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Pensemos Com Calma Porque Há Coisas Mais Importantes

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Vou diretamente ao assunto: em toda a anormalidade da situação atual, não podemos esperar soluções normais. Mas, se olharmos para a História, encontramos exemplos anteriores que, também eles “anormais”, nos podem mostrar que o final do ano letivo nos diversos níveis de ensino, a admissão ao ensino superior, são, neste momento, o nosso menor problema. Sim, também sei que a única lição da História, é que… ninguém  aprende com as lições da História.

Corria o ano de 1974 quando, em abril, aconteceu o que se sabe. Como em todos os processos desse tipo, as alterações desejadas rapidamente ultrapassaram as inicialmente pensadas e um turbilhão de mudanças começou em todos os setores. O ensino, claro, não escapou. Tendo feito parte de uma “comissão dos alunos do Ensino Secundário”, recordo-me de uma reunião no Ministério da Educação, na 5 de Outubro (sim, na altura ainda tinha direito a maiúscula), onde, de repente, caíram conteúdos, disciplinas, exames, a começar pela mítica Organização Política e Administrativa da nação. Convém que se saiba que, naquele tempo, a nota de frequência apenas determinava a possibilidade de se fazer os exames do então 7º ano (com regras diferentes para o ensino público e para o privado) e, estes, eram a condição necessária para se aceder ao exame de admissão à faculdade. Pois este exame ainda foi feito, mas os resultados já não sairam.

De tudo isto resultou um número de entradas no ensino superior nunca anteriormente visto, num “mundo universitário” ainda limitado aos três grande centros: Lisboa (que tinha, também, a Universidade Técnica), Coimbra e Porto. Dos 49461 estudantes que o frequentaram no ano letivo de 1970/1971, passou-se para 70912 em 1975/1976 (dados mais precisos, podem ser consultados a partir desta ligação e confrontados com outros, um pouco diferentes, do Conselho Nacional de Educação). Se a memória não me atraiçoa, logo em 1974 houve cerca de vinte e oito mil candidaturas, ou seja, mais de metade de todos os estudantes que frequentaram todas as universidades de todo o país no ano letivo de 1970/1971. O sistema abanou, mas não ruiu. Mudou. Sobretudo, abriu finalmente as portas à sua democratização. E esta é a primeira lição que podemos ir aprender com o passado: as grandes mudanças fazem-se, sempre, sob pressão.

“Para grandes males, grandes remédios”, diz o povo na sua imensa sabedoria. Pena é que seja necessário sentirmos as consequências do mal, para buscarmos o remédio. Mas é. Na situação atual, estamos a ver vários exemplos disto mesmo, em várias áreas, que nos provocam com a pergunta, “porquê, só agora” e que desejamos que não desapareçam quando secarem as últimas lágrimas… como em 2017. Na área da Educação, tentativas fantásticas como as dos municípios que procuram fornecer computadores e ligações à internet a crianças carenciadas, são, sem dúvida, dignas de louvor. Como o são, as reflexões que se reacenderam sobre o que deve ser a nova escola, a tal que se quer inclusiva, mas não é. Só que, a nós, professores, compete ter consciência de que será muito pouco provável que algo disto esteja pronto dentro de duas semanas. Mais: compete-nos ter consciência de que, quaisquer que sejam as respostas centrais, elas irão sempre chocar com obstáculos locais que só nós saberemos ultrapassar. Medidas administrativas, são canja. Algumas já estão previstas na lei e as que não estão resolvem-se por despacho: anulação de provas de aferição e dos exames do 9º ano; assumir como final a avaliação do segundo período; adiar e reduzir os exames do Secundário; criação extraordinária de um ano propedêutico… O que não é fácil e só nós conseguiremos (orientações centrais até podem atrapalhar), é encontrar respostas para o universo heterogéneo dos nossos alunos, conscientes de que esta coisa do ensino a distância é um substituto agora inevitável, mas pobre, do que deve ser a relação pedagógica. Pensemos nisso com calma, porque há coisas muito mais importantes com que nos preocuparmos. Estamos todos no mesmo barco.

Gil Campos

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