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Professores, Cidadãos Invisíveis

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«Precisamente hoje, em algum lugar no país, no seio de tantos professores a sentirem-se sós, mais só ainda, um professor senta-se e chora.
Precisamente hoje, uma atacante que agrediu uma juíza, ficou detida.
Mas depois, naturalmente, quando um agente da autoridade é agredido, enquanto ainda está a preencher o auto de ocorrência, já o criminoso foi solto.
Em qualquer outro lugar, criminosos agridem médicos e saem com simples termo de identidade e residência.
Em todo o lugar, professores que se tornam sacos de pancada de criminosos malformados que os espancam, esfaqueiam, matam os filhos que as professoras carregam no ventre, incrédulos veem os agressores saírem em liberdade e ainda se vangloriarem diante dos órgãos de comunicação social daquilo que fizeram afiançando que ainda deveriam ter feito pior.
Tudo assuntos que são silenciados.
Então a desigualdade entre os cidadãos torna-se bem visível.

Para bem da verdade se diga que tudo isto passa uma mensagem de impunidade para quem cometa um crime contra qualquer cidadão, desde que não o pratique sobre um magistrado.

O que é grave não é assistir à detenção de uma pessoa que agride uma juíza.
O que mais me impressiona é ver as pessoas que agridem agentes da autoridade, médicos e cada vez mais professores, invariavelmente saírem sempre em liberdade.
Todos somos humanos, mas o valor da nossa vida, da nossa integridade física e moral tem valores diferentes dependendo da profissão que desempenhamos.

É bem verdade que tudo isto está a acontecer por algum motivo. Ainda não esqueci os dias em que não queria ligar a televisão, por saber que falavam mal de mim, mal de todos nós que abraçámos a profissão de ensinar.
Não foi assim há tanto tempo que os detentores de tempo de antena e de poder competiam entre si a ver quem mais conseguia denegrir e admoestar aqueles que ensinavam e que, não raramente, educavam os filhos dos outros.
Como professor, que vai assistindo à crescente onda de maus-tratos infligidos aos meus colegas em serviço, não posso deixar de lamentar a falta de apoio dos órgãos de soberania que não levantam a voz para os defender com a mesma vontade com que a ergueram para os vilipendiar e insultar ao longo de tantos anos. E o pior foi uma sociedade que se tornou parente deles.
Dá-me pena perceber que este é, agora, o nosso habitat.

Quando se torna banal um professor ser humilhado na sua dignidade pessoal e profissional sem que ninguém se preocupe com isso continuando a dormir descansadamente, conseguimos perceber que valores temos, em que tipo de sociedade nos tornámos e as pessoas que somos.
Durante as noites em que desaprendi a sonhar penso nessa indiferença de tanta gente que já não precisa da verdade. Como já não consigo dormir, espreito para além da escuridão onde alguém respira medo e desilusão.
Algures ao longe, a sentir-se ainda mais só ensimesmo, mais um professor senta-se e chora o nascimento do medo e do desencanto num lugar onde, entre os diferentes, já não há iguais.»

Texto do colega Carlos Santos

2 COMENTÁRIOS

  1. Coitadinhos dos professores.
    Pena que ninguém presta atenção quando esses mesmos professores se esquivam de suas mais simples obrigações, discriminam os alunos, crianças indefesas, faltam aos seus deveres, mentem descaradamente e tratam tudo com descaso.
    Não são só os agressores de professores que saem impunimente neste país, basta ver as inúmeras notícias de pedófilos que sequer são presos.
    É o retrato desta sociedade.
    Pais, encarregados de educação já estão fartos.
    Mas, coitadinhos dos professores.

    • Então, o seu menino é um dos “coitadinhos” que só diz a verdade?! Que foi discriminado pelos malandros dos professores que mentem. Há sempre o outro reverso da medalha… Enquanto existirem pais que acreditam em tudo o que os seus rebentos dizem, estamos conversados.!!
      Atenção! Não sou professor, mas observo o que se passa num recinto escolar, infelizmente.
      As crianças não mentem? Ah! Pois não, não mentem!! Crianças indefesas? Nem todas! E os que agridem, são o quê?
      Só quem mora perto de uma escola é que tem noção do que se passa nos recreios (que é o meu caso) …o tipo de linguagem utilizada diz muito sobre o tipo de educação que têm em casa.
      Os valores não existem. O egocentrismo é o rei.
      Quando os pais/encarregados de educação desvalorizam o saber, desvalorizam a escola e os seus profissionais, não cumprem as regras mais básicas de civismo…O que fazer?!
      Os professores também já estão fartos e sozinhos não conseguem mudar este tipo de sociedade. Esta mudança depende de todos nós.

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