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Perguntei Aos Meus Alunos – Estão A Aprender Ou Estão Apenas A Fazer?

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No final da aula síncrona, já depois dos assuntos tratados referentes à minha disciplina, perguntei diretamente aos alunos a sua opinião sobre isto tudo. Se após semanas de aulas de ensino à distância, sentiam que tinham aprendido ou sentiam que apenas tinham andado a cumprir tarefas?

Antes mesmo das palavras, a linguagem corporal foi muito elucidativa, enquanto uns mostravam saturação, outros mostravam um certo conformismo com o típico encolher de ombros.

“Não é a mesma coisa professor…”

“Só consigo fazer porque os meus pais ajudam…”

“Acho que estamos mais a fazer do que a aprender…”

Três frases ditas por crianças de 11 anos que resumem aquilo que é e será sempre o ensino à distância. Por muita boa vontade, por muita tecnologia, a realidade é que os alunos estão a aprender pouco, comparando com o ensino tradicional. E quanto mais novos, mais se nota, pois a dependência e a ligação ao professor é naturalmente superior.

Haverá certamente quem diga que os seus alunos aprenderam, que as aulas têm corrido bem e que a alternativa não existe. Concordo com tudo, acho até uma sacanice quem aproveita este momento de fraqueza para atacar a escola que tudo tem feito para manter-se escola.

Verdade seja dita, nunca a escola esteve tão dependente dos pais. Há uns anos conversei com alguém conhecido da praça educativa, que me confidenciou que não estava nos seus planos contar com os ditos – “os pais não devem ensinar pois nem educar às vezes conseguem”. Verdade! Não só porque não é esse o seu papel, mas como sabemos, as dificuldades sociais e de cidadania existentes em algumas famílias, deixam muito a desejar.

Por causa do bicho, hoje temos uma escola completamente refém das habilitações parentais e do contexto familiar. Isso é terrível para uma escola pois cria fraturas profundas na sociedade e com o tempo, a escola deixará de ser o elevador social que tanto precisa de ser.

A escola precisa de se afirmar por ela e ser autónoma! É como estar numa relação em que precisamos do parceiro para comer, ou para pagar a renda, dependentes, amarrados, sem saber o que acontece do outro lado da cortina. Os professores devem ensinar, os professores precisam de voltar a ensinar, por eles, pelos alunos, pelo país. O esforço tem sido significativo, mas a realidade tem sempre mais força que as intenções e a realidade é aquilo que é.

E tal como os meus alunos, também eu digo, penso e sinto, estou farto de apenas mandar fazer…

Rais parta o bicho que nunca mais morre!

Alexandre Henriques

6 COMMENTS

  1. Professor Alexandre, sou docente de uma turma de alunos do 1º e 2º ano de escolaridade, portanto um pouco mais novos do que os seus. No entanto, ao ler as suas palavras, é como se visse nos seus desabafos o reflexo da minha realidade como docente desde 14 de abril. Também eu me sinto refém da disponibilidade, capacidade e boa-vontade dos pais dos alunos e desta forma de ensino da qual não fiquei fã, de certeza. Não desdenho dos recursos tecnológicos que nos permitiram minimizar de alguma forma os danos, mas estou cansada de ouvir tecer tantas loas em louvor de um tipo de ensino que me faz sentir apenas meia-professora.
    E até me revejo no seu desabafo final, em que estou certa a boa educação o impediu de usar uma praga mais forte.
    Sílvia Carvalho

  2. No meio de isto tudo alguma “coisa” aprenderam, permitiu de certa forma desenrascarem-se nas pesquisas de informação, na organização dos trabalhos, a nível das plataformas de ensino, mas realmente os mais pequenos tiveram que ter muita ajuda e orientação dos pais. Concordo com o artigo, mas nas aulas síncronas não se está só a mandar, também estamos a orientar os alunos por forma a que eles atinjam aquilo que lhe é solicitado.

  3. Eu ocupo a outra parte da escola… sou explicadora, com um menino de 13 anos em casa.
    Pelo que vejo em casa, houve uma grande disponibilidade dos professores em estabelecer um horário semanal e em fazer sessões síncronas, onde eram lecionados os conteúdos dentro das medidas do possível.
    Pelo que vi nos meus explicandos (dos 11 aos 15 anos), quase não tiverem aulas síncronas, apenas recursos para ler e ver.
    São duas situações completamente distintas, com o mesmo resultado e a mesma opinião entre todos eles: andaram ocupados mas aprenderam muito menos e estão inseguros para o ano seguinte. Pelo meu filho vejo que, ao fim de 50 tarefas (de todas as disciplinas), não sabe bem assunto nenhum dos trabalhos que fez. Pelos meus alunos vejo que a situação é semelhante. Porque estiveram tão atarefados a fazer trabalhos sob pressão e prazos curtos, que ficaram sem qualquer tempo para estudar.
    Foi bom para ganharem autonomia mas seria mais proveitoso que esta fosse sendo adquirida e não impingida. Neste momento, pela posição que ocupo em relação à escola (posição de back support), o ensino tornou os alunos demasiado dependes de indicações. Tudo aquilo que se pede ao aluno, pede-se com directrizes, com tudo descrito timtim-por-timtim (um exemplo claro são as matrizes dos testes… o ideal seria apenas dar as páginas do manual para que eles, sozinhos, descortinassem o que será avaliado). De repente, tudo isso é-lhes tirado e eles ficam perdidos. Passamos a um extremo: do dar-lhes “tudo” ao “desenrasca-te sozinho”.
    Embora o nosso Ministério da Educação não admita, isto não funcionou. Temos alunos cansados, professores exaustos e aprendizagem quase nula.
    Outro ponto importante são os pais… Vêm os filhos sempre ocupados e cansados dos trabalhos e, como vão transitar, supõem que terão aprendido. E estão tão enganados. Os pais mais desatentos vão gostar imenso das notas deste ano lectivo. Eu, profissional e pessoalmente, não. Serão atribuídas classificações injustas e que não correspondem ao conhecimento de cada um. Tenho mesmo muito receio de tudo o que virá agora. Vai ser extremamente difícil contornar todas estas “pedras no caminho”. Mas, mais uma vez, cá estaremos. Eles são o futuro e temos de nos certificar que construiremos o melhor futuro possível. Para eles e para nós.

  4. Bom dia! Os meus filhos frequentam um colégio de Lisboa, o que, desde já, nos coloca num patamar um pouco à parte, no entanto, gostaria de partilhar que os docentes foram incansáveis e tudo decorreu de forma equilibrada, sem os excessos que ouço falar por tantos, tantos pais com os quais contacto diariamente (uma vez que sou educadora de infancia e os pais dos meus alunos desabafam tantas vezes a sua experiência).
    Repensar a forma “como se faz” seria, a meu ver, a palavra chave nesta complexidade que é o ensino à distância.
    Contar com os pais para apoiar e cuidar de se cumprirem as tarefas, sim! Partir do primcípio que eles terão de ensiná-los, é um erro, não só pelo que foi a sua propria experiência como alunos mas também pela falta de disponibilidade por estarem necessitados de se manterem focados no seu proprio teletrabalho!
    Bem haja pelo seu artigo!

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