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Porque “O Essencial É Invisível Aos Olhos”

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Completa-se hoje uma semana. Num comunicado ao país, António Costa declarou o estado de alerta, devido aos primeiros casos de Covid-19 diagnosticados no país, que já tinha sido considerado pela Organização Mundial de Saúde uma pandemia. No mesmo discurso, o primeiro ministro determinava o encerramento de todas as escolas a partir da segunda-feira seguinte.

Nessa noite, cá em casa, a três, conversámos sobre essa imposição e sobre esta responsabilidade e percebemos, de imediato, os desconfortos que adviriam do facto de estarmos recolhidos no conforto do lar. Foi fácil começarmos a idealizar atividades que pudessem trazer aos nossos dias alguma magia. O serão foi longo e passava da uma da madrugada quando cinco ministros apresentaram as medidas que mudariam as nossas vidas e me deixaram presa aos seus discursos.

Na manhã de sexta-feira, na escola, apercebi-me de que ninguém, além de mim, tinha ouvido a conferência de imprensa da madrugada anterior. Ainda assim, muitos tinham já lido ou ouvido notícias e, por isso, precipitaram-se a fazer deduções e a espalhar o pânico que se propagava num louco contágio – ainda não eram 8.30h, já uma colega anunciava que os alunos não iriam à escola a partir de segunda-feira, mas que os professores e os funcionários tinham de ir trabalhar, e outro teimava que iríamos para casa trabalhar, mas que só iríamos receber 66% do vencimento. Cansada de ouvir tantas certezas absolutas, fui pondo algumas pessoas a ouvir os breves minutos de discurso do nosso ministro. Foi claro e conciso, apesar de, após os discursos, as suas respostas às questões dos jornalistas presentes no briefing terem levantado dúvidas. Na verdade, tenho-o repetido muitas vezes nos últimos dias, quando olho para as pessoas que têm, agora, em mãos o poder de decidir e de agir, só consigo ver cansaço, incerteza e insegurança e não consigo evitar sentir compaixão. Visto a pele deles e sinto-me tremer. E estou certa de que muito têm também eles tremido nos últimos dias.

A meio da manhã, na sala de professores, foi afixado um comunicado com uma mensagem muito sensata. Pediam-nos que nos mantivéssemos contactáveis através do e-mail institucional ou do telemóvel, que ficássemos em isolamento social, que produzíssemos materiais e que os enviássemos aos diretores de turma, para que estes os pudessem encaminhar aos alunos, que fôssemos corajosos e que permanecêssemos serenos. Decidi, então, partindo da conversa que tinha tido com o meu marido e com o meu filho na noite anterior, escrever uma lista de propostas para os meus alunos poderem divertir-se, ao mesmo tempo que desenvolvem competências dos vários domínios da língua, e orientar algum trabalho de consolidação dos conteúdos já lecionados, a partir dos recursos de que todos dispõem (manuais adotados e cadernos de atividades), e, prontamente, enviei o documento aos diretores de turma.

No sábado, havia novidades… Todos os professores deveriam facultar atividades aos alunos equivalentes às aulas que teriam e essas atividades deveriam ser enviadas por e-mail aos diretores de turma, que, posteriormente, as encaminhariam para os alunos. Havia ainda uma chamada de atenção: não deveriam ser enviadas todas as atividades de uma só vez, mas antes aula a aula, e os docentes deveriam ir dando feedback aos alunos. Não era difícil prever o desnorte dentro de pouco tempo.

Na segunda-feira, as escolas estavam encerradas, mas abria-se a possibilidade de algumas acolherem os filhos dos profissionais em funções diretas de combate à pandemia. Muitas vozes levantaram-se contra esta medida, nomeadamente médicos, que apontavam aqui um enorme perigo. Por dentro, imunodeprimida e arrasada com as consultas, os exames e as hipóteses de diagnósticos médicos dos últimos dias, fiquei cheia de medo. E se tivesse de ir para a escola trabalhar com esses alunos? E se um deles estivesse infetado? E se me contagiasse?

Passei a preparar as atividades aula a aula e a enviá-las aos diretores de turma, como manda a “regra” da escola, mas, “ao terceiro dia, conforme as Escrituras”, uma colega confidencia num e-mail o seu cansaço. Em poucos dias, o trabalho triplicou: estamos em casa, mas não paramos de receber e enviar e-mails, de participar em reuniões virtuais, de preparar materiais para os alunos, de aprender a usar apps e plataformas, de nos desdobrar em atenções a uma multiplicidade assustadora de recursos que não dominamos bem… Procuramos adequar a forma de ensinar que todos conhecemos ao ensino a distância que desconhecemos. Ninguém sabe como se faz, mas todos precisamos de fazer e estamos a fazê-lo como podemos, com tanto e com tão meritório esforço, mas… Está o caos instalado! As notícias de que os pais, que também estão em casa em teletrabalho, não conseguem acompanhar os filhos, de que um em cada cinco alunos não dispõe de computador e de que houve um crash das plataformas digitais que os grandes grupos editoriais se apressaram a abrir a alunos, pais e professores sucedem-se a uma velocidade estonteante. Em poucos dias, todos quisemos responder ao apelo que nos fizeram, todos quisemos dar o melhor pelos alunos, por nós (como professores e como pais) e pelo país, todos quisemos ser parte-agente da mudança. Ficámos afogados em trabalho e todos estamos dentro de casa a viver a um ritmo ainda mais alucinante do que aquele a que vivíamos fora dela, quando a lição que este estranho vírus (o nosso inimigo nesta guerra tão desigual, um “bicho” invisível que ataca à traição e que está a conseguir destruir o mundo em que nos habituámos a viver) nos quer dar é outra.

Faltavam apenas duas semanas para o fim do segundo período letivo, quando o “bicho” nos fez desviar do caminho. Sejamos francos: em duas semanas de aulas, que faríamos? Tínhamos alguns conteúdos planificados para concluir, tínhamos alguns elementos de avaliação para recolher, tínhamos de fazer o balanço do trabalho realizado e tínhamos de promover a autoavaliação dos alunos. Em duas semanas, a maior parte do caminho já estava percorrida e podíamos dedicar-nos à preparação das avaliações de final de período, que, como todos sabemos, nos esgotam com propostas de classificações, minutas de atas, relatórios, sínteses descritivas, etc., etc.. Costumo dizer que os poucos dias que restam das interrupções letivas, depois de terminadas as reuniões de avaliação, nunca são suficientes para compensar o excesso de trabalho dos últimos dias dos períodos letivos. Os alunos, hoje, já estariam a respirar de alívio e a sonhar com as férias, com amêndoas e ovos de chocolate, com o amanhecer sem despertador.

Amanhã de manhã, terei reuniões com os meus colegas de trabalho. Encontramo-nos no Google Meets, conforme dita o calendário enviado pela Direção, e havemos de falar sobre os constrangimentos disto tudo. Vou abrir o coração e vou dizer-lhes que temos de interiorizar que estamos a viver um momento histórico de que somos protagonistas e que, afundados em trabalho, na sede de cumprirmos o melhor que podemos e sabemos a nossa missão, não temos tempo de gerir as emoções e os sentimentos nem estamos a deixar que os nossos alunos o façam também. Vou dizer-lhes que sinto que, infelizmente, teremos tempo para orientar as aprendizagens dos nossos alunos a distância e também teremos tempo de aprender a fazê-lo. Vou dizer-lhes que precisamos de aprender a lição disto tudo: descobrir o sentido das palavras calma, tempo, família. Vou dizer-lhes que, para já, queria apenas voltar à lista de sugestões que elaborei para os meus alunos para estes dias de quarentena, que partilho convosco, e que isso bastava.

Hoje, António Costa dirigiu-se de novo a todos os portugueses para comunicar as medidas excecionais do estado de emergência. Hoje, é urgente pensarmos no bem-estar de todos e sermos comedidos em todas as ações. Hoje, é preciso viver o essencial. Porque “o essencial é invisível aos olhos”.

QUARENTENA… E AGORA?

SUGESTÕES DE ATIVIDADES

APRENDER, BRINCAR E CRESCER

  1. Jogar ao STOP
  2. Jogar jogos de Língua Portuguesa (por exemplo, a partir dos recursos disponíveis no site do Instituto Camões)
  3. Jogar jogos de tabuleiro (por exemplo, SCRABBLE, TRIVIAL, etc.)
  4. Jogar ao telefone
  5. Jogar ao chapéu/saco dos medos
  6. Jogar ao “Quem sou eu?”
  7. Ouvir canções portuguesas, registar a letra a partir da audição e, depois, corrigir o texto (consultando sites ou as publicações apensas aos CD)
  8. Ler jornais e/ou revistas (por exemplo, Visão Júnior, National Geographic Junior, etc.)
  9. Ler notícias, como um locutor de rádio ou de televisão, para a família
  10. Ler livros e, a partir deles, desenvolver uma ou mais das seguintes atividades:

– escrever listas de palavras (bonitas, engraçadas, difíceis, etc.);

– escrever o sumário;

– descrever uma personagem (a principal, a mais engraçada, a mais maldosa, a mais estranha, etc.);

– escrever um desfecho diferente;

– continuar a história.

  1. Fazer teatro (por exemplo, recriar histórias infantis)
  2. Fazer fantoches e contar histórias com eles
  3. Cozinhar e registar a receita (indicando os ingredientes, as quantidades e os procedimentos)
  4. Ver um filme ou um programa de televisão e resumi-lo oralmente (partilhando o exercício do resumo com a família ou não)
  5. Fazer sessões de anedotas e/ou de adivinhas
  6. Decorar e dizer trava-línguas
  7. Escolher palavras de embalagens (por exemplo, de detergente, de bolachas, etc.) e escrever um texto criativo com elas
  8. Criar uma mascote para a família, com materiais reutilizados, e inventar uma história com ela
  9. Fazer um desenho/pintura/colagem sobre o melhor/pior momento do dia e escrever uma legenda
  10. Criar, usando uma fotografia, um anúncio para “vender” um elemento da família, um objeto importante ou um serviço

 

Além disso, não te esqueças de que, para a cabeça trabalhar bem, também tens de pôr o corpo a trabalhar. Por isso:

– dança;

– joga ao quente e frio;

– faz mímica;

– inventa atividades que te façam descolar do sofá.

E apanha sol na varanda, no jardim ou no quintal.

 

Rita Mendes

Desenho de uma aluna

6 COMMENTS

  1. Concordo integralmente com o que escreveu!
    Parabéns por tanta serenidade e reflexão profunda do que realmente interessa nesta hora e faz sentido!!!

  2. O caso muda de figura para as escolas / disciplinas em regime de semestralidade. Aqui o problema é bem mais bicudo, pois nem chegamos ao meio de semestre.

  3. Muito bom, Rita! Oxalá, muitos de nós leiam a tua publicação com o coração atento..Tem cuidado contigo e com os teus. Beijo grande

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