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Portal Das Matrículas. Contrato De 350 mil Euros Não Evita Falhas Graves, Nem Inclui Suporte Para O Safari

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Um dos campos que é preciso preencher durante o processo de renovação de inscrições escolares no Portal das Matrículas diz respeito ao país de origem do aluno. Apesar de ser acima de tudo direcionado para alunos portugueses, Portugal não surge como a opção pré-selecionada. O utilizador tem então de digitar o país de origem do aluno, para que o sistema faça uma pesquisa, numa comunicação com a base de dados, entre as largas dezenas de países que estão disponíveis. Quando tal acontece, o site está a criar um fluxo de informação que podia ter sido evitado. Ao longo de todo o formulário, há outros campos de preenchimento, em moldes semelhantes, que obrigam a uma comunicação constante do sistema com a base de dados. Quando estão milhares de pais, em simultâneo, a preencher o formulário, como aconteceu sobretudo nas duas últimas semanas, acontece o inevitável: a plataforma fica lenta, avançar no processo de matrícula torna-se quase impossível e são necessárias várias horas para concluir a matrícula.

Nas redes sociais, no Portal das Queixas, também junto de associações de pais, multiplicaram-se os desabafos sobre os problemas notórios do Portal das Matrículas. Numa fase em que o país ainda está em processo de desconfinamento, devido aos constrangimentos provocados pela pandemia da Covid-19, tratar de todo o processo online tornou-se ainda mais essencial. É o próprio Ministério da Educação que, em resposta por e-mail enviada ao final desta sexta-feira a questões colocadas pela Exame Informática, sublinha a importância vital do site nesta época. “A circunstância da pandemia tornou esta ferramenta ainda mais indispensável, evitando que os encarregados de educação tivessem de se deslocar e concentrar nas escolas para efeito das matrículas dos seus educandos”.

O processo de matrículas iniciou-se no dia 4 de maio e termina neste domingo, 12 de julho, contemplando pelo meio diferentes etapas de renovação consoante o nível de escolaridade dos alunos. Os números de acesso à plataforma são explícitos: picos de 90 mil transações de informação por segundo, picos de sete mil matrículas por hora e o processamento de mais de 100 mil matrículas num só dia, segundo dados cedidos pelo próprio Ministério da Educação, que tem a tutela da plataforma.

Perante as queixas dos pais, justificou-se com um grande número de acessos e com um ataque informático que chegou a gerar 1 gigabits por segundo de tráfego malicioso. A questão é que, segundo especialistas ouvidos pela Exame Informática, os problemas do Portal das Matrículas vão muito além destas duas justificações.

“Era toda uma lentidão no acesso”, conta Pedro Gandarinho. Pai de duas crianças, fez, no início de maio, a inscrição de uma delas sem problemas, mas quando já em julho tentou renovar a matrícula da segunda, percebeu as críticas que circulavam online. “Acho que muita da lentidão tem a ver com a forma como os formulários estão feitos. Estão a carregar dinamicamente as várias opções. Para escolher uma morada, que se tem de fazer várias vezes, começamos pelo país e aparece logo uma listagem para aí de 20 ou 30 valores. Portugal não é logo um valor pré-definido à cabeça e podia ser. Era uma otimização simpática”, explica o agora programador de aplicações para iOS, mas que já foi no passado programador web. “Não sei se há índices na base de dados que não estão bem feitos ou se é a própria base de dados que está a demorar tempo a responder, porque em termos de volume, não é um volume de dados grande”.

João Pina, programador com larga experiência em desenvolvimento web, considera que o Portal das Matrículas “tem implementações técnicas muito questionáveis”, concordando com o problema dos campos de preenchimento dinâmico. “Não faz sentido estar a fazer grande pedidos [à base de dados] por cada letra que se mete”, sublinha.

Um portal em dificuldades

Os campos de preenchimento dinâmico são apenas um dos problemas identificados no Portal das Matrículas. Além da lentidão, são vários os relatos sobre perda de informação já registada, renovações de matrículas já entregues e das quais depois não aparecia qualquer registo, campos que apareciam sem opções e que eram de preenchimento obrigatório, opções que não se enquadravam com o ano letivo da matrícula do aluno, entre muitos outros. “Há claramente falhas do ponto de vista da usabilidade”, considera Pedro Gandarinho. “Em termos de usabilidade espelha muito o papel, aquela hierarquia habitual das coisas em papel”.

João Pina detetou ainda outro problema. “Ao fazer a autenticação no Portal das Matrículas, havia um redirecionamento para o meu próprio computador”, conta, redirecionamento este que gerava um erro e que impedia o utilizador de aceder à plataforma. Segundo o especialista, “houve uma implementação errada” na forma como o portal estava a lidar com o grande número de acessos.

A implementação de uma solução de escalabilidade automática de capacidade de resposta do servidor, que atualmente já nem obriga ao envolvimento de ação humana, e a contratação de uma rede de distribuição de acessos (CND na sigla em inglês), que permite evitar problemas de desempenho perante um grande fluxo de tráfego – seja dos pais que estavam a atentar aceder à plataforma, seja até do próprio ataque informático que aconteceu –, são outros elementos que João Pina considera que deveriam ter sido acautelados num projeto desta natureza e importância. “O site tem de aguentar, tem mesmo de funcionar. (…) Mas o que existe nos cadernos de encargo [do contrato de desenvolvimento]? Existem requisitos de segurança, existem requisitos de escalabilidade? Acho que não, mas tem de começar a estar pensado. É preciso uma auditoria pré-lançamento, se não depois quem é contratado demarca-se, pois não está no caderno de encargos”, acrescenta ainda João Pina.

Além de todos estes problemas já relatados, foram vários os utilizadores que se depararam com escolhas que os peritos consideram, no mínimo, questionáveis: o Portal das Matrículas não funciona com o navegador Safari, que é o segundo mais usado no mercado português, segundo dados da Statcounter; e também não funciona em dispositivos móveis, obrigando o utilizador a recorrer a um computador para realizar a renovação da matrícula.

“Pelo menos funcionar em todos os browsers é o mínimo, estamos em 2020, não estamos em 2010, em que tínhamos browsers muito diferentes e com muitas incompatibilidades”, considera Pedro Gandarinho. João Pina também sai ao ‘ataque’: “Para Safari não faz sentido algum não haver suporte. Para dispositivos móveis ainda percebo que existem interfaces difíceis de desenvolver, consigo perceber, mas custa-me a aceitar. Temos que pensar que há famílias que só têm telemóvel. Tendo em conta o contexto que o site tem, é importante estar disponível para telemóvel”.

Questionado pela Exame Informática, o Ministério da Educação esclarece que o Safari não é suportado pois “não foi priorizado nas tarefas de desenvolvimento, uma vez que a adaptação da plataforma a esse browser em concreto exige desenvolvimento específico, os quais não foram possíveis no curto espaço de tempo existente”. Já sobre o não funcionamento do Portal das Matrículas em dispositivos móveis, “foi considerado que o processo de matrícula, pela sua especificidade e nos moldes atuais, não é de utilização fácil por essa via”.

O contrato urgente

O Portal das Matrículas não sendo novo, foi sujeito a remodelações justamente para poder acomodar um maior número de utilizadores, que já eram esperados devido às condicionantes impostas pelo período de pandemia. No dia 22 de abril foi publicado no Portal Base, a plataforma que permite aceder à informação sobre os contratos públicos, um contrato de 348.356 euros referente à aquisição de serviços de desenvolvimento do Portal das Matrículas. O contrato foi atribuído, por ajuste direto, à empresa LCG Consultoria SA.

Sobre este contrato, o Ministério da Educação explica que para poder dar resposta às renovações de matrículas para o ano letivo 2020/2021 “foi necessário robustecer o sistema, através de nova contratação por parte da Direção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência (DGEEC)”. A LCG Consultoria SA já tinha sido responsável pelo desenvolvimento do atual Portal das Matrículas, criado para responder à inscrição de alunos na altura ainda referente ao ano letivo de 2019/2020, motivo máximo apontado pelo Ministério da Educação para justificar o ajuste direto que foi feito.

“Atendendo à urgência dessa resposta, esse serviço foi contratado por ajuste direto à equipa que concebeu o Portal, dentro dos valores legalmente regulamentados em tempo excecional de pandemia e por se tratar de uma “urgência imperiosa””,

Apesar do contrato de quase 350 mil euros para dar mais ‘músculo’ ao Portal das Matrículas, a plataforma falhou – ao ponto de o Ministério da Educação ter anunciado que o processo de renovação de matrículas é agora automático para a esmagadora maioria dos alunos.

Fonte: Visão

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