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Os Professores encontram-se exaustos, desiludidos e sem forças! Precisamos da vossa ajuda…

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Carta Aberta À Sociedade Civil

De acordo com a Dra Tina Boogren, os professores tomam mais decisões por minutos do que os neurocirurgiões. Perante 20 a 30 crianças e jovens, unas nas suas especificidades, é forçoso que tenhamos a capacidade de dar resposta a todas as solicitações e a todas as variações emocionais inerentes ao estado anímico de cada um dos jovens. Em cada dia, a cada hora, em cada minuto, o Professor trabalha sem rede, num equilíbrio constante entre o imprevisível e o desejável. Raros são os planos de aula que seguem o alinhamento programado por cada um de nós no dia anterior, sendo necessário reconstrui-lo a todo o momento de forma a otimizar e a rentabilizar o que se pretende que seja um ensino responsável e de qualidade.
Sobrecarga de tarefas resultantes de excesso de burocracia com a intensificação das mesmas, dentro do horário de trabalho, situações de extrema precariedade, deslocações ano após ano a centenas de km de casa, bullying profissional muitas vezes exercido pelas chefias, falta de autonomia, reduzida influência nos currículos e na gestão da Escola, violência escolar, indisciplina dos alunos…
Degradação das condições de trabalho nas escolas, excessivo número de alunos por turma e a sua diversidade, falta de apoios adequados à plena integração dos jovens com necessidades educativas especiais, agressões físicas e psicológicas, professores barbaramente agredidos a socos e pontapés! Só no MP de Lisboa, a violência na escola motivou a abertura de 118 inquéritos em 2018. 1898 ocorrências criminais em meio escolar, reportadas pela PSP, das quais 613 foram referentes a injúrias e 1285 a ofensas corporais.
Esta é apenas uma pequena amostra, exemplificativa das causas apontadas para a exaustão e desânimo dos Professores, que atinge já 75% dos docentes.
A falta de reconhecimento social e o nulo apoio por parte do Ministério que tutela a Classe Docente são outras das causas apontadas para a exaustão emocional e desilusão por parte dos docentes.
O impacto nos Professores é naturalmente devastador, professores doentes, portadores de situações clínicas complicadas, muitos dos quais obrigados a retomarem o serviço, após deliberações emitidas pelos médicos que compõem o corpo clínico das juntas médicas, que perante situações comprovadamente impeditivas do exercício da profissão, assinam irresponsável e vergonhosamente a nota de alta. Maior será sem dúvida, o impacto na qualidade do ensino.
A nossa função, enquanto professores não se limita apenas e tão só a ministrar aulas, as atribuições e exigências extras são uma imensidão e respeitam entre outras à preparação de aulas, às tarefas burocráticas na sua maioria desnecessárias e ridículas mas obrigatórias, ao preenchimento de grelhas, formulários, relatórios, comunicações, aulas assistidas, à supervisão de atividades extra curriculares, dos recreios, da biblioteca escolar e até dos almoços tantas vezes, à organização de exposições pedagógicas e eventos culturais, à implementação e dinamização de atividades como visitas de estudo, festas das datas comemorativas, feiras para angariação de fundos destinados a viagens de finalistas, decoração quer da sala de aula quer dos restantes espaços da Escola, correções dos cadernos de casa e dos manuais escolares, elaboração e correção de provas, preparação de reuniões pedagógicas e aí temos um manancial de reuniões, desde as de conselho escolar, as do ano que lecionamos, as do conselho pedagógico, as do agrupamento convocadas sempre que a direção o entende, reuniões de atendimento aos encarregados de educação tantas vezes, quase sempre, fora do nosso horário letivo, reuniões de entrega de avaliações, reuniões com as terapeutas, psicólogas, e até médicos e explicadores…
Com tantas tarefas a executar e prazos a cumprir, o tempo torna-se rapidamente diminuto, provocando um incomensurável desgaste e sensação de impotência, difíceis de gerir em cada um de nós. Existe neste fazer contínuo, nesta luta contra o tempo uma cegueira e um automatismo sem sentido, desprovido de consciência quanto ao que de facto é essencial à aprendizagem do aluno, da parte de quem por ignorância e falta de seriedade delega no Professor um manancial de tarefas, na sua maioria inúteis ou que deveriam e poderiam ser executadas por outros intervenientes educativos.
As expectativas que tínhamos enquanto docentes e as expectativas dos alunos enquanto seres que esperam de nós o auxílio e a capacidade inquestionável de transmissão, não só de conhecimento mas também de segurança e harmonia estão irremediavelmente comprometidas. A impotência, perante tantas frentes retira-nos a energia e até a fé no que somos capazes de fazer em prole dos alunos, tantas vezes minando de forma irremediável, as forças que julgávamos possuir.
Sentimo-nos desiludidos pela sensação de não ter estado por inteiro, de muitas vezes, não conseguirmos já manifestar entusiasmo e paixão por aquilo que nos é pedido e constatamos rapidamente que este nosso estado anímico de desilusão e cansaço extremo, transborda irremediavelmente, contagiando negativamente o desempenho dos alunos que reagem manifestando muitas vezes desmotivação pela aprendizagem.
Constata-se uma relação de causa-efeito entre ambos, que tende a agravar-se perante a inoperância e a inépcia dos órgãos decisores em matéria de ensino e educação.
A maioria de nós, professores olhamos para esta profissão como tendo uma forte componente de missão, de paixão pela interação na formação dos jovens enquanto seres humanos capazes de abrir asas e voar por si sós, um dia, não muito longínquo…
Não estamos a cumprir o nosso dever com seriedade, não estamos a ser capazes de levar a bom porto o que cada uma das crianças, cada um dos jovens que temos à nossa frente, dia após dia, acreditou que fôssemos capazes, apoiando-os no percurso árduo que têm pela frente, fazendo-os acreditar que também eles serão capazes de ser tudo aquilo com que sonharam…
Enternecemo-nos com cada conquista e entristecemos com a dor ou o insucesso de cada criança, de cada aluno nosso. Acreditamos poder conciliar em nós a capacidade bipolar de sermos em simultâneo, professores, enfermeiros, amigos, confidentes e até mães como por engano nos chamam tantas vezes… mal eles sabem o quanto nos aquecem a alma e a força que nos dão ao confundirem-nos com alguém que amam verdadeiramente.
Somos intensos e magnânimos no acreditar de que seremos capazes de tamanha responsabilidade, de deixarmos em cada um deles um pouco de nós e permitir que deixem cada um de nós um pouco da sua inocência, da sua alegria e da sua esperança. Talvez por isso os professores sejam eternas crianças…
O Ensino foi desvirtuado e encontra-se em falência eminente. Os professores não conseguirão inverter esta situação caótica em que se encontra a Escola Pública se não tivermos o comprometimento de todos os agentes educativos. Eis pois chegada a hora de todos nós, professores, governo e sociedade civil, fazermos um exame de consciência e decidirmos de uma vez por todas o que queremos para o futuro dos nossos jovens, dos nossos filhos, se ainda formos a tempo…
Um país que não respeita os Professores e a Educação, um país que não zela pelo futuro dos seus descendentes, não pode almejar um futuro minimamente promissor.
Poderemos nós, Professores, contar convosco? Se ainda formos a tempo…
Florbela Mascarenhas
Professora. Exausta, desiludida, mas que ainda acredita ser possível…
Até quando ?…
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1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns, Florbela, pela assertividade, pela acutilância, pela lucidez, pela pertinência do teor deste maravilhoso documento! Posições públicas como esta, neste momento de correção de provas, depois de mais um ano de intenso trabalho, são um alento que nos ajuda a vislumbrar de novo o horizonte desta apaixonada carreira, porém, por ora, malograda, desrespeitada, maltratada…

    Obrigada!

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