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Plano de Emergência: no futuro não teremos professores. A sério? – Isabel Flores

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Cada um tem direito à sua opinião, mas julgo que a autora deste artigo ignorou a dimensão do número de professores que se vão reformar na próxima década, cerca de 50 mil, e que desde 2013 a taxa de natalidade estabilizou…


Era uma vez uma história que por ser contada tantas vezes corre o risco de se tornar verdadeira.

Nos últimos tempos temos assistido ao alarme da falta de professores, e até a propostas para alargar a base de recrutamento de professores, pois a situação é uma emergência nacional. Estão a falar a sério? Será que alguém já se deu ao trabalho de olhar para os dados e construir um verdadeiro planeamento? Sabia que Portugal é um dos poucos países que não tem instrumentos para prever as necessidades de contratação?

A verdade da referida história prende-se com o facto de a profissão estar cada vez mais desvalorizada. Ser professor hoje não tem o mesmo estatuto que já teve. Não atrai o mesmo perfil de pessoas. Mas a maior parte das restantes profissões também não. É natural. Quanto maior é o número de pessoas com formação universitária, que habilita para certas carreiras profissionais, menor é o espanto associado ao esforço de graduação. Um diamante é valioso porque é raro. Um seixo da praia pode ser bonito, ser importante no ecossistema, mas certamente não é raro nem alvo de grande espanto.

Desmontemos então a ideia de urgência por falta de professores. Façamos um esforço para separar falta de professores para colocar com um horário de tempo inteiro e dificuldade em substituir temporariamente um docente, por motivo de baixa médica ou outra ausência temporária.

A colocação de professores a tempo inteiro está saudável e há excesso de oferta. Há muito mais professores a candidatarem-se do que vagas a abrir. Especialmente no ensino pré-escolar e primeiro ciclo. O sistema está sobre dimensionado. Contratou-se a pensar em mais de 100.000 crianças a ingressar por ano, e agora temos pouco mais de 80.000. Os poucos filhos da crise e da redução da natalidade já chegaram ao primeiro ciclo, vão chegar aos seguintes. No total o sistema vai perder mais de 200.000 alunos. Temos excesso de professores para uma população 15 a 20% mais pequena.

Mas os professores estão envelhecidos, e há reformas em massa. Estão envelhecidos, não há jovens a entrar no sistema. Mas o ritmo a que se reformam é menor que a diminuição da população estudantil. A menos que o dono do cofre autorize reformas antecipadas ou semelhante, não vamos necessitar de contratar ninguém até 2025. E apenas a partir de 2030 vamos necessitar de cerca de 4000 professores por ano. No sistema todo – do pré-escolar ao 12.º ano.

Se olharmos apenas para o 1.º ciclo serão necessários 500 a 600 por ano. Estamos ainda a formar demais, temos 8000 que ficam sem colocação e continuam a concorrer, formamos 4000 por ano. Devíamos formar menos e aproveitar a oportunidade para atrair os melhores.

Outra questão totalmente diferente prende-se com a contratação para substituir. Sim, há alguns grupos de recrutamento em que o número de professores disponíveis para substituição é reduzido. Estamos a falar de Alemão, Espanhol, Geografia, Latim e Grego e algumas tecnologias. Mas na generalidade dos restantes grupos docentes há bastantes professores em espera. O problema da dificuldade de substituição prende-se com um sistema burocrático que leva tempo. Facilmente uma turma fica duas ou três semanas sem aulas, a direção da escola tem de se arrastar por uma série de passos e barreiras que demoram. Quando finalmente conseguem, há uma forte probabilidade de o professor titular estar de regresso. As recomendações políticas deviam focar-se em agilizar estes processos. Mapear os professores disponíveis, criar condições dignas para os professores substitutos estarem disponíveis onde são necessários.

Uma história muitas vezes repetida pode tornar-se uma verdade, mas os jovens professores do futuro continuarão desempregados e com expetativas frustradas. A profissão tornar-se-á menos valorizada e com menor capacidade de atrair os melhores.

Isabel Flores

7 COMMENTS

  1. .
    Cada um tem direito à sua opinião, mas julgo que a autora ignorou…que se vão reformar na próxima década, cerca de 50 mil professores.

    Caríssimo Alexandre Henriques!… acha mesmo? Acha mesmo que na próxima década se vão aposentar 50.000 professores? Não pense nisso.

    A autora tem toda a razão no que escreve porque sabe fazer contas, coisa que aqueles que vivem no Mundo da Fantasia não sabem fazer.

    A autora demonstra com números que há EXCESSO de professores primários e de Educadoras da Infância. Eu acrescento que também há excesso de professores de ginástica.

    É tão fácil perceber a razão deste EXCESSO.
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      • .
        Meu caro Alexandre Henriques

        Essa do “A ver vamos” é engraçada. Mas a verdade é que isto não vai lá com filosofia barata. Vai isso sim com cálculos sobre o número de alunos no sistema, com taxas de natalidade, com o índice de putativos professores (desempregados, subempregados, part-time, explicadores, em caixas de super-mercado….), alunos dos cursos de formação de professores….. Se fizer este calculo que é muito mais simples do que o Nove, Quatro, Dois, vai chegar à mesma conclusão da autora deste texto do jornal Público. E essa conclusão é que existe EXCESSO DE PROFESSORES. E como o meu amigo também deve saber, nós vivemos numa “economia de mercado” e quando a oferta é superior à procura o valor destes profissionais – professores – baixa. E só não baixa mais porque o regulador chamado Estado não permite.

        O Alexandre quando diz “Vamos ver” aquilo que vai ver na realidade é ao desvalorizar destes profissionais em termos de “valor de mercado”. Estou na onda daquele que diz “Temos pena”, mas é esta a realidade. O Mercado não se compadece com filosofia barata.

        Quanto ao facto de não conhecer “professores de ginástica”….não deixa de ser paradoxal. Mas olhe, eu conheço e até lhe posso assegurar que são uns gajos porreiros.
        Quanto à nova designação de “professoras da educação do físico e/ou de educação física” também conheço e sei as verdadeiras razões dessa nova e pomposa designação.
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        • Chamar a um professor de educação física professor de ginástica, é a mesma coisa que chamar a um professor de Português professor dos lusíadas ou de matemática, professor de trigonometria. São conteúdos, não são designações.
          Os dados na PORDATA sobre a idade dos professores são claros,os dados sobre o número de alunos que querem ser professores são claros, a realidade das escolas e o preço das habitações nas principais cidades são claros, o absurdo que estão a fazer aos professores contratados com horários incompletos são claros.
          Se a autora do texto e a Ave Rara querem passar por cima disto e pintar um futuro cor-de-rosa, força, mas eu não vou alinhar nesse esquema.
          O futuro dos professores não está apenas nos números, está no descontentamento e isso não se mede, sente-se…

  2. A natalidade estabilizou nos 85 mil nascimentos, desde 2013. Esses alunos entram este ano no sistema de ensino obrigatório. Em 2022 chegam ao 5º ano, que nos anos mais recentes tem tido à volta de 100 mil alunos. Portanto menos 15% em todos os anos de escolaridade até ao 12.º ano.

    Atualmente o cenário é maia ou menoa este (em milhares).
    1.º ano – 85
    2.º ano – 85
    3.º ano – 95
    4.º ano – 100
    5.º ano – 100
    6.º ano – 105
    7.º ano – 105
    8.º ano – 110
    9.º ano – 110
    10.º ano – 115
    11.º ano – 100
    12º ano – 95

    Dentro de 10-15 anos serão pouco mais de 85 mil alunos em cada ano de escolaridade.
    Vão faltar professores, vão…

  3. O SCATÉ é aquela instituição que tem aquela senhora que foi ministra do pantomineiro-mor como reitora? Aquela que dizia que malhar nos zecos e gastar massa em barda com a parque escolar era uma festa? Se sim, porque é de onde vem a senhora Flores, a cuspir como balas os supostos números, eu acho que é encomenda e vigarice… Vindo de onde vem…

  4. Um dos grandes problemas reside no facto de um grande número de professores que estão na lista para contratação terem mais de 35 anos.
    Ora, nesta faixa etária não se alimenta uma família (porque muitos já têm família) com a hipótese de vir a ser contratado. A procura de alternativas mais estáveis é uma realidade e a extensão de algumas listas é apenas uma ilusão, pois alguns colegas já encontraram outras soluções…
    A ver vamos, o tempo o dirá, pois afinal quem anda nestas andanças (de contratado …) é que melhor sabe o que se passa.

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