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Porque A Escola Encerrou, Mas Nós Não – Ana Água

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Naquele dia 12 de Março, quando foi decretado o encerramento das escolas como medida de controlo da propagação da covid-19, a minha reacção foi de alívio em relação à crescente preocupação que havia tomado conta das nossas conversas nos dias anteriores. Eu que, na sala de aula, pratico uma aprendizagem de proximidade, da saudação inicial ao trabalho colaborativo “em ilha”, já estava a redefinir o mapa de distribuição dos alunos pelo imenso planisfério de mesas e cadeiras enfileiradas. Ao mesmo tempo, cumpria e fazia cumprir o plano de contingência da escola, procurando desinfectar as mãos e a alma da angústia de isto não ser suficiente. Por isso, foi com alívio que recebi esse decreto, mesmo estando ainda sob o efeito vertiginoso da flechada mediática do fecho de fronteiras, no impedimento imperioso do direito humano de mobilidade. Era preciso, justificável e temporário, mas não deixava de ser simbólico.

As medidas, os decretos, o acto de fala que se produz num conjunto de palavras começam por ser símbolos, até invadirem e se instalarem objectivamente nas nossas rotinas tomadas por garantidas. Foi esse raio de realidade que me atingiu no dia 16, quando acordei às 6horas, sem despertador e, sim, a despertar para a estranheza oca de saber embargada a habitual trajectória laboral. E agora? Como sei se os meus alunos estão bem? Como faço a escola ir ao seu encontro?

8horas, está a começar a primeira aula e eu penso em formas de comunicar com os meus 40 alunos desta manhã, 40 dos cerca de 1,5 milhões sem ir à escola em Portugal, a partir deste dia e até nova análise da situação pandémica. Não tinha havido tempo para orientações nem interiorizações e os directores de turma, coordenadores, direcção da escola, enviaram o que souberam, e estariam tão assoberbados com o tsunami que lhes tirou a terra firme de debaixo dos pés, pessoal e profissionalmente, que era talvez tempo de agir autonomamente.

A escola precisava de ficar à tona. A educação tinha de permanecer viva, mesmo a respirar debaixo de água. E cada um de nós teria de ter um papel activo. Havia emails, contactos telefónicos de encarregados de educação: estavam reunidas as condições para pôr em marcha o plano de comunicação com os alunos. Perante uma circunstância de tal excepcionalidade, admito ter quebrado protocolos hierárquicos, admito ter secundarizado a repressora protecção de dados, admito não ter ficado à espera mais do que um par de horas até seguir um instinto mais forte: o de estabelecer ligação. Parece fácil, a revolução digital assim o permite. Lamentavelmente não foi e ainda não é, e não o será tão cedo. Lê-se nos media que a escola nunca mais será a mesma depois deste abalo. Veremos até que ponto mexerá com as estruturas, mentais e físicas.

A verdade é que nem todos os meus alunos têm telemóvel, só um ou outro tem computador e há pelo menos um sem internet em casa. Como é que eu não sabia disto? Pois, nunca perguntei. A falta de recursos operacionais fez-me apostar forte nas aulas presenciais, na velhinha fotocópia e na interacção verbal, confiei que a aulinha tradicional nos salvaria sempre naquele contexto.

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