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persistir, insistir, resistir

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Tenho uma turma, da qual sou o diretor, que me tem dado água pela barba. Mais, tenho-me sentido afogar no conjunto de problemas, casos, situações e ocorrências que me tem colocado sua a dinâmica.

maioridade-penalAo fim da primeira semana de aulas, em setembro, tinha 3 participações disciplinares. Em meados do mês de outubro ia nas 20. Agi de acordo com a minha ideia de escola, de aluno e de professor e procurei aguentar as relações. Pensava para comigo, novo ano letivo, novos docentes, novos grupos, afinal inicia-se um novo ciclo, o 3º e há que (re)definir equilíbrios e zonas de conforto e segurança. De modo mais simples, há que nos conhecermos uns aos outros.

Assim, aguentei as coisas. Ninguém expulso, nem suspenso, apenas advertências. Chamava os encarregados de educação, eles respondiam, articulavam-se procedimentos e ideias e os dias seguiam-se. Assim foi considerando as reuniões intercalares onde, entre docentes, alunos e encarregados de educação, se pensaram propostas que então foram enviadas à diretora (medida mais grave uma mudança de turma, tudo o resto se tentava gerir, melhor ou pior). Assim foi ao longo de todo o 1º período, mesmo quando, já nos últimos dias, alguns docentes me questionam e questionavam as minhas opções. Estaria eu a ser facilitista e simplista? Estaria eu a ser laxista em excesso e a deixar agravar situações e circunstâncias? Seria necessário efetivamente enviar para fora, expulsar alguns alunos? Bem que perguntava a uns e a outros. Uns que não, que estava a dar conta da turma, havia que insistir. Outros que era preciso uma mão mais firme e determinada.

Avaliação de 1º período e, estatisticamente, é a pior turma do agrupamento, e são mais de 40. Piores resultados por disciplina, médias mais baixas, maior taxa de absentismo, maior número de participações e ocorrências disciplinares. E não estou em nenhum dos arrabaldes metropolitanos, mas algures entre Évora e Lisboa, em pleno Alentejo, pretensamente sereno e tranquilo, humilde e respeitador (tábém tá).

Segundo período, segundo dia de aulas e reunião com encarregados de educação para entrega das avaliações e análise da «coisa». Que os encarregados de educação se façam acompanhar do/a aluno/a, todos juntos para conversarmos. Posição minha posta à consideração, 2º período sem tréguas, nem meias medidas. Isto é, primeira prevaricação e suspensão até três dias. Primeiras faltas e processo de referenciação artilhado (para aqueles gabinetes compostos por psicólogos, terapeutas, assistentes sociais, quando não mesmo juristas). Não há, nesta fase, contemplações (não fosse eu balança, ora de um lado, ora do outro, qual equilíbrio, qual quê). Votação por unanimidade, todos, sem qualquer excepção, afirmam a sua concordância à proposta.

Primeira participação, na primeira semana de aulas do segundo período, e o aluno foi célere para casa três dias, sem poder entrar na escola. Também na primeira semana, aluna absentista chamada a mãe, assinados os papéis e entregue ao gabinete de apoio à família. Final, quase, do primeiro mês do segundo período e, como resultado, turma sossegada, empenhada, interessada. Níveis de ruído significativamente reduzidos, número de participações reduzidas a pequenas queixas.

Que pretendo eu com esta história? Reconhecer que é preciso persistir e insistir, definir regras e procedimentos, dar deles conhecimento e envolver todos na sua configuração e decisão. Agir em conformidade, respeitar as regras e resistir a tentativas de abrandar ou alterar, por conveniência de serviço, o que foi definido por todos.

É milagre? Não, é trabalho. É solução? Não é, é remediação. É definitivo? Não, irá até onde tenha de ir.Temos é de ter consciência disso mesmo, do caráter sempre provisório e transitório das relações, dos comportamentos, das atitudes. Temos é de definir um caminho e saber agir em conformidade, evitar o ziguezaguiar tantas veze rotulado pelos alunos (e bem) de injustiça.

Manuel Dinis P. Cabeça,

25 de janeiro, 2016.

3 COMMENTS

  1. Boa tarde professor,

    Nunca tive na posição que você esteve mas estive na do outro lado, na dos alunos. Tenho a dizer que tomou a ação correta inicialmente é importante falar com todos os intervenientes e tentar encontrar soluções, pondo sempre na mesa as soluções mais extremas (suspensões, expulsões e afins).

    Na minha escola margem sul, as turmas começavam o ano sempre com processos disciplinares a metade de cada turma era rara a turma que ao final de um período ainda não tinha uma suspensão. Todos os dias participações para os mesmos alunos …e era assim que se ia. Os próprios pais não apareciam às reuniões quando eram chamados e o diretor de turma era obrigado a partir pa medidas mais extremas logo de inicio. Houve ainda professores que tentavam apelar à razão com esses alunos mas não havia sucesso, aliás o sucesso era em conseguir que os alunos faltassem às aulas em vez de andarem à porrada com professores e alunos.

    No final do ano a taxa de aproveitamento era obvia 7 ou 8 aprovados e o resto a repetir o ano pela 2ª 3ª vez 2 ou 3 chumbados por faltas outros chumbados por faltas devido as suspensões um ou outro expulso e o resto mau aproveitamento. Olho para tras e penso se não havia alternativa melhor afinal não passam de adolescentes onde as mudanças fisiológicas são muitas vezes superiores à capacidade de auto-controlo. Mas se calhar o erro não está aqui nesta fase da aprendizagem mas sim mais para trás.

    Não à medida correta a tomar sendo assim, o que há é uma série de medidas que evitem que outros sejam prejudicados.

  2. Olá Manuel.
    Eu chamo a isso uma intervenção, algo que na minha escola costumamos fazer exatamente quando o diálogo, a mediação e o apoio se esgotam nas próprias palavras.
    Principalmente em idades mais novas, os alunos têm dificuldade em compreender as nossas orientações, parece que a única linguagem que entendem é a concreta. Definir linhas vermelhas, estabelecer objetivos e estipular consequências para o não cumprimento desses objetivos. O segredo está no “apertar” e “largar” no momento certo, esses precisam de ser focados ao essencial, e para conseguir isso por vezes temos de seguir o caminho dos atos, deixando um pouco as palavras para trás.
    Parabéns!

  3. Tenho de agradecer os dois comentários; não por me sentir mais certo, correto ou dentro da razão, mas apenas por perceber que duas sensibilidades diferentes, um aluno, um professor me permitem ver que por vezes é preciso e faz bem ser-se teimoso, insistir e persistir em ideias e em opções que não são nem as mais fáceis nem as mais imediatas; mas é dessas que somos feitos e, no que diz respeito a comportamentos não há ideias, nem medidas certas ou erradas apenas aquelas qe prejudicam menos ounque procuram e/ou promovem novos/outros equilíbrios entre quemmensina e quem aprende entre quem descobre e quem se descobre;
    Obrigado pelo feedback

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