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Professores madraços e o abuso de serem candidatos…..

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No dia 25 de Abril de 1975, nas primeiras eleições livres 91% do eleitorado foi às urnas (Fonte da foto: www.parlamento.pt)
No dia 25 de Abril de 1975, nas primeiras eleições livres, 91% do eleitorado foi às urnas.                    (Fonte da foto: www.parlamento.pt)

Ou como diria o outro: não se faz uma Democracia sem democratas. E quando os jornais fazem títulos com ataques diretos ao exercício de direitos democráticos (nomeadamente o essencial: sobre os que ousam ser candidatos a eleições) a coisa anda mal.

O Diário de Notícias titulava do alto da sua autoridade secular: Professores deixam alunos sem aulas para fazer campanha. A notícia, da jornalista Ana Bela Ferreira, já me chegou por diversas vias e partilhas, e dizia que “há, pelo menos, 159 docentes do 1º ciclo ao Secundário que são candidatos a deputados e que vão assim obrigar os directores das respectivas escolas a alguma “ginástica” para evitar prejudicar os alunos.”

Este tipo de notícias sobre como são desleixados os professores e o que fazem para “prejudicar os alunos”,  são comuns e não são inocentes.

Neste caso, dei-me ao trabalho de escrever ao diretor do jornal e queixei-me junto da Comissão Nacional de Eleições.

Não servirá de grande coisa, mas queixar-se é o que um consumidor deve fazer quando o produto servido está adulterado.

O caso é lamentável e mostra o preconceito nada subtil contra os professores que perpassa nas páginas daquele jornal e de outros. A indignação pode surgir em perguntas:

Se há uns 100 mil professores (números redondos que, não sendo jornalista, não me é exigível mais rigor), uns 150 (num novo número redondo, uns 0,2%!) que exercem o seu direito legal de dispensa do trabalho, para serem candidatos e participarem na vida democrática do país, é notícia porquê?

E qual a razão bizarra porque só são notícia  os candidatos professores?

Ou será que também devemos esperar uma notícia sobre os padeiros que “deixam” de fazer de pão, os enfermeiros que “deixam” de fazer tratamentos ou os oficiais de justiça que “deixam” de organizar processos? E os médicos candidatos que vão deixar de operar? Ou, quem sabe, os jornalistas que deixam de fazer notícias para serem candidatos?

Porquê o interesse noticioso especial dos direitos políticos de 0,2% dos professores, que merece que se destaque o que deixam de fazer? (Direito, insisto, legal, que gera dispensa de milhares de outras pessoas, isto é, todos os que sejam candidatos, professores ou não).

E se até fossem mais que os 159, havia algum problema? Estarão a abusar dos seus direitos? A cometer alguma ilegalidade?

Ostrakon - "o boletim de voto" na Grécia antiga
Ostrakon – “o boletim de voto” na Grécia antiga

Ou será que o jornal e a jornalista, em vez de os apontar a dedo, por exercerem um direito de participação de valor elevado, não devia questionar-se como, estando a política tão desvalorizada e havendo tantas notícias de desinteresse por ela, ainda há gente que valoriza o acto de se candidatar, ao ponto de correr o risco de ser assim enxovalhado, como “baldas”, em nome do despropositado ato de candidatura a um órgão de soberania (o mais importante de todos)?

Por isso, pergunto se poderemos esperar do DN futuras notícias sobre grávidas que “deixam” os alunos sem aulas por causa dos direitos de maternidade ou doentes terminais que “deixam” os seus alunos sem aulas por causa do direito à saúde?

Ou, por exemplo, reportagens sobre a possibilidade de proibir os professores de casar (para não deixarem os alunos sem aulas na licença de casamento). Salazar obrigava a pedir autorização prévia…

Ou será que, para que “ninguém deixe os alunos sem aulas”, talvez o caminho seja não haver candidatos (professores ou outros quaisquer) e nem se fazerem eleições, esse transtorno e incómodo, que traz tais problemas e dificuldades.

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