Início Notícias Professora que morreu “nunca se mostrou cansada nem desgastada”

Professora que morreu “nunca se mostrou cansada nem desgastada”

1152
8

Por isso tenho dito que é preciso ter algum cuidado com o que se afirma. Aquilo que para mim é excesso de trabalho, para outro pode estar dentro dos parâmetros normais e vice-versa. Cada caso é um caso. A vida familiar, a vida profissional, a capacidade de resiliência, a idade, a saúde de cada um e outros fatores, podem justificar por si só, ou pelo seu somatório, um desfecho trágico.

Fica a notícia.


O excesso de trabalho nalguns casos pode estar associado a uma morte súbita, confirma o psiquiatra Pedro Afonso, numa entrevista ao PÚBLICO. Mas terá sido isso mesmo que aconteceu aos quatro docentes apontados pela Federação Nacional de Professores (Fenprof) como podendo ter morrido devido aos horários que praticavam?

A Fenprof solicitou, nesta quinta-feira, à Procuradoria-Geral da República (PGR) que averigúe as causas das mortes destes professores, ocorridas “em pleno desenvolvimento da sua actividade profissional”. Mas as situações descritas pela maior estrutura sindical de docentes, a pretexto da última denúncia que fez sobre a “tremenda sobrecarga horária e de trabalho” a que os docentes estão sujeitos, chocam com alguns testemunhos recolhidos pelo PÚBLICO.

O companheiro da professora de inglês de 45 anos, da Escola Básica e Secundária de Fajões, em Oliveira de Azeméis, que morreu num domingo de manhã de Junho, quando estava a corrigir testes, recusa relacionar a morte da docente com o excesso de trabalho. “Não me parece justo nem honesto assumir isso, até porque ela tinha prazer no trabalho que fazia.”

A primeira da série de mortes relatada pela Fenprof ocorreu em Março passado, com outra professora de inglês, de 49 anos, colocada no Agrupamento de Escolas de Manteigas. A Fenprof diz que morreu “em plena sala de aulas”, mas o professor de Matemática João Tilly, que foi seu colega há dois anos, dá conta numa mensagem que colocou no Facebook de que a morte ocorreu no Hospital de Viseu, para onde acabou por ser transferida depois de ter sido transportada para o centro de saúde de Manteigas e depois para o hospital da Guarda, tudo com largos intervalos de espera. Foi vítima de um acidente vascular cerebral hemorrágico. “Alunos e colegas transmitiram-me que andava a queixar-se havia algum tempo de fortes dores de cabeça e que estava a adiar consultas médicas por sentir a pressão das aulas e dos testes que tinha de entregar”, contou ao PÚBLICO.

De escola em escola

Conheceu a docente em causa quando ela esteve colocada no Agrupamento de Escolas de Seia, um dos muitos por onde passou. Apesar de ser professora do quadro, o facto de não ter um mínimo de seis horas lectivas atribuídas na sua escola de origem obrigava-a a concorrer todos os anos a outros agrupamentos. No ano lectivo passado, conseguido um horário completo, ficou com turmas do 7.º ao 11.º ano de escolaridade, refere Tilly, frisando que “uma carga como esta conduz a um stress e a uma pressão  permanente à qual nem todos conseguem resistir”.

Recusando estabelecer qualquer relação causal entre a morte da professora de inglês da Escola Básica e Secundária de Fajões e a sobrecarga de trabalho, e numa altura em que continua a aguardar os resultados definitivos da autópsia, o seu companheiro não deixa, ainda assim, de alertar para a carga de trabalhos inerentes ao desempenho docente que ultrapassa em muito as horas semanais de trabalho. E lembra também que “a sobrecarga administrativa absorve mais tempo semanal aos professores que o tempo lectivo directo com os alunos”. Por seu turno, o director do agrupamento, António Camilo, descreve também uma professora “simpática e bem-disposta, sempre disponível para trabalhar”. “Nunca faltou nem deu sinais de nenhum problema e, aparentemente, era saudável”, referiu ao PÚBLICO.

À semelhança da professora de Manteigas, também esta docente pertencia aos quadros. Já a professora natural do Fundão, que faz também parte da lista de docentes que morreram recentemente feita pela Fenprof, continuava a contrato apesar de ter já 21 anos de aulas e muitas escolas pelo caminho, algumas em horários de poucos meses. No passado ano lectivo, com 51 anos, esta docente de História foi colocada na Escola Secundária Campos Melo, na Covilhã, onde lhe foram atribuídas 17 horas de aulas por semana. Legalmente o máximo são 22 horas. A direcção da escola não quis pronunciar-se sobre este caso.

Na participação que entregou à PGR, a Fenprof dá conta também de um professor de Odivelas que terá morrido a trabalhar. “Acho estranho porque os directores dos agrupamentos de Odivelas reúnem-se regularmente, encontrámo-nos ainda recentemente, e ninguém referiu essa ocorrência”, comentou um dos responsáveis.

O PÚBLICO não obteve respostas do director do Agrupamento de Escolas de Manteigas. No site da escola continua apenas esta curta mensagem de Março: “Hoje é um dia triste para todos pela perda de uma professora, de uma amiga que partiu demasiado cedo.”

Fonte: Público


Fenprof já enviou pedido à PGR para investigar mortes de quatro docentes

“O excesso de trabalho pode estar associado a uma morte súbita”

COMPARTILHE

8 COMENTÁRIOS

    • Exatamente colega… É que a grande parte dos que vestem a camisola “Professor/a”, gostam muito do que fazem e recusam, inconscientemente querer aceitar wue têm que dizer chega… Eu infelizmente sei o que é isso e mesmo depois de ter tomado medidas concretas para mudar, tenho que estar muito alerta… E ainda devíamos analisar a taxa de suicídio na profissão docente…

  1. “ trabalhava mais de 50 horas por semana mas mas não estava cansada nem desgastada”, quem o afirma é o companheiro…ele, coordenador de uma escola!!!!!
    Se não reparou na companheira, a trabalhar mais de 50 h e ao domingo (!!!!!), o que será como coordenador… infelizes dos coordenados…
    É este o modelo de gestão que temos.

    • Achas que ele é professor ou marido? Ou tem família!
      É coordenador de uma escola… comissário político da tutela e do modelo da famigerada mlr. Família?
      Isso que interessa?!

      • Foi mobilizado para responder pela tutela e justificar o seu cargo. Os afetos são privados, os cargos são públicos.

  2. Cuidado porquê? Que existe uma relação direta entre mortalidade e sobretrabalho é uma evidência que não se pode negar, que os professores são abusados com sobretrabalho inútil, que lhes causa stress porque lhes rouba tempo para o trabalho que conscientemente e responsavelmente eles sabem que têm de fazer, e que se sentem permanentemente em falta por isso, também é um facto, que isto é desgastante, é indesmentível. Que o desgaste mata é outra verdade indesmentível.
    É verdade que não estamos a morrer às centenas, porque outros fatores interferem como fatores psicológicos, genéticos, etc. Não temos todos a mesma resistência e as mesmas formas de enfrentar os abusos. Mas que estão a atentar contra a nossa vida, que a nossa longevidade está ameaçada, também é um facto, que ao longo da nossa profissão vemos tombar muitos colegas também é um facto. Uns resistirão mais do que outros, também os soldados no campo de batalha.
    Que existam professores que abracem o sobretrabalho com alienação, não altera em nada o que foi dito, faz parte da doença, é uma espécie de variante de síndroma de Estocolmo, em que alguns professores agradecem a quem lhes captura o corpo e a mente e são levados pela vertigem. Também as estatísticas dizem que as mulheres solteiras, viúvas e divorciadas, vivem mais tempo do que as casadas e nem por isso as mulheres deixam de abraçar o casamento alegremente. Do que não há dúvida e está provado, é que a canseira mata, e também está provado que os professores têm muita canseira. Por isso, cuidado com o quê? com os professores é que deverá haver cuidado.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here