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A ponte não é um mito.

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MariaQuando questionado sobre o que o levou a mudar o paradigma da escola no projeto “fazer a ponte”, José Pacheco, coordenador do projeto Escola da Ponte diz:

“Porque me vi incompetente e antiético. Incompetente porque não conseguia ensinar todas as crianças e muitas reprovavam, e antiético porque reconhecia que não ensinava todos e continuava a trabalhar do mesmo modo. E quando encontrei duas professoras que faziam a mesma pergunta que eu — “Porque é que damos a aula tão bem dada e há alunos que não aprendem?” — descobrimos a resposta: se nós dávamos as aulas e eles não aprendiam, eles não aprendiam porque nós dávamos a aula.” http://observador.pt/especiais/jose-pacheco-aulas-no-seculo-xxi-sao-um-escandalo-aulas-ninguem-aprende/

Ler a sua entrevista é acenar afirmativamente a cada palavra. Há nela três ideias que considero fundamentais, que não são demais repetir, na esperança de ajudar a “descristalizar” o modelo educativo, ao qual todos, também temos vindo a acenar afirmativamente nas nossas ações.

“As escolas são as pessoas e as pessoas são os seus valores. A escola não são edifícios, são projetos que partem de valores e de princípios.”

Ouvimos inúmeras vezes que a escola transmite valores e conhecimentos. No meu entender a escola transmite o modus operandi das pessoas que fazem parte dela. “Partem de valores” e constroem novos valores nas ligações que são criadas. Cada escola pode assemelhar-se a uma lista das várias músicas pessoais que guardamos no Ipod, (por exemplo). Um conjunto de diferentes músicas, mas que no seu conjunto definem os vários aspetos da personalidade de cada um (de cada escola). Cada escola, independentemente, do seu estilo arquitectónico, projeto curricular é uma playlist única.

“E nós descobrimos uma coisa fundamental, que é que um professor não ensina aquilo que diz, ele transmite aquilo que é. Um professor tem que ser um tutor e um mediador de aprendizagens. E a aprendizagem acontece quando há um vínculo afetivo entre quem supostamente ensina e quem supostamente aprende.”

O primeiro contacto que tive com esta consciência foi nos primeiros anos de trabalho. Tive a sorte de ter trabalhado numa instituição que privilegiava a educação com afeto e a importância de estabelecer ligações para promover a aprendizagem e valores. Ninguém aprende verdadeiramente se não existir uma ligação de “quem ensina” a “quem é ensinado”. E a verdade é que, quando uma existe uma ligação próxima de entendimento e respeito mútuo, ao longo dos anos, numa mesma turma verificamos que os alunos desenvolvem-se à nossa imagem, absorvendo o que somos, as nossas ações. Transmitimos o que somos e não o que dizemos e esta relação não pode ser negligenciada, pois é o que faz a diferença.

“Eu acredito nos professores, na escola, mas não com as medidas político-educativas que são tomadas. Injeta-se na escola cada vez mais objetivos por pressão corporativa. Injeta-se nas escolas áreas que não faz sentido algum. Por exemplo, criar uma aula de área de projeto? Projeto é o projeto da escola, é o projeto educativo. Educação para a cidadania? Nós não ensinamos para a cidadania, nós educamos na cidadania. Cidadania não é uma hora por semana, é todo o tempo de escola. Andamos a brincar com coisas sérias. Está tudo errado.”

Aliando esta ideia, a um recente texto publicado pelo Professor David Rodrigues “O Mito da formação dos professores” (https://www.publico.pt/sociedade/noticia/o-mito-da-formacao-de-professores-1728529) verificamos que a premissa “É preciso formar melhor professores” está na boca das instituições, dos pais e de toda a comunidade pertencente à categoria do “Achamos que sabemos um bocadinho sobre tudo” ou seja todos nós. Formamos professores para a cidadania, para trabalhar os conteúdos na área de projeto instrumentalizando-os de ideias, exemplos e ficheiros pdf. Damos a conhecer e promovem-se livros preparados com os timings para dar a matéria. As formações enchem-se assim de professores ávidos de se sentirem mais “formados”, mais capacitados. E não há nenhum problema com isto. Há, quando, tal como afirma David Rodrigues, pensamos que é aqui onde reside única e exclusivamente o problema. Esgotamos este argumento e esquecemo-nos de perguntar, como estamos a formar professores? E para o que os estamos a formar?

Continuo a defender que a maior “formação” é aquela onde a escola percebe que é uma equipa, mesmo com “playlist diferentes” É uma equipa, especialmente na sala de aula. Só assim se consegue mover o barco para o mesmo lado.

Maria Joana Almeida

2 COMMENTS

  1. Mais uma vez, parece-me, que há uns dois ou três indivíduos que entendem o âmago da questão educativo e o resto é carneirada… Se quiserem indico dois ou três agrupamentos na área do grande Porto para colocarem em prática a teoria dos afetos… Numa escola de classe média, num colégio, até eu, que sou dos da empedernidos velha guarda, era capaz de fazer umas ”flores” ., e enveredar pelos passarinhos a cantar; as criancinhas a aprender; e campos de morangos para sempre…

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