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Professores No “Preço Certo”: A Ascensão Da Insignificância – António Carlos Cortez

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Ainda tenho as canelas todas negras por causa do artigo Professores São Para Ensinar Não São Para Entreter”onde critiquei a utilização do mediatismo dos professores do “EstudoEmCasa para rentabilizar canais de televisão sedentos de audiências, bem como a fatura que inevitavelmente iria surgir. Ora cá está a dita, ou parte da dita…

Desta feita que sejam as canelas dos outros a sofrer a fúria dos radicais defensores de tudo o que começa com “profe” e termina em “ssor”… Eu agora já só ando de caneleiras. 😉


Professores No “Preço Certo”: A Ascensão Da Insignificância

Foi num fim de tarde. Dia de Santo António, de sardinhada e festança… Dia em que nasceu Fernando Pessoa… Não sei se essa coincidência temporal encerra qualquer indício de ominoso, mas foi trágico (e em alguns momentos dum cómico torpe) o que aconteceu no programa “O Preço Certo”, espécie de coroa de louros para docentes das mais diversas disciplinas e que, neste tempo de pandemia, “salvaram” a educação dando aulas em regime de tele-ensino.

O facto de ninguém ter gritado alto e bom som que tal participação envergonha a classe é mais um óbvio sintoma da “apagada e vil tristeza” a que o sistema educativo chegou. Sinal de degenerescência haver professores a celebrar a tele-escola num programa que é inimigo de qualquer ideia de cultura, foi com perplexidade que assistimos à desfaçatez do inspirado Fernando Mendes a vituperar Camões e a epopeia maior do Renascimento sem que nenhum professor reagisse. Com nove negativas no 9.º ano, disse o profissional da televisão que ler esse livro significava, dada a sua extensão, não completar a escolaridade em tempo útil. A plateia de profissionais da educação sorriu ou riu, prosseguindo-se a campanha alegre d’”O Preço Certo”.

Nada vi escrito sobre este caso sórdido. Devo calar a minha revolta? Em tempo adverso a tomadas de posição contra a ditadura do banal, devemos assobiar para o lado? Mas não é grave e reflexo do aviltamento geral o que vimos no passado dia 13? Como podemos exigir dignidade nos salários, nas condições de trabalho, se acontecem destas confrangedoras realidades? Onde estão os professores que deviam ser factores multiplicadores de cultura?

De facto, urge perguntar como é que se pode chegar a semelhante estado de alienação. Não será, eventualmente, toda a classe, mas é extraordinário que haja quem, com a responsabilidade simbólica e efectiva de transmitir saber científico e livresco, se sujeite a participar num dos programas que, a meu ver, mais tem contribuído para o abaixamento mental dos portugueses. De quem terá sido a ideia de homenagear os “profissionais da educação” com este programa onde se procura adivinhar o preço certo de electrodomésticos? Não houve uma voz que se insurgisse contra tal espectáculo? Tal como se fez para os “profissionais de saúde”, agraciados pelo primeiro-ministro, António Costa, com as fases finais da Liga dos Campeões, também os “profissionais da educação” tiveram direito ao reconhecimento nacional.

Nada disto seria grave e triste se não fosse o caso de ser a classe docente uma das mais desprezadas pelos sucessivos governos desde há uns bons 20 anos a esta parte. Mas mais gritante é o desnorte que faz com que professores da Tele-escola, de algum modo representando todos os seus colegas, não tenham compreendido o mau serviço que prestavam ao participar na sardinhada do Mendes porreiraço. Mas a realidade professoral será esta? Há uns dias, numa aula online da RTP, antecedendo a lição do Presidente Marcelo, uma professora de português, impante de responsabilidade e orgulho, confessava ao Presidente-professor que, para preparar as suas aulas, tinha “pesquisado muito no Google”. É esta a concepção de estudo e de investigação que muitos têm?

Como refere Cornelius Castoriadis, “Desde há anos que a profunda regressão mental das classes dirigentes e dos quadros políticos conduziu à liberalização a todo o custo de tudo quanto é economia e sistema de trocas, esvaziando de poder simbólico as mais diversas actividades de trabalho – e o próprio trabalho” (A Ascensão da Insignificância, Bizancio, 2012). A educação é das áreas que melhor espelham essa nefasta liberalização: aulas transformadas em entretenimento, o professor visto como um técnico, um “profissional da educação”, cumpridor ordeiro da ideologia oca. Foi isto que vi n’”O Preço Certo”. Revejam o programa: uma colega que até levava (pasme-se!) um livro feito pelos seus alunos foi acantonada pelos demais que, sorrindo, cheios de confiança, alegres e cúmplices, ofereciam bolos e os mais diversos galhardetes, ávidos por, no Santo António, cantarem com o Quim Barreiros.

Se Castoriadis não erra – nem Camões –, é caso para dizer que a participação dos professores naquele programa indigente é sinal inequívoco da máquina totalitária que, como um rolo compressor, esmaga quaisquer valores que deveríamos ter por perenes, padronizando as massas, transformadas em consumidores acríticos de conteúdos de grau zero. Movida pela dinâmica neoliberal de trocas, uma educação que escolha o caminho fácil do imediatismo online mais não será que a reprodução da sociedade civil hoje desvitalizada, sem memória e sem história.

Que se veja a participação dos docentes do tele-ensino e perguntemo-nos: se é para aí que a educação dos nossos filhos, das nossas crianças e jovens se encaminha, que quadros políticos, empresariais, educativos, universitários, teremos em 2030? Quando um professor, ao cabo de 30 anos de ensino, considera que ter dado aulas a Pedro Granger é prova cabal do seu magistério, a que preço está a educação? Os alunos, agora que se diz que são “a melhor geração de sempre”, poderão responder. Ou então, oiçamos o sapiente Tiago, ministro do tele-ensino e que devia ter estado, sorridente e pimpão, n’”O Preço Certo”.

António Carlos Cortez, in Público, 25-06-2020


A morte dos professores

Um dos aspectos relevantes do capitalismo editorial e de imprensa sobre a imaginação social é aquilo a que Lipovetsky chama a “emergência de uma sociedade sem opacidade”, resultado da renúncia da representatividade simbólica, em que “as formas descobrem a sua inteligibilidade já não fora de si próprias, mas em si próprias”. É o contrário do cachimbo de Magritte. Marx alertara para o efeito do fetichismo de que a mercadoria se mune (de natureza simultaneamente sensível e supra-sensível), que, depois de adquirir um valor de troca, rasura o valor de uso, tornado abstracto. É célebre o exemplo da mesa, como o apresenta em O Capital. Deixa de se considerar o objecto produzido como característica objectiva (de propriedades estritamente físicas) para ganhar uma forma fantasmagórica, consequente das relações entre os objectos no mercado e definida pela relação social entre os homens (os produtores, os especuladores, os vendedores, os apreciadores).

Essa forma fantasmagórica a que se refere Marx é o que está na “base da sociedade do espectáculo, aquela com poder suficiente para controlar os indivíduos, dotando-os da natureza comprometida da marioneta, do espectro, da ilusão”.

Ao contrário de alguns colegas de profissão que se indignaram (e bem) com o espectáculo O Preço Certo Especial Professores (RTP 1, dia 13 de Junho de 2020), não alinhei por completo na mesma onda de indignação, no sentido de que aquilo me causasse pruridos especiais. Dizia Terêncio: “Sou um homem: nada do que é humano me é estranho.” Mas tive, ao menos, a sorte de ter sido alertado por um texto de António Carlos Cortez (de quem se espera igualmente um artigo no PÚBLICO) e confundido simpaticamente por um extraordinário professor, o António Conde (magnífico tradutor de Brecht), daqueles, raros já, que nunca venderiam a alma ao diabo, mesmo sendo a mãe a pedir-lho.

Vejamos: no programa do “professor” Fernando Mendes não há qualquer tipo de fraude. Mendes desempenha a função social que a televisão estatal lhe outorga e fá-lo com genuína seriedade e eficácia. Os seus convidados fazem parte de uma categoria social admirável, a inefável classe média baixa, assalariada ou titular de pequenos negócios, gente de partilha emocional franca e camaradagem horizontal, mas fatalmente enredada nas malhas da sua condição alienada e desarmada (lembremos o formato do programa: joga-se contra máquinas, e ninguém o contesta, porque esta é gente que aceita “desconfiar” das máquinas). Até aqui não há fraude. Ela começa quando, no lugar daqueles, entram em cena os professores, a erudita elite e, recuperando uma ideia de Walter Benjamin, a gente capaz da “interrupção abrupta dos acontecimentos”, criadora da ruptura lúcida que obriga o público a pensar. Eles é que são a fraude, pois não é de crer que estejam no local certo. Mas estão. O pior é que estão. E estando, o cachimbo de Magritte, que não se queria como cachimbo, passa afinal a sê-lo. Eis o paradoxo que deixa de o ser, para de novo resultar em paradoxo.

Este preço (que é certo) é aquele que se paga nas sociedades de matriz capitalista e de hegemonia cultural pós-moderna, de eterna fantasmagoria ilusória. Lipovetsky é muito claro quanto a isso: “a sociedade pós-moderna é demasiado gulosa de novidades para rejeitar seja o que for. Pelo contrário, exumamos e fagocitamos tudo, mas ao preço da ridicularização”. Estes professores, que felizmente só a si se representam, são gulosos e abrem o apetite à gula das audiências e do share televisivo. São um petisco, aliás, para essa gente das Cofinas, das Mediacapitais ou das RTPs. Basta que a ideia pegue e não será difícil imaginar um futuro de professores com contratos chorudos, em sinal aberto ou fechado. Como na pintura de arte total, olhe-se qualquer coisa (até fagócitos).

O meu tempo – e este é o mais insuspeito saudosismo bacoco – foi o do José Manuel de Melo, meu brechtiano Keating de Português (no Liceu D. Duarte de Coimbra), um homem que não se encolerizava, porque ridicularizava, que era didáctico para não ser didáctico, que usava a pedagogia como distanciamento, e que nos desafiava sempre com uma ironia quase cínica, a escarnecer dela mesma. Como poderei esquecer o que uma vez disse numa das nossas aulas? “A ironia nunca parece o que é; antes de o afirmares, de asseverares de que se trata de ironia, confirma primeiro se há ironia no texto ou se a sua ausência não é outra forma implícita de ela ali estar.”

Num dos mais recentes artigos de António Guerreiro (de quem saquei a ideia para o título deste artigo), o articulista debruça-se sobre a pulverização dessa gente a que chamamos estudantes, funcionários da investigação em prejuízo do estudo, recorrendo a Giorgio Agamben. Temo que o “requiem” anunciado sobre os dez séculos de ensino estenda mais alguns compassos ao novel professorado. Não é novidade. Já não há novidade. E muito menos opacidade. O “encanto escarninho” que Virginia Woolf temia tem mais de um século, é uma evidência e nós não somos ingénuos.

António Jacinto Pascoal, in Público, 25-06-2020

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