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Professores e pais na luta precisam-se

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Hoje falo para os professores e para os pais dos alunos. Não sou professora. Sou mãe. Não sou professora, mas podia ter sido pois sempre tive um enorme fascínio e respeito por os professores. Apenas a vida não me levou para esse lado. Tive professores bons, tive professores maus, como é aliás habitual em todas as áreas profissionais. Ninguém espera que todos os professores sejam bons tal como não se espera que todos os profissionais sejam bons. Chateia-me a forma como alguns pais tratam os professores, como se metessem todos os professores na mesma bitola, como se fossem eles os responsáveis imediatos pela (falta) de educação dos filhos, ou como se fossem eles os responsáveis pelos programas medonhos, enfadonhos e retrógradas a que estão sujeitos. É verdade que um professor se quiser pode dar a volta ao programa pois existem milhentas maneiras de dar o programa mais complicado e secante, mas isto exige trabalho, confiança e principalmente motivação. Os pais perguntam se existe maior motivação do que o sucesso e interesse dos seus alunos. Eu como mãe respondo, claro que sim. Comparem o trabalho de um professor com o vosso trabalho seja ele qual for. Imaginem que têm para fazer um trabalho que até é interessante, mas para chegarem lá, têm de passar por fases chatas e aborrecidas. Imaginem que conseguem dar a volta à parte chata e terminar com sucesso essa tarefa. O vosso trabalho foi brilhante, conseguiram que todos à vossa volta aplaudissem. No entanto o vosso chefe, patrão diz que não fizeram mais que a vossa obrigação. Que inclusivamente, como fizeram o trabalho tão bem feito, se calhar é porque era fácil demais. E aqueles que não conseguiram fazer tão bem, deviam ter conseguido pois afinal é facílimo realizar aquele trabalho. Qual é o resultado desta situação que tão bem conhecemos?

Desmotivação. Os professores estão desmotivados porque ninguém reconhece o trabalho que desempenham, porque mesmo que tenham vontade de mudar a forma como ensinam, ninguém lhes reconhece o esforço e tomam isso como uma obrigação.

Conheço alguns professores que vão contra a corrente e que ainda assim insistem em ser diferentes. Diferentes na forma como ensinam, como expõem a matéria, como lidam com os seus alunos. Mas para isso os professores também precisam de ser diferentes e de mudar a forma como se vêm e como lidam com o mundo que os rodeia. É preciso termos professores emocionalmente inteligentes, com uma capacidade de resiliência acima da média e capazes de continuarem a fazer um excelente trabalho sem se sentirem desmotivados pela falta de reconhecimento da comunidade. Ter professores assim, emocionalmente inteligentes exige trabalho, exige investimento e nem sempre se consegue pois por vezes o sistema está tão contra eles que esses professores são olhados de lado, como se o facto de fazerem por ser diferentes, significasse que se tinham acomodado e deixado de lutar por melhores condições.

Como mãe vos falo, a vocês professores e a vocês pais. Professores, eu percebo que estejam desmotivados, eu percebo muito bem quando não valorizam o nosso trabalho. Não sou professora, mas estou com vocês como mãe, embora perceba o quanto isso pode prejudicar os alunos, nossos filhos. Espero que tenham brevemente o reconhecimento e o que é vosso por direito. No entanto, um apelo vos faço. Neste novo ano que começa brevemente, não tenham medo de ser diferentes, de dar as aulas da forma que vos apaixona, independentemente dos programas e das exigências que vos forem feitas. Mais do que satisfazer um governo, há que satisfazer as crianças e jovens e voltar a motivá-las para a aprendizagem. Vocês professores, têm um papel fundamental no desenvolvimento pessoal e emocional dos nossos filhos. Talvez mais do que nunca, tendo em conta a indisponibilidade por parte de alguns pais, por motivos profissionais de darem o acompanhamento merecido. Estejam abertos à mudança, à inovação e a conceitos fora da caixa. A melhor resposta que podem dar a um governo que não vos respeita e não reconhece o vosso trabalho, é mostrarem o quão importantes vocês são para os alunos, nossos filhos. É mostrarem que o maior reconhecimento que podem ter, é efetivamente o das crianças e jovens. Vocês têm o poder de mudar todo o sistema educativo. São vocês que têm esse poder, não o governo. Usem esse poder para mostrar que é possível. Não se deixem intimidar por avaliações e programas insustentáveis.

Pais, não critiquem os professores por lutarem por aquilo que acreditam. Compreendo que esta situação também prejudica os nossos filhos, mas aproveitem para lhes ensinar que não se devem acomodar e que devem fazer valer sempre os seus direitos. Em vez de irem contra os professores, coloquem-se ao lado deles, de modo a que estes tenham ainda mais força. Lutem por professores emocionalmente inteligentes, que tenham a liberdade de ensinar os nossos filhos da melhor forma que encontrarem, tendo em conta as necessidades individuais de cada criança. Lutem por termos professores motivados, felizes e novamente entusiasmados pelo ensino. Esta tem de ser a nossa luta como pais.

Volto a repetir que considero que os professores têm mais do que nunca o poder de mudar todo o sistema educativo. Façam todos por isso. Os nossos filhos agradecem.

Rita Silva Cardoso

3 COMMENTS

  1. Obrigado mãe pela sua análise e opinião. A mensagem pela colaboração pais e professores não podia ser melhor. Obrigado

  2. Esta pessoa merece toda a nossa consideração e respeito! Na verdade, nem há dinheiro nenhum que pague as suas palavras e o seu apelo! Não há tempo de serviço algum que seja contado que valha tanto quanto a Senhora percebe a importância da Escola e do Ensino na Educação e Desenvolvimento de um país e no caso de Portugal. A função já teve grande dignidade junto do Povo.
    Podemos mudar o Sistema Educativo, todo ele destruído, incoerente, desumanizado. Ser Professor exige qualidades até inatas, exige competências de humanidade, pedagogia, cientificidade e estas palavras não as uso em vão. Mas hoje podemos mudar o Sistema em momentos fugazes e se tivermos saber inato para o processo (o dom) e vontade, mas como está, é impossível.
    Todos sabemos que o Sistema Educativo está destruído porque como e bem dizia Maria de Lurdes, foi ganha a Opinião Pública como aquela Senhora queria e conseguiu mesmo perdendo os Professores e perdeu-os e o Sistema perdeu-se também! Já nem é sequer a questão da contagem integral de todo o tempo de serviço, é todo o Sistema, é a ingratidão, foi o achincalhar da Escola portuguesa, hoje sem rumo!
    Obrigado pelas suas palavras, tocou exatamente no cerne do problema desta Greve: é na verdade algo mais do que uma contagem integral de tempo de serviço, é um grito de revolta pela falta de respeito do poder político perante este grupo profissional, que a médio e longo prazos é sem dúvida o mais importante de qualquer país!

  3. Se as confederações de pais tomassem o exemplo desta E,E, todos beneficiariam, principalmente os nossos alunos Eles sabem que os apoiamos nos bons e nos maus momentos, que os sucessos deles são a nossa motivação e, ao olhá-los nos olhos, reconhecemos as suas dúvidas e as suas angústias. Somos nós que lutamos por programas mais ajustados , por turmas mais reduzidas para os podermos acompanhar mais de perto, disponibilizamo-nos para os preparar para exames em aulas extra, estamos atentos e ouvimo-los desabafar os seus problemas familiares …
    E as confederações de pais??? Para que servem?
    Todos sabemos que são mais um trampolim para voos mais altos…

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