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PISA Sem Narrativas Simplistas – Sec. Estado João Costa

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Portugal mereceu um destaque positivo no sumário executivo do relatório PISA por ser um de sete participantes e o único estado membro da OCDE a apresentar uma trajetória consistente positiva.

Este é um motivo de contentamento para todos, que contraria as visões catastrofistas sobre o sistema educativo português, geralmente alicerçadas em comentários em torno do pseudo-conceito de facilitismo. É também um motivo para não embarcar em narrativas simplistas sobre os resultados. Os três volumes do relatório PISA têm 1100 páginas, com um manancial de dados com correlações e descritores que devem suscitar muitas reflexões.

Mas, numa lógica bastante simplista e facilitista, o PSD tem tentado construir narrativas fáceis e, por isso, necessariamente enganadoras. Vejamos: em 2015, porque houve uma oscilação positiva dos resultados, o PSD fez uma festa, atribuindo o melhor desempenho dos alunos à introdução de exames no quarto e no sexto ano. Apesar de amplamente demonstrado, o PSD omitiu que a coorte de alunos em causa não tinha feito quaisquer exames, para além dos do nono ano. Cavalgando a omissão propositada, quantas vezes não ouvimos o PSD dizer que era uma desgraça abolir exames precoces tendo em conta os excelentes resultados nos testes internacionais. Que a narrativa não batia certo com os dados era irrelevante. Nem sequer batia certo com o facto de muitos dos países com melhores resultados não terem exames precoces. Em 2015, o PSD tentou alegar que os alunos das vias profissionalizantes tinham melhores resultados porque provinham dos cursos vocacionais. Percebeu-se rapidamente que era mais uma narrativa, dado que os dados públicos sobre a amostra não distinguiam entre vias profissionalizantes (vocacionais, artísticos ou profissionais), mas, novamente, o facto de a realidade não aderir à narrativa era irrelevante.

Na altura, o Governo recusou entrar em narrativas e comprometeu-se a solicitar um estudo de avaliação dos impactos das políticas públicas nos resultados de 2000 a 2015, que foi agora apresentado e fornece evidência para a mesma conclusão a que o relatório PISA também chega: a importância de fatores múltiplos que atravessam vários governos.

Passam-se três anos, perante os resultados de 2018, o PSD titubeia entre novas narrativas. A imprensa e os analistas mais atentos tornam claro que os alunos de 2018 já foram abrangidos pelas medidas do governo PSD/CDS. Não é possível adivinhar se o PSD antecipava uma subida elevada dos resultados, para avançar com a narrativa “fomos nós”, ou uma descida para dizer “foram eles e nós avisámos”. A nova narrativa tornou-se mais difícil, porque na verdade há uma estagnação dos resultados: nem melhoram, nem pioram significativamente. Assim, o PSD investe em duas frentes: o ex-ministro da Educação aposta numa interpretação da estagnação dos resultados como fruto de uma cultura contra a avaliação (surpreendente dado que tem havido um investimento significativo dos serviços do Ministério em formação e iniciativas na área da avaliação formativa e da complementaridade entre avaliação interna e exames). Mas esta análise é ainda mais surpreendente, tendo em conta que os alunos de 2015 não tinham feito exames e tiveram resultados relativamente melhores do que os de 2018, que os fizeram! Ainda mais dignas de espanto são as declarações do vice-presidente do PSD, David Justino, quando afirma que o Governo mascara os resultados, por serem piores do que em 2015. Recorde-se: em matemática, a pontuação obtida é exatamente a mesma; em leitura há uma descida sem relevância estatística (e ninguém tem dúvidas de que David Justino sabe estatística); em ciências há uma descida significativa de 9 pontos numa escala de 0 a 1000, acompanhando uma preocupante descida global nos países sujeitos a avaliação. Tenta, assim, construir-se a narrativa de 2018: o Governo oculta dados! Curiosamente, não ouvimos uma falta de entusiasmo perante resultados essencialmente idênticos há três anos, quando até se mostrou que havia uma excessiva exaltação pelos resultados absolutos (correspondentes à alegria por ter uma média de dez valores como classificação final). O Governo não oculta nada, tanto mais que os discutimos com uma seriedade que em nada espelha a sequência de narrativas sem fundamento que aqui relato. Pelo contrário, afirmámos, nas declarações dos membros do Governo, que estes resultados, encerram três notícias principais. Uma boa notícia sobre a tendência ascendente consistente ao longo de duas décadas. Uma notícia preocupante de estagnação de resultados; uma má noticia por se constatar que Portugal mantém como problema principal a equidade, tendo-se agravado o fosso entre os alunos com melhor e pior condição socioeconómica. De 2015 para 2018, houve uma evolução negativa neste indicador. Curiosamente, David Justino desconsidera-o, ignorando que é compósito nos estudos da OCDE e, sobretudo, tentando construir uma narrativa em que sabemos que não acredita, tendo em conta os contributos que deu enquanto Presidente do Conselho Nacional da Educação sobre desigualdades na educação.

Como referi, o PISA tem um enorme conjunto de dados. Com pistas interessantes: correlações entre investimento público e resultados, correlações entre medidas pedagógicas e a sua eficácia, com a constatação de que – contra uma representação muitas vezes alimentada por alguns setores – não há uma diferença qualitativa entre escolas privadas e públicas.

Estes dados merecem estudo, apropriação e foco. Não merecem leituras simplistas nem narrativas que evoluem e se alteram consoante os aproveitamentos das personagens envolvidas.

Temos razões para contentamento? Sim. Preservamos a trajetória ascendente. Parabéns aos professores, principais construtores deste trabalho.

Temos motivos para continuar? Sim, porque os resultados ainda podem crescer muito e porque o combate às desigualdades através da educação é o principal motivo para termos um sistema público de educação.

Fonte: Observador

7 COMENTÁRIOS

  1. Interessante, um SE desde há cinco anos, utiliza um estudo que classifica como um manancial imenso de dados sobre educação e o que faz: escreve sobre a política de educação do governo de há cinco anos e critica um partido da oposição. Isto sim, é sentido de estado e seriedade política (seja governativa, seja político-partidária). Só atesta o que dele se vai pensando de mediocridade. Talvez seja alguém melhor que o ministro da pasta; ganha por falta de comparÊncia deste!

  2. O relatório diz respeito aos resultados do teste PISA 2018, realizado por jovens que fizearam quase toda a sua escolaridade na era pré-DL 54 e 55.
    Vamos ver os resultados deste mesmo teste daqui a 2, 3 ou 4 anos. Garanto que a curva ascendente vai dar um grande trambolhão. Vamos ver o resultado das medidas universais, seletivas, adicionais, e por aí fora.

  3. Podemos concordar com algumas coisas, dou de barato… O sr. Secretário de Estado é habilidoso, como habitual, não o negaremos… Agora o busílis da questão, o verdadeiro, é o resultado dos alunos portugueses, como já disse a colega anterior, saídos do 54 e do 55… Pensam que os ideólogos da ”coisa” estão vencidos? Claro que não! Eles já têm a solução e o senhor secretário de estado também já a há-de ter congeminado… Alteram-se todos os critérios, faz-se um arranjo estatístico, e uns ”testezinhos” mesmo à maneira de uma redonda ignorância, escolhe-se com muito cuidadinho a amostra … Se não for assim, apostava o meu goelo, nada há-de salvar o descalabro! E não o digo isto só porque o legislado é mau, mau per si, e mau porque é uma lei gongórica, pesada, que não facilita uma aplicação imediata e perceptível a a todos, digo-o porque os homens de mão , e mulheres, que aplicaram fervorosamente a lei , sem nenhum domínio conceptual da pedagogia que a sustenta, por ignorância, destruíram o que ainda se podia salvar… O ME apresenta algumas escolas modelo, que conheço intimamente, em que a única cosa que se fez foi baixar critérios, fazer uns projectos atolambados e sem pés nem cabeça, rebentar com o currículo… O que vai valendo a que a coisa não descambe mais é grande sorte que os docentes portugueses são muito experientes e vão deixando a banda tocar, fazendo o seu trabalho de sapa com os alunos… Há agrupamentos que montaram um autêntico circo, que enchem a boca com a Escola Moderna, com o Freinet, com o Illich, quando, ainda ontem, eram ferozes defensores da ”examocracia”… Pior… confundem, Escola Moderna, por pura diletância e descuido intelectual, com menor exigência, indisciplina, desprezo pelo currículo, permissão ao desprezo pela literatura e pela norma culta… Resumindo , e bem sei que há gente com boas intenções no meio de tudo isto, e porque tenho imenso respeito pelas pessoas que trabalham, bem, com métodos diferentes não posso deixá-los no meio de alguns oportunistas que serão qualquer coisa, em qualquer tempo, com qualquer ministério…
    Por fim há uma verdade para mim que luz: prefiro um professor , dito arcaico, instrutivo, mas que domine aquilo que ensina, que se preocupa , que é diligente… Que um cristão-novo que não não é directivo, que não instrui, que apenas papagueia umas frases que vai ouvindo e nada ensina… Isto não vai acabar bem e o ME tem a obrigação, a obrigação patriótica , de ver para além das peças de teatro que lhe põem diante dos olhos quando visita os supostos agrupamentos que estão a revolucionar a educação… ou se calhar… a promover a ignorância!!!

  4. Só faço um comentário: Srº Secretário de Estado, deixe-se de hipocrisias e não agradeça aos professores. Nós dispensamos esse agradecimento.

  5. Os trabalhadores do fisco recebem 17 vencimentos anuais pelos resultados que apresentam. Os da CGD recebem(iam) 15 vencimentos anuais pelos resultados positivos.
    E os professores, depois destes resultados dos últimos 18 anos?
    Foram roubados em muitos milhares de euros, eis a resposta.

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