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Professores Agredidos E A Vergonha De O Ser

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Na semana passada fui contactado pela jornalista do Notícias Magazine com o intuito de partilhar informações sobre professores agredidos ou o contacto de alguns deles. Durante a conversa foi notória a dificuldade da jornalista em encontrar professores que estivessem dispostos a falar, mesmo com a sua identidade salvaguardada.

Uma agressão é uma agressão, é uma violação do nosso espaço, é algo que tem o intuito de nos magoar e fazer sofrer, pode até deixar marcas e levar a sequelas físicas para o resto da vida. Porém, estas não se comparam às marcas psicológicas que ficam profundamente enraizadas no nosso ADN emocional.

Ser agredido, à frente de uma turma, ou de toda uma escola, é uma humilhação de dimensão dantesca que ninguém alguma vez poderá esquecer. E o pior é que essa humilhação não termina nesse momento, o respetivo professor será sempre motivo de comentários, ficará carimbado como “o professor que levou o soco do João”, ou “o professor que ao sair da escola foi agredido pelo pai do Manel”.

Alguns conseguem ultrapassar esta situação e seguir em frente, para outros, a mudança é inevitável, afetando a sua relação com os seus pares e principalmente com os seus alunos.

Existem professores que apesar de agredidos, preferem abdicar dos seus direitos de defesa, apresentando a devida queixa nas autoridades, passando uma esponja sobre o que aconteceu com medo de represálias, mas acima de tudo, passando por cima da humilhação de vivenciar tudo novamente. Mas aquilo que marca profundamente é quando uma direção de uma escola prefere apagar ou diminuir o sucedido, para que a imagem da escola não fique associada a algo negativo. Compreende-se a posição de quem tem a seu cargo todos os alunos, todos os professores e funcionários, onde um incidente grave pode ter o efeito de bola de neve, afetando de diferentes formas uma escola que vive diariamente em competição com outras. Porém, o professor agredido nunca irá entender esses motivos, pois na sua memória permanece apenas a dor, a vergonha e a falta de compaixão de quem supostamente deve ser o primeiro a defendê-lo.

E já nem falo do Ministério da Educação pois esse colocou-se num pedestal tão alto que já nem se importa com a saúde dos seus professores.

A escola apesar de levantar a bandeira da Cidadania, nem sempre a pratica e nem sempre a pratica com aqueles que a ensinam… Nem todos têm a capacidade de se colocar nos sapatos dos outros ou a sensibilidade para dar tempo e apoio a um dos atos mais atentatórios à dignidade de um Estado democrático. Lembro que o Estatuto do Aluno contempla esta questão, podendo um professor agredido solicitar a mudança de turma do agressor, caso exista turma semelhante (ex: cursos profissionais) e com vaga.

Agredir um professor é um ato extremo de ataque à própria sociedade, ao que esta representa: a passagem de sabedoria, a sua evolução, o compaixão e preocupação pelo seu próprio futuro enquanto coletivo.

Um forte abraço a todos os professores que passaram pelo ato mais desprezível e os meus sinceros parabéns a todos os que persistem e não desistiram, mesmo que condicionados no seu subconsciente. Aos restantes, que o tempo faça o seu trabalho e que aos poucos se recupere um profissional de qualidade e que ainda pode fazer a diferença.

Alexandre Henriques

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7 COMENTÁRIOS

  1. Do post (que partilhei) ficam-me estas interrogações: será que não é exatamente por causa da dita «falta de compaixão» que os professores agredidos se demitem da defesa dos seus direitos? será tão compreensível assim que valha tudo em nome da imagem e da competição entre escolas?; e sobretudo, será que é assim que se impede que a bola de neve da indisciplina continue a rolar e a aumentar até esmagar alguém?

    Deixo mais uma evidência, mais «Um caso que não teve consequências de maior»

    «Escola da Covilhã suspende preventivamente aluno após incidente com funcionário
    Outubro 11, 2019
    Um aluno da Escola Secundária Campos Melo envolveu-se num “incidente” com um funcionário, confirmou à Rádio Clube da Covilhã a diretora Isabel Fael. Os factos ocorreram ontem e o aluno “foi suspenso preventivamente durante 3 dias, enquanto decorre o procedimento disciplinar”, referiu ainda a diretora.

    Segundo avançou, “o incidente ocorreu fora das salas de aula”, acrescentando que “as medidas necessárias de prevenção já foram tomadas”.

    Um caso que não teve consequências de maior, ainda assim a diretora assume que a brigada da “Escola Segura” da PSP, foi chamada ao local, “tal como é chamada muitas vezes face ao protocolo existente com a polícia”.

    http://radio-covilha.pt/2019/10/ultima-hora/escola-da-covilha-suspende-preventivamente-aluno-apos-incidente-com-funcionario/?fbclid=IwAR3Qzc-DV70MrqkjJTvsFtMDDfEXZjAsryip2uLDc3hMFu0zaNpavBxzvus

  2. Levantar a bandeira da cidadania é um sintoma do fracasso educativo. A boa escola tem no seu ADN a cidadania. Aprende-se a ser cidadão pelo exemplo, cultivando a responsabilidade, a empatia… Muitas escolas deixaram que a indiferença, o sucesso fácil, a relação horizontal se instalasse. Infelizmente, para muitos, a autoridade e o autoritarismo são sinónimos! A autoridade reconhece-se, o autoritarismo impõe-se. Quantas escolas se demitem da sua função em consequência desta confusão?

    • Concordo inteiramente. Uma escola onde há bullying, assédio moral ou agressões sobre alunos, professores ou funcionários não é uma escola.

  3. Gostaria de deixar outro facto… A agressão de adultos sob os professores. Neste caso refiro a agressão verbal, física, emocional e psicológica de professores sob professores…é muito mau…
    Até ainda não consegui provar esse facto… Mas que acontece lá isso acontece…MAS É TABU.
    No ano transacto passei por isso, este ano o mesmo…porém acontece a hierarquia manda…


  4. Não estou a entender!…

    “,,,professores que apesar de agredidos, preferem abdicar dos seus direitos de defesa”

    “…aquilo que marca profundamente é quando uma direção de uma escola prefere apagar ou diminuir o sucedido”

    Mas afinal, a culpa é de quem? …Será do porteiro da escola?…será do jardineiro?…Será o Ministro da Educação?

    Quem dirige as Escolas? Que eu saiba são professoras (apalermadas)…mas são professoras…

    Portanto….os culpados são os PROFESSORES e, como tal, não tem que se queixar. A culpa deste estado de coisas é dos professores que são uma classe profissional sem classe nenhuma. Uma VERGONHA.

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