Início Editorial Perdi a cabeça, dei dois estalos aos meus alunos…

Perdi a cabeça, dei dois estalos aos meus alunos…

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A situação descrita é uma mera representação da realidade…

vergonhaSexta aula do dia, a voz já derrapava aqui e ali, o barulho do pavilhão era ensurdecedor, a irreverência dos alunos não desarmava, a sua intensidade mantinha-se a níveis estratosféricos. No meio do suor e das bochechas rosadas, dois alunos apresentam uma linguagem corporal semelhante a dois touros enraivecidos…

Ora dá! Vá… Dá lá a ver se és homem!!! 

Vai-te f#der, lá por seres mais alto julgas que és grande coisa!!!

Um empurrão aqui, um encostar de cabeças ali e a coisa estava a segundos de rebentar.

À sua volta, um grupinho de alunos circulava o espetáculo gratuito, incentivando os “galos” como se uma luta de apostas se tratasse…

Hei!!! Parou já!!! Onde é que vocês pensam que estão??? Parou já disse! Querem ir já para a rua???

Começa o processo de culpabilização alheia…

Stôr, foi ele, está farto de me dar cacetada!

Eu??? Tu é que andas a chamar-me nomes e agora sou eu…

Os “touros” começam a baixar a cabeça, vão levantando poeira com os seus cascos e pronto, o caldo vai mesmo entornar.

Quando dou por mim, trás… trás…. Tinha a mão no meio da cara dos alunos, repetia sistematicamente para se calarem e nada, parecia que não estava ali, era completamente invisível… Naquele momento estava cansado, farto do barulho, das infantilidades constantes, da má criação, da total irresponsabilidade, estava acima de tudo farto de ser professor, carregava em mim 6 meses de aulas, todas as manhãs e todas as tardes… 6 meses a resolver quezílias de alunos com alunos, alunos com professores, professores com alunos… A intensidade do toque foi reduzida, a mão distava 3, 4 cm das suas caras, demorou um ápice, um impulso primário que não deveria ter ocorrido, não podia ter acontecido…

O gesto chocou, chocou-os a eles e aos alunos que assistiram, mas acima de tudo chocou-me a mim, como foi possível perder assim a cabeça? Não dou aulas há 1 ou 2 anos, ando nisto há 25… 25 anos a lidar com conflitos… O que se passa comigo?

Sei que tenho sobre mim a ameaça de um processo disciplinar, violei claramente os meus deveres enquanto professor, estou nas mãos dos meus alunos… basta um email, um telefonema, uma carta para a Inspeção e estou lixado. De um lado 25 anos de serviço imaculado, do outro 2 segundos de trás…trás… Curioso como 2 segundos são agora mais importantes que 25 anos…

Se os alunos chegam a casa e contam aos pais já sei que vou ter problemas. Por muito menos os meus colegas já tiveram problemas…

E agora, o que faço?…

Sou professor, só existe um caminho nesta situação, o correto…

Acabou… não admito estas faltas de educação na minha aula, respeitem-se, são colegas, são da mesma turma, são da mesma “família”. Estão a faltar-se ao respeito e estão a faltar-me ao respeito. Façam um favor a vocês próprios, cresçam, tomem atitudes de homens que querem ser e cumprimentem-se num ato de desculpa mutua.

(cumprimentos dados e a aula prossegue)

No final da dita ficam ambos os alunos a falar comigo. Faço o que a consciência me obriga, não por receio mas por sentir que o correto tem de prevalecer.

Olhem, isto hoje correu mal, quer da vossa parte quer da minha… também eu errei, peço-vos desculpa… excedi-me, não queria fazer o que fiz, mas a mão estava no vosso meio e vocês não se calavam. Não posso ter alunos de cabeça perdida na aula… a violência nunca é a solução, quer da parte dos alunos quer da parte dos professores…

Stôr, deixe lá isso, foi merecido…

Sim, nós merecíamos stôr… a coisa descontrolou-se um pouco…

Podia ter ignorado a situação, mas preferi a genuinidade da minha consciência e assumir que também errei. Como posso exigir confiança na minha liderança, respeito na minha autoridade, se depois não assumo o que faço de errado? Liderar por exemplo, assumir as falhas da natureza humana, as minhas falhas, dá-me a possibilidade de conquistar o respeito de quem está a ser preparado para o futuro e precisa de ser ensinado/liderado por mim. A formação cognitiva é importante, mas o que fica para a vida é a formação pessoal, os valores e os princípios…

A humildade é um pilar fundamental na relação humana, a empatia, uma forma de criar pontes e derrubar muros, o reconhecimento do erro, uma manifestação genuína de respeito pelo próximo, seja ele menor, maior, colega, superior hierárquico ou aluno…

Por vezes no erro surge a oportunidade, importa reconhecer essa oportunidade e aproveitá-la sem receios, pudores ou tabus.

Ninguém é perfeito… e não devemos fingir aquilo que não somos, que nunca fomos…

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6 COMENTÁRIOS

  1. Como te compreendo.
    Um filosofo dizia ” mais vale uma imagem que mil palavras”.
    Por vezes “mais vale um ato que mil palavras”.
    Nós, professores, somos por vezes pais, mães…temos que educar.
    O dialogo, no final, vale tudo. Penso que é assim que se corrigem comportamentos.

  2. Estalos, deveriam levar PAIS e MÃES – hoje – por não saberem EDUCAR os FILHINHOS/ FILHINHAS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    E vão levar estalos destes FILHINHOS/ FILHINHAS; quando um dia lhes disseram NÃO, vão ser corridos à BOFETADA!!!!!!!!!!

  3. Infelizmente, o meu filho futuramente não levará uns bons calduços ou puxões de orelhas como o pai levou. E digo infelizmente, pois levava em casa e também na escola e que bem que me fizeram. Muitos parabéns pela atitude, irreflectida ou não, mas por vezes é bom mostrar à rapaziada que o professor não é um boneco.

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