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Podem Os Professores Ensinar Qualquer Disciplina? – João André Costa

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O princípio é simples e presente em todas as escolas do sistema de ensino inglês: o professor está habilitado para ensinar e, ao estar habilitado para ensinar, ensina. E ao ensinar, ensina qualquer disciplina. É assim desde o dia em que aqui cheguei, a 5 de Setembro de 2007. Já era assim. Vai continuar a ser.

Aliás, já nos tinham dado as notícias de modo esfuziante no Natal: 20 anos depois, 20 anos depois do desemprego e do chuto nas traseiras de quem vos escreve e nas traseiras de mais outros tantos milhares de professores, não servem para nada, só sabem ensinar (assim nos disseram), Portugal precisa de professores e já podemos voltar. Por 1200 euros por mês? A 500 quilómetros de casa? Sem fotocópias, aquecimento, com violência quanto baste, num sistema de ensino onde autistas profundos têm forçosamente de atingir os mesmos resultados do aluno médio? E ainda por cima a ter de leccionar Educação Física (por exemplo)? Mas se eu sou de ciências? Não, obrigado.

E não, ainda não chegámos a este ponto. Mas para lá caminhamos. Este foi só o primeiro passo e não esperem pela demora. Nada é temporário. É temporário este ano. E no final do ano, quando os jornais já não estiverem a falar disto e toda a gente estiver de férias, zás, passa a permanente. E o professor que aguente!

O princípio em si, para quem precisa de trabalho lá fora como de pão para a boca, é desafiante. Ao mesmo tempo, é uma oportunidade de aprender mais, mais sobre outras áreas, outras disciplinas, outros métodos. Serviu-me para aprender a fazer de tudo um pouco e rapidamente subir na hierarquia das escolas até onde estou hoje. Mas isto é lá fora. E não, não gostaria de voltar atrás, por nada deste mundo, aos dias em que tinha de ensinar desde Desporto a Matemática, passando por Religião e Moral, Geografia, Ciências (ufa, que alívio), espanhol, alemão, informática, eu sei lá, de escola em escola a fazer substituições dia-a-dia, todos os dias numa escola nova, muitas vezes sem que o professor me deixasse nada de nada, sem nunca saber ao que ia.

Resultado: acabava a ser cão pastor, de roda dos miúdos a fazer tudo por tudo para que os mesmos não saltassem da sala pelas portas e janelas.

Se em Inglaterra qualquer professor pode leccionar qualquer disciplina, bastando para tal ter um canudo, tal implica uma redução do nível de exigência e uma deterioração óbvia da qualidade de ensino. Se tens de ensinar uma infinidade de conteúdos, não é possível saber de tudo e de todos ao mesmo tempo e tens mesmo de simplificar o ensino. É óbvio.

Assim, através da desculpa da falta de professores, o Governo dá mais uma machadada na escola pública, já de si moribunda e depauperada. Aos poucos e poucos, perdemos o maior legado de Abril: a educação. E sem educação, meus caros, não há liberdade.

Fonte: Público

2 COMENTÁRIOS

  1. Publiquei isto no Facebook: “Quem me vai lendo sabe que há muito que previ este momento – e estamos só no início. Aconteceu na Inglaterra pós Thatcher, está acontecer em França. Ser professor não é fácil, ser professor contra as prioridades de uma sociedade que desinvestiu na educação, uma sociedade cada vez mais meritocrática e segregacionista mais difícil é. Mas este texto tem algumas incorreções.
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    Em Inglaterra, muito anos antes da fuga de professores ao tempo de Margaret Thatcher e consequente recurso à ‘importação’ de professores de toda a Commonwealth, já havia essa prática. Na realidade, ela recua ao início dos anos 70. Mas, atenção, um professor inglês não podia simplesmente dar qualquer disciplina. Havia que se propor, apresentar um programa e demonstrar habilitações, ainda que não as de formação inicial, via Curriculum Vitae. Só então, se aprovada a sua candidatura, o dito professor podia ‘saltar’ da sua área de formação (em Inglaterra não há concurso nacional!).
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    A diferença é toda. Era o professor que se propunha e a sua proposta era considerada de acordo com o que ele, professor, evidenciava serem as suas capacidades para a docência nas disciplinas a que se candidatava. Não é o que se passa por cá. Ministerialmente, qualquer professor, bom ou mau na sua própria disciplina, pode ser professor de uma ou duas ou três outras, independentemente das qualidades que evidencie nas matérias em questão.E, note-se, não questiono a capacidade dos professores de língua estrangeira, devidamente habilitados, de leccionar a Língua portuguesa. Nem mesmo questiono a suposta permeabilidade entre história e geografia. O que me preocupa é que isto aconteça não porque haja uma ideia de escola, mas precisamente porque não a haja. Que se trate apenas, e rapidamente, de colmatar a evidente (e crescente) falta de professores.
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    Sim, todo o professor pode, no limite, dar qualquer disciplina. Ok. Mas estamos a falar de pedagogos, gente com provas dadas. Caso contrário – e eu penso em alguns colegas a dar Desenho, a minha disciplina, para já não falar dos que dão História da Cultura e das Artes sem qualquer vontade de o fazer -, é todo o ensino que fica em causa. Assistimos apenas a mais um atentado à escola pública. Mas pior, estamos a esvaziar a ideia de ‘escola pública de qualidade’ de fundamentos. Quem pode, pode, para quem não pode qualquer coisa serve.
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    Agora, vá lá explicar-se isto ao Ministério da Educação, que simplesmente não existe, ou ao Ministério das Finanças. Irá demorar pelo menos mais uma década até que se apercebam de que há que inverter políticas. Que a aposta numa escola pública de qualidade é ‘conditio sine qua non’ para o desenvolvimento de um país.”
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