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Como pode uma classe querer respeito e ser valorizada fora de portas se não exerce a sua soberania dentro delas.

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auto-responsabilidadeÉ uma reação instintiva do ser humano, quando algo corre mal, imputar a responsabilidade a terceiros. Numa análise geral aos comentários que se vão fazendo na blogosfera, os professores vão dando conta do seu estado atual de frustração, de desânimo, de desencanto, sentem-se extenuados, desvalorizados, desacreditados e humilhados. A questão é, como chegou a classe docente a esta situação, de quem é a responsabilidade?

Efetivamente todos concordamos que o Ministério da Educação teve um papel fulcral nesta situação, minou e esvaziou os professores da sua credibilidade, retirou-lhes a força anímica e reduziu-os à condição de simples operários.

A maioria dos meios de comunicação tem feito um aproveitamento pouco fundamentado e sem rigor das questões sobre educação, e infelizmente, este passou a ser o tema da moda, onde qualquer um se assume como especialista, usando a sua perceção pessoal, como qualquer verdade objetiva ou científica sobre o mesmo.

No entanto, poderão os professores “lavar as mãos como Pilatos” quanto à sua cota parte de responsabilidade nesta sua situação atual? Penso que não. Como pode uma classe exigir respeito, credibilidade, ser valorizada e ouvida: se é representada por uma infinidade de sindicatos, associações e afins, cada um com a sua agenda, os seus interesses e “promoções”; quando saí à rua em manifestações contra os “amarelinhos” , em vez de o fazer em prol de melhores condições materiais, financeiras e pedagógicas; quando é conivente com critérios de colocação onde as escolhas pessoais e por vezes a falta de honestidade e de respeito de uns, se sobrepõem aos direitos dos demais; quando achamos natural a disparidade de vencimentos entre professores, quando as funções são as mesmas; quando legitimamos o abuso de poder de um diretor, quer através do apoio explícito, quer através do nosso silêncio; quando não exigimos uma distribuição equitativa e humana do serviço docente, beneficiando uns, sobrecarregando outros; quando nos falta o bom senso em algumas das nossas práticas e em atitudes, quer face a colegas que apresentam um maior desgaste, quer na incapacidade de olharmos para o bem comum e não somente para o que se passa dentro das nossas “quintinhas”, quer na falta de solidariedade com outros colegas, com mais dificuldades, quer quando, nos tornámos mais especialistas que os restantes, que não sabem pensar “fora da caixa” (seja lá o que isso for); quando justificamos e compactuamos com a total falta de regras de muitos dos nossos alunos, com o argumento de coitadinhos e com o seu contexto, assumindo o papel de responsáveis pelo seu insucesso, como nos coubesse a nós ser psicólogos, pais, assistentes sociais, entre outros; quando desconhecemos o conteúdo da legislação que rege a nossa prática pedagógica, esperando que outros, quando for necessário nos esclareçam, que nos digam o que e como fazer, que reflitam e decidam por nós, que lutem, e que se exponham, enquanto aguardamos serenamente que as coisas aconteçam, refugiando-nos nos argumentos de sempre, não vale a pena, não temos voz, optando pela vitimização.

Como pode uma classe querer respeito e ser valorizada fora de portas se não exerce a sua soberania dentro delas.

Cassilda Coimbra

Professora

*Se quiser ter a palavra como a Cassilda Coimbra teve, basta enviar o seu texto para [email protected]

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