Início Editorial Porque ser professor não é desperdiçar a vida, não me calo….mesmo avisado

Porque ser professor não é desperdiçar a vida, não me calo….mesmo avisado

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Na altura do Natal fico estranho.Entre 26 de novembro e 25 de dezembro lembro-me muito da minha mãe. Fazia anos no dia de anos da Tina Turner e, entre essa data e o Natal, lembro-me muito dela.

Lembro-me, por exemplo, do que dizia sobre poderem tirar-nos tudo (bens,dinheiro, estatuto) mas não nos poderem tirar o que estudamos e aprendemos e a liberdade de pensar pela própria cabeça. Passou pela experiência da solidão extrema e de ficar quase sem nada e sabia o que dizia.

Hoje, lembrei-me dela ao saber de mais alguns comentários e algumas reações menos simpáticas sobre comentários que ando a fazer aqui e noutros locais. Desde que a ILC foi lançada, e desde que escrevi aqui alguns comentários sobre sindicatos e a “luta”, tenho tido, por várias vias, avisos, simpáticos ou menos agradáveis dos riscos que andarei a correr.

Ser professor é ser conformista?

Contra a vontade da minha mãe sou professor. Nunca mo disse, mas achava que eu ser professor era um desperdício. Adorava a profissão, mas achava que não seria boa para os seus filhos. Para mim, desejava Direito. Para o meu irmão era outra coisa. Teve azar nos projetos porque decidimos os 2 ser professores. Decidimos porque podíamos, podemos e poderemos ser outra coisa. E não damos a vida por desperdiçada.

Já fui comerciante, repórter e locutor de rádio, promotor de espetáculos, assistente de realização, político, funcionário de outro ministério (administração interna) e diretor de um agrupamento. Até já estudei Direito e não fui dos piores alunos. Podia ser cada uma dessas coisas ainda hoje (e sabia bem o caminho a trilhar para o ser).

Mas volto a ser professor, dos que dão mesmo aulas todos os dias, com gosto e com vontade. E sou feliz numa sala de aula com alunos. Aliás, a todos os que simpaticamente me desejam outros rumos “melhores” respondo sempre que acharem que ser professor é “coisa fraca para mim”, embora embrulhado num invólucro simpático sobre as minhas capacidades, que dariam “para mais”, não deixa de ser ofensivo.

E encerra o juízo negativo de que se aquela pessoa acha que ser professor é profissão para incapazes (que eu até não seria) o país está tramado. Ser professor só convém aos que não são capazes?

Nesta altura do Natal lembro-me dos familiares professores já falecidos (tio avô, tias avós, mãe, avó, bisavó e bisavô) e penso que, tendo grandes capacidades, alguns mesmo brilhantismo, também não deram a vida por desperdiçada. Os alunos falam deles ainda hoje. E são a prova de que não foram vidas desperdiçadas, ao falarem deles.

O perfil geral dessa gente foi de vontade de servir o público e o país, pouco interesse em ser rico e o gosto de ser lembrado. E são lembrados. Da minha mãe, os alunos dizem coisas maravilhosas e isso vale bem o consolo de pensar que destruiu precocemente a saúde em nome de uma certa dedicação ao ensino que os políticos do seu tempo não entenderam e os atuais continuam a desvalorizar.

Tendo 2 filhos para criar sem pai, nunca determinou a sua vida pelo comodismo de não se envolver nos problemas da escola ou de se proteger simplesmente, calando-se e conformando-se ao ver problemas.

Podia estar hoje entre as referências universitárias das ciências de educação portuguesas, mas a opção pela investigação foi preterida porque criar 2 filhos tinha implicações de economia. Acho também que, a dada altura, isso foi uma opção mais definida por falta de pachorra racional e científica para baboseiras. Creio que, no fim, não lamentou não ter podido ir no grupo dos Mestrados de Boston (onde esteve selecionada) ou ter recusado nos 80 lecionar em Universidades dos cursos nascentes de formação de professores.

Não lhe herdei a doçura, a paciência ou a serenidade. Quero crer que lhe herdei a coragem e o sentido de justiça. Acima de tudo, partilhamos a falta de pachorra para medíocres, mal formados e mal intencionados que nos fazem perder tempo com as suas visões pequeninas, burocráticas e mesquinhas. E que mandam bocas por trás, por falta de coragem de nos dizerem as coisas pela frente. Ou que fazem comentários anónimos por falta de solidez de caráter para assumirem os debates.

O caminho das pedras que mordem

Ao longo da minha vida, sempre a minha mãe me avisou para os perigos da atitude que ela própria me inculcou: seguir o caminho das pedras que mordem e não aceitar que me retirem o cérebro para por no lugar uma bola de ping-pong oca (quem leu as Aventuras de João Sem Medo de José Gomes Ferreira sabe de que episódio falo).

E hoje faz falta, cada vez mais, nervo livre e cérebro nas escolas. Não cair no conformismo, desânimo, acomodação à burocracia e aos ditames dos descerebrados oportunistas políticos das instâncias governamentais.

Pensamento e visão transformacional nos professores, e não encolher de ombros e resignação, é o que faz falta. Sentido crítico face às escolas, à burocracia, à gestão, à “legislação”, aos pais e suas manias, aos alunos e seus desvios. E até face aos vícios dos professores. E falar e expressar visões refletidas e transformacionais sobre a realidade.

Nem tudo está bem. E como dizia Peter Drucker, que os meus correligionários políticos de esquerda detestam que cite: devemos matar a complacência, antes que a complacência nos mate a nós.

Analisando a educação que tive penso, muitas vezes, que mais do que para a busca da excelência na escola e na vida, de que tantos falam hoje (sem saber do que falam, tantas vezes, ou falando só da casca da cebola) fui educado para lutar contra a complacência. A começar pela minha própria. Angustia o quotidiano, mas evita que desperdicemos a vida em horizontes curtos.

O “consenso” sem debate, muito debate, é simplesmente paz podre e instalação do fracasso, mesmo que se disfarce no curto prazo e, no presente, se possa dizer candidamente  que tudo vai no melhor dos mundos.

E criar para a complacência, mesmo disfarçada de “excelência de ranking”, é capaz de ser muito mau serviço de professor.

Como dizia a minha avó: o juízo sobre a minha vida profissional vai ser feito pelos alunos adultos, não pelos pais, nem pelos diretores, coordenadores ou sequer outros colegas.

E ela sabia bem do que falava, carregando em si o mau feitio que herdei dela. O meu tio avô não foi diretor escolar porque pensava pela própria cabeça. A minha mãe, mulher de esquerda, foi ameaçada de saneamento por não permitir que se queimassem livros (mesmo “fascistas”).

Por isso, aos que me anunciam grandes desgraças e “morte pela espada”, pelo que digo e faço aqui e noutros sítios, na crítica do estado das escolas e da educação, só respondo com o meu lema pessoal: quem escolhe o seu caminho não tem de se lamentar.

E intimida-me mais renegar a herança da minha mãe que o medo que me possam tentar incutir. 

E  afinal este parolo e o que diz incomoda assim tanto?

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6 COMENTÁRIOS

  1. Grande mulher, a sua mãe!
    Desacordos há muitos. E isso é bom. Em democracia, temos a liberdade de pensarmos pela nossa cabeça. Em ditaduras, não. Discordo muito frequentemente com o que escreve. Mas, qual é o problema?

    Uma grande admiração também pelo João sem Medo que vivia no país do Chora-que-Logo-Bebes, se a memória não me falha.

  2. Fantástico texto…em dias, que por vezes são de desânimo, sabe bem ler estes testemunhos, de colegas, que presumo mais velhos, mas que nos dão vontade de continuar a lutar e a acreditar!
    Obrigada

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