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Polónia | De bestial a besta?

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A Polónia foi a menina bonita do PISA entre 2000 e 2012. Mas os seus políticos decidiram alterar as políticas educativas ao constatarem uma quebra em 2015, voltando a níveis de 2009.

 

Existem claras evidências com o que se está a passar em Portugal e apesar das realidades diferentes, devemos analisar com olhos bem abertos esta inversão política na Polónia.

Decisões políticas na reforma de 1999 que levaram a uma melhoria dos resultados do PISA.

Alteração à estrutura do percurso escolar

Um processo de descentralização, com transferência de competências para as autarquias na área da Educação, sobretudo no seu financiamento.

Um reforço da autonomia pedagógica das escolas e dos professores.

Introdução de exames nacionais

Uma nova carreira docente foi introduzida

Motivos que levam a questionar uma “retrocesso” nas políticas:

Primeiro, para a promoção da equidade do sistema educativo, uma vez que os “gymnasiums” estariam, alegadamente, a intensificar as desigualdades socioeconómicas entre escolas. Segundo, para aumentar os anos de formação no ensino secundário (que passam de três anos escolares para quatro). E, terceiro, para dar mais importância ao papel das escolas vocacionais, ligando a sua formação ao sistema nacional de qualificações.

Depois, as escolas já só serviam para preparar alunos para os testes – e daí os bons resultados no PISA que, por isso, seriam indicadores erróneos de qualidade.

Conclusões de Alexandre Homem Cristo, autor do artigo

Primeira lição. A estabilidade reformista compensa. Em vez de seguir aos ziguezagues, a Polónia implementou uma reforma educativa de longo alcance que, tanto quanto é possível demonstrar, está na base da melhoria dos desempenhos dos seus alunos nas avaliações internacionais do PISA. Essa reforma arrancou em 1999 e aguentou anos de alternância política, tornando-se consensual por via dos seus resultados. De resto, essa reforma foi no sentido de muitas outras no contexto europeu – descentralização, avaliação externa, reforço da autonomia das escolas, aposta na formação de professores – e foi sendo aprofundada por sucessivos governos.

Segunda lição. A ausência de uma cultura de políticas públicas guiadas por evidências e resultados mensuráveis pode pôr em causa anos de avanços na Educação. A recente reversão política no sector educativo polaco não se sustenta em estudos ou avaliações credíveis, mas num olhar nostálgico sobre o sistema educativo pré-1999. Daí que o debate político esteja, em grande medida, a ser conduzido à volta de pressupostos errados – por exemplo, a afirmação de que o sistema polaco é hoje socialmente mais desigual do que era, várias vezes referida pela actual maioria parlamentar, contraria absolutamente os indicadores do PISA. Quando as políticas são definidas por preconceitos, em vez de por factos, a probabilidade de errar é mais elevada.

Terceira lição. Os riscos de um debate alheio às evidências empíricas e às avaliações internacionais é que, a partir de determinado momento, as políticas públicas ficam sujeitas a agendas partidárias. Na Educação, porque envolve a formação de jovens, o risco de politização dos programas e dos conteúdos de aprendizagem é particularmente elevado e grave. Na Polónia, há quem aponte ao actual governo a intenção de introduzir no sistema os seus valores políticos. Seja ou não o caso, o risco existe: a soma de poder (por via de uma maioria parlamentar) e de alheamento aos factos abre portas à instrumentalização da Educação.

Polónia. Uma reforma educativa de sucesso, uma reversão controversa

(Observador)

1 COMMENT

  1. A realidade polaca é complexa e contraditória e é complicado analisá-la a partir das visões algo tendenciosas do Observador e do seu “investigador” dos temas educativos.

    Hei-de voltar a ela com mais calma e com mais tempo, mas por agora deixo apenas uma achega, sobre algo que aproxima a Polónia de Portugal: o sistema educativo polaco pode estar até certo ponto a ser vítima do seu próprio sucesso.

    O que quer isto dizer? Que a educação evoluiu muito mais do que a economia e a Polónia se tornou, ainda mais do que nós, um exportador de mão-de-obra qualificada. Mais de metade dos alunos que terminam o secundário fazem cursos superiores, mas a economia não tem empregos para esta gente toda, que acaba em profissões abaixo das suas qualificações ou como emigrantes na Alemanha ou no Reino Unido. Neste contexto, é complicado manter, a partir de determinado nível, um crescimento sustentado dos resultados do sistema educativo.

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