de youtuber e põe os alunos a montar esquemas de exercícios com o que cada um tem em casa, desde telemóveis a meias apanhadas do estendal.

É também à falta de tempo que Ana Cavacas teve de se habituar. “O tempo livre desapareceu, a qualquer momento liga um aluno, um pai com dúvidas ou outro docente para definir em conjunto o plano de aula”, diz a professora do 2º ciclo de Matemática e Ciências Naturais, confessando que ao contrário dos colegas de profissão tem a sorte de ter a casa só para si.

Para Ana Cavacas, o desafio é outro: ensinar Matemática, esse bicho de sete cabeças para grande parte dos alunos. E se na sala de aula é difícil, a partir de casa “torna-se ainda mais gritante esclarecer dúvidas”, por isso é que as quatro professoras da disciplina deste agrupamento se uniram e em conjunto estão a criar os seus próprios vídeos explicativos que têm dado bons resultados. Mas não se iludem. “Não temos o sonho de pensar que o resultado seria igual. Por mais estratégias que se encontrem, nada substitui o estímulo gerado numa sala de aula”, observa.

“Não somos actores mas professores a improvisar”

A quantidade de tarefas que têm para cumprir não lhes permite grandes ensaios, ou repetir gravações até saírem perfeitas. Nem é isso que se pretende. “Estamos a ser nós próprios, como se estivéssemos na escola a dar uma aula”, observa Luís Jorge. Mas não estão. Estão “expostos ao mundo e à crítica” e quem as faz “esquece-se que não somos actores ou profissionais do multimédia, mas professores a improvisar, que aceitaram expor-se a pensar no bem dos alunos”.

Ana Cavacas não esconde o sentimento de insegurança inerente a esta exposição: “Estamos a ser avaliados não só pelos alunos mas pelos pais e pela opinião pública. É normal que as fragilidades de cada um de nós tenha vindo ao de cima”, confessa.

Alunos estão cansados e desmotivados

Todas as aulas gravadas são planeadas entre os professores das várias disciplinas, “num grande trabalho de equipa fundamental” para que esta nova forma de ensinar resulte, explica Luís Jorge, salientando que é numa permanente articulação que criam conteúdo, fazem pesquisas e inventam novas actividades.

Fazem-no para que a motivação dos alunos não se perca, mas ao fim de quase três meses, os docentes sentem que estão a remar contra a maré. “É cada vez mais difícil mantê-los concentrados, já estão fartos de estar em casa. Sentem falta da escola, dos professores e colegas”, nota a professora que se confessa ansiosa para voltar à escola, mas que não deixa de achar todo este mundo novo para o ensino como uma experiência enriquecedora e desafiante.

Fonte: O Mirante

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