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Pedrada no charco…

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pedrada no charcoLembro-me que antes de Nuno Crato ser Ministro da Educação o discurso da “moda” era o rigor, a exigência e a avaliação externa (exames). Dentro da escola as orientações da tutela eram outras, e frases como ” o que interessa são os processos e não os resultados” eram atiradas para o ar em diferentes conselhos de turma. Agora, estamos a assistir a uma fase proporcionalmente oposta, em que o discurso do ensino centrado nos interesses do aluno volta a surgir, mas a tutela dá orientações no sentido oposto.

Este regresso ao passado é perigoso e pode facilmente ser mal interpretado por alunos que anseiam por “descontração educativa” e que levará, mais cedo ou mais tarde, a condutas também elas, descontraídas…

O artigo que se segue é uma pedrada no charco e é da autoria do incontornável Paulo Guinote.

Do jornal Público

O futuro da Educação… ou não

1. Constato que há um manancial inesgotável de pessoas que estão mesmo convencidas de saberem o que é melhor para o futuro da Educação, para os alunos e para todos nós, em geral. Ouço e leio muito boa e estimável gente dizer, por exemplo, que devemos adaptar e modernizar a estrutura curricular aos “interesses dos alunos” como se isso fosse a fórmula mágica para combater o insucesso e o abandono.

Tal solução levanta-me muitas dúvidas por razões que me parecem óbvias, mas talvez seja defeito meu, miopia incurável.

Passo a explicar: quando é que uma escola básica de massas obedeceu a uma lógica de “interesse dos alunos” e não ao “interesse da sociedade” ou dos “grupos sociais” responsáveis pelo ensino na fase pré-contemporânea? E não será que é mesmo assim que tudo funciona ou melhor que precisa de funcionar? 

Desde quando a Matemática foi “do interesse dos alunos” ou da sua larga maioria? Ou mesmo a História que produz menos alergias e insucesso? Ou mesmo outras disciplinas tidas por mais benignas? Em que parte do mundo é que a escola atingiu patamares de grande qualidade na base dessa lógica tão complacente, sendo mas do que evidente que em todas as épocas os alunos tiveram interesses bem discordantes da “oferta curricular” dos seus tempos?

A escola contemporânea – apesar dos seus defeitos e distorções que urge corrigir – não se baseia exactamente num princípio de contradição em relação ao imediatismo dos interesses? Será que não estamos a tomar a escola do Sócrates e do Platão – elitista até mais não – como um “paradigma” de algo exactamente oposto do que ela foi em seu tempo? Não estaremos a confundir a necessidade de interessar os alunos pela aprendizagem com o querer ensinar-lhes apenas o que lhes interessa?

Se queremos mesmo ir ao encontro do “interesse dos alunos”, estaremos mesmo dispostos a trocar metade das horas de Ciências, Português ou Geografia por “Redes Sociais – Parte 1” ou “Introdução ao PES 2015 em PS4” ou mesmo “GTA em Smartphones”?

Caricatura? Não me parece.

Não deverão essas áreas de “interesse” ficar nas áreas não-curriculares ou opcionais?

Será que as pessoas que tão bem pensam estão mesmo dispostas a levar o seu “pensamento” até às suas naturais consequências?

E olhem que isto é escrito por alguém que gostava de levar as suas turmas um tempo por semana para a sala de computadores para os alunos se divertirem um pouco até ao momento em que os censores e os filtros “isto é só para trabalhar em coisas sérias” entraram em acção.

2. Este tema está interligado com outro que é o da “escola/educação do futuro” que é recorrente em muitos autores que de forma abnegada a definem sempre do mesmo modo, década após década.

É algo que compreendo, enquanto ideal atemporal que se pretende para a escola/educação – mas cansa um pouco dar sempre com as mesmas formulações, apesar da passagem do tempo. Nos últimos 30 anos parece que nada mudou e o “futuro” se define sempre do mesmo modo.

Também é muito comum dizerem-nos que a escola deve mudar, porque quase nada mudou nos últimos 2500 anos. E eu concordo. Quer dizer, concordo que ela não tem mudado. Não que só por isso deva mudar.

Enquanto a Educação e as escolas tiverem como função nuclear a transmissão de um corpus de conhecimentos que uma dada sociedade define como “canónicos”, sendo necessário que um grupo profissional de adultos se ocupe com a sua transmissão a um grupo de crianças e jovens – desejavelmente [email protected] – que os deve aprender para se integrar nessa mesma sociedade, acho algo complicado que as coisas funcionem de modo “paradigmaticamente” diverso.

Sei que a minha posição é conservadora, mas confesso que isso não me desconforta porque também sei que a roda depois de inventada se manteve redonda ao longo de milénios, mesmo se ganhou raios, pneus e este ou aqueloutro regular aperfeiçoamento técnico. Mas lá que se manteve redonda…

3. Por fim… parece que o grande problema da Educação do presente passou a ser a formação de professores. Por acaso, concordo que ela é bastante fraquinha em muitas áreas e locais de formação. O que acho mas estranho é que muitos dos que agora surgem a anunciar a nova fórmula para o sucesso sejam exactamente aqueles que levaram as últimas décadas a formar professores como modo de vida.

Claro que, neste caso, não se aplica aquela lógica que afirma que o insucesso dos alunos é culpa dos seus professores, pois há uma casta de inimputáveis nestas matérias. Aqueles que sempre tiveram e terão razão sendo sempre alheia a responsabilidade pelo que “descobrem” não funcionar.

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