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Perspectiva panorâmica sobre o cidadão comum

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anjo demónioÉ tudo verdade, senhor doutor juiz. Foi exactamente assim que as coisas se passaram, mas acontece que… Não, senhor doutor juiz, eu não sou pessoa de voltar com a palavra atrás, foi tudo como está aí nesse papel, o que eu não vejo é razão para tanto escarcéu…

Não senhor, senhor doutor juiz, não estou a brincar consigo, eu era lá capaz de… “dois ponto oito”? Pois, se calhar era isso que marcava lá na maquineta de bufar, não digo que não. Quer dizer, eu não vi, mas confio na palavra dos senhores agentes, pois claro que confio. Agora dito assim, quer dizer – “dois ponto oito” – parece muito mau, mas…

Pois, compreendo, o senhor doutor juiz acha mesmo mau…, mas a verdade é que estava tudo a correr muito bem, por acaso foi um Domingo muito bem passado, é que eu tinha ido visitar o meu primo Acácio, sabe o senhor doutor juiz, quando a gente visita a família – há muito que não nos víamos – as saudades apertam… e uma coisa leva a outra… abre-se um balseiro de tinto… entorna-se uns canecos para untar a conversa, depois parece mal sair sem provar o branco… não fica bem uma desfeita, o senhor doutor juiz sabe como é…

Ah, não sabe? Não senhor, não senhor, não estou a tentar justificar a minha infracção, ora agora! Mas também não cometi nenhum crime assim tão grave! Não roubei nem matei! Eu nem fiz nenhuma aselhice, calha bem! A verdade, verdadinha, é que eu ia ali direitinho que nem um fuso, a deitar contas às minhas lides. Quando se deu o caso dos senhores agentes me mandarem parar, já eu estava mesmo à bordinha de casa: fica ali coladinha ao nó da autoestrada, como quem embica à do Zé Sabujo – pronto, pronto, não interessa, de facto não interessa, não senhor. O que conta é que eu lhe garanto, senhor doutor juiz, que conduzo muito bem, não é para me gabar, mas conduzo, palavra de honra, e a bebida não me transtorna.

Mas sabe o senhor doutor juiz, ainda lhe vou aqui confidenciar uma coisa muito curiosa e com muita piada. A minha esposa até nem acredita quando eu digo isto, cuida que estou a mangar com ela, mas não: eu estou convencido que conduzo muito melhor quando estou com um grãozinho na asa.

Ai o senhor doutor juiz também cuida que é reinação? Garanto-lhe que não estou faltar ao respeito, senhor doutor juiz, juro pela alminha da minha mãezinha que já lá está na terra da verdade. Mas é que isto é verídico, senhor doutor juiz, eu caia já aqui mortinho. Do mais puro que há. Olhe que já não é uma vez nem duas que reparo nisso.

Ainda aqui há dias, senhor doutor juiz, estava eu matar o bicho na cozinha e oiço o vizinho Bernardino ai ai ai andava a cavoucar a belga das melancias e às tantas descaiu-se-lhe o tractor na levada ai jesus ai mãe e agora quem é que tira dali o sacana do tractor, com sua licença, e lá andámos de volta do bicho e acelera agora de rijo, assim não dá, agora devagarinho, a ver se não adorna de vez, até ficarmos os dois derreados das cruzes e o gajo, salvo seja, nada. Sentámo-nos então à porta do palheiro, a matutar no assunto e a beber uns canecos de aguardente que o vizinho lá tinha para a merenda da manhã. Foi por essa altura, senhor doutor juiz, que se me treparam cá uns calores e montei-me em cima do sacana do tractor, à laia de vaqueiro a domar um poldro, pu-lo a trabalhar e arranquei com ele vereda acima em menos de um fósforo. O vizinho Bernardino não fala noutra coisa. Diz a quem o quer ouvir que em tantos anos que tem no pelo, nunca tinha visto – peço desculpa, senhor doutor juiz, com sua licença, senhor doutor juiz – um cabrão de um tractor movido a bagaço.

MC

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