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Pobreza(s)

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Quando o ajuntamento afrouxou, a D. Filomena viu, encostada ao vidro da paragem, uma miúda magricela e pálida, de lábios roxos. Não lhe era estranha aquela cara, já a tinha visto mais vezes: era uma rapariga lá de cima, do “bairro” – singela referência vulgarmente utilizada pela vizinhança para designar o amontoado sombrio e deslavado de prédios de habitação social construído nos fundilhos da freguesia há mais de duas dezenas de anos. Via-a amiúde por ali, deambulando com os seus: vieram-lhe à memória os modos desordeiros, o palavreado obsceno, o destempero dos gestos, as provocações à vizinhança, as recorrentes arruaças sem causa.

“Então o que se passa com a rapariga?”. Inquiriu. “Desfaleceu, coitadinha”, explicou uma das espectadoras; “estava aqui tão bem e tombou que nem um pardal”, ajudou o Sr. Zé do quiosque. “Pronto, pronto”, sossegou-a a D. Filomena, enquanto a amparava com os braços generosos de avó. E agarrou-lhe nas mãos geladas, depositando nelas pequenas palmadinhas terapêuticas, ao mesmo tempo que lhe espevitava o ânimo com palavras de encorajamento: “anda lá, rapariga, vá, anda comigo, entra aqui, ora senta-te lá um bocadinho, a ver se isso passa.”

“Já estou melhor”, declarou a rapariga e sorriu combalida, bebericando pequenos golinhos de água. “Então que se passa contigo? Estás doente?”, indagou a D. Filomena. A moça abanou a cabeça negativamente, os olhos baixos. “Não estás, mas vais estar não tarda! Onde já se viu, andar assim vestida com este frio? Não tens juízo, rapariga?”, ralhou, apontando para a fina camisola de malha que deixava a descoberto a pele arrepiada da barriga, até ao início da exígua mini-saia xadrez. “Isso é roupa que se vista com este tempo, andas aí com a posta do meio toda à mostra?”

“Olha lá, isso não será fraqueza? Já tomaste o pequeno-almoço?”, questionou a D. Filomena. A rapariga corou, fez que não, os olhos sempre baixos. “Ai não? Então também tens a mania das dietas?”, rosnou-lhe. “Não… é que a minha mãe está outra vez de baixa… e o meu padrasto ainda não arranjou nada… o subsídio só deve chegar hoje… e então…”, sussurrou, como quem empurra as informações aos solavancos.

A D. Filomena respirou fundo, num esforço inglório de fingir leveza, e aligeirou o tom: “pronto, deixa lá, é só um mau momento, não é? Vais ver que não tarda as coisas melhoram! Vou trazer-te um copinho de leite e uma sandes, está bem?” E ali ficou a vê-la comer o pão em pequenas dentadinhas graciosas, com o decoro e a dignidade de uma pequena aristocrata na penúria.

Um sonzinho amaricado rasgou o silêncio de ambas. A garota levou rapidamente a mão ao bolso traseiro da saia e de lá retirou, como num passe de mágica, um rectângulo rosa cheio de brilhos. Os seus lábios abriram-se num sorriso ainda mais luminoso e exclamou: “já está! Já está! A minha mãe já me carregou o telemóvel!”, a alegria em estado puro a bailar-lhe nos olhos.

O espanto gorgolejou na garganta da D. Filomena. A vontade de esbracejar e barafustar embuchava-lhe o estômago, incómoda como água suja num cano entupido. Cerrou os dentes para não ralhar, observando, num silêncio forçado, os dedos finos e céleres da garota a dedilhar no écran, as agruras da míngua já esquecidas. Um suspiro fundo e sentido escapou-se-lhe do peito. Lançou um último olhar desalentado, antes de se levantar para ir compor as mesas para o almoço e questionou-se se não seria esta uma das mais terríveis formas de pobreza.

MC

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