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Parem lá com isso, colegas!

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Os professores não têm razão para este tipo de atitudes. Querem agora comparar-se aos gestores bancários, aos gestores das PPP, aos deputados, como tivessem poder e inteligência suficientes para arruinar um país. Muitos falam que são obrigados a ter duas casas ou a viver num quarto, mas qual é o mal de contribuírem para a economia ou partilhar a sua privacidade? Não aconteceu o mesmo quando foram estudar para a universidade? Só vêm o cônjuge e os filhos ao fim de semana, e qual é o problema? A distância fortalece as relações, crianças a crescer em famílias monoparentais são muito mais autónomas e o Skipe melhora as suas competências tecnológicas. Andam com a casa às costas, percorrem centenas de quilómetros, mas não conseguem ver o privilégio. Quantos portugueses têm a mesma oportunidade de viajar tanto? Como poderiam valorizar a riqueza do nosso país, se não pudessem desfrutar dela diariamente?

Podem ser vítimas de violência física e verbal, mas até agora tinham uma profissão entediante. Agora sim, é uma profissão excitante e cheia de adrenalina. Aos 60 anos já deviam ter-se reformado e iam para casa fazer tricô? Todos sabemos que é desaconselhável o sedentarismo, a falta de exercício diário, e o estar todos os dias com muitas crianças, dá-lhes experiência para tomarem conta dos netos. Queixam-se do abuso que o Estado faz do seu horário de trabalho, quando não corresponde de todo à verdade. Não há dinheiro para dar formação aos professores, logo a aposta certa é a formação contínua em contexto laboral, com recurso ao trabalho colaborativo. Aquilo que os professores apelidam de excesso de burocracia, nada mais são do que ferramentas de aperfeiçoamento de competências úteis para acompanharem a geração tecnológica que educam.

Todos nós sabemos que a prática leva ao aperfeiçoamento, e é normal que se façam esses relatórios todos, as tabelas tão bonitas e coloridas e toda a restante documentação. O número de reuniões semanais, principalmente em horário pós-laboral, servem para os professores se conhecerem melhor, estreitarem laços e para evitar problemas que possam advir do excesso de convívio familiar.

Gastam o seu tempo pessoal em atividades extracurriculares, a levar os seus alunos a eventos, visitas de estudo, mas é porque querem, é mania de se quererem sobrepor ao papel dos pais. Ensinam higiene oral quando existe o cheque dentista, insistem no exercício físico e na alimentação saudável, quando os pequenos estão na idade de se encher de açúcar, falam de educação para a sexualidade, quando a população do país está envelhecida e outras tretas assim. Quando, o que lhes compete é ensinar os conteúdos para os quais foram formados. Queixam-se do autoritarismo dos diretores, quando se trata apenas de liderança. O nosso Ministro da Educação tem sido vítima de injustiça, é um jovem simpático, a falta de traquejo político não lhe pode ser imputada. Esta implicância não é pessoal, mas os professores preferem para ME, alguém como a Sra. Alexandra Leitão mais parecida com a saudosa Maria de Lurdes Rodrigues. Não se percebe onde foram buscar estas ideias

Se os meus colegas não levarem a mal, eu gostaria de pedir desculpa ao governo, ao nosso estimado ME e a todos os nossos deputados, que tentam pôr-nos algum juízo, por toda esta confusão. Quero ainda felicitar todos quantos de forma assertiva e coerente têm demonstrado o apoio incondicional aos professores e lidado de forma exímia com os nossos direitos constitucionais, mesmo que alguns milhares tenham demonstrado tamanha ingratidão. Neste momento, a sensação é que nas escolas está instalado o caos, mas não há motivo para muita preocupação, muitos professores estão incondicionalmente do vosso lado. Não tarda, graças ao vosso serviço público de excelência, prestado pelos meios de comunicação e pelos mecanismos normativos, tudo voltará à normalidade. Os professores tiveram um ano letivo calmo e precisaram de sentir alguma emoção agora. Um grupo sentiu-se entediado, não se conseguem adaptar ao enquadramento de massas à boa maneira salazarista e os restantes colegas lá se entusiasmaram. Aderiram a uma greve e assinaram uma iniciativa legislativa, mas é possível que repensem. Não houve intenção de afrontar, não temos um histórico de desobediência nem de deslealdade hierárquica, seguimos exemplarmente as orientações que nos são dadas. Tudo isto é um exagero, colegas importunados quando não precisam de nada, a ser metidos no mesmo saco, rotulados de intransigentes e olhados de lado pelo resto dos cidadãos. Os professores têm consciência, que Vossas Excelências são os nossos legítimos representantes, com toda a sabedoria que isso pressupõe, que vos cabe a função de pensar em nosso nome e de zelar pelo bem comum, e que não é suposto serem os cidadãos a promover soluções ou o exercício da participação cívica.

Se me permitem, com toda a humildade, fazer algumas sugestões, esta situação pode ser evitada no futuro. Não se pode voltar atrás no processo da democratização do ensino, mas ainda se vai a tempo de introduzir algumas alterações. Retirem dos currículos os grandes pensadores e filósofos, a Revolução de Abril, outras revoluções, personalidades e lutas pelos direitos, que possam dar umas ideias erradas aos nossos alunos. Na introdução da nova disciplina de Cidadania e Desenvolvimento não incluam a nossa Constituição, demasiado nociva para jovens ainda em formação. Retirem o acesso público a determinados livros e escritores, que possam ser subversivos no objetivo de obediência ao regime. A alfabetização é mais do que suficiente para a maioria dos portugueses, a elite pensante e erudita deve sair exatamente dos privados. Ficaria muito difícil governar um país onde imperasse a educação cívica.

Cassilda Coimbra

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8 COMENTÁRIOS

  1. Concordo com aquele excerto de “a nossa Constituição demasiado nociva”.
    De facto, foi “o caminho para o socialismo” que nos tramou.

  2. Discordo em absoluto do texto apresentado pela Cassilda Coimbra, a menos que esteja a fazer humor e ironia. A reflexão sobre os caminhos que poderiam ser seguidos, qualquer que fosse o partido que estivesse em cada momento a exercer o poder, deveriam ter sido desde há muito concretizados num acordo tão abrangente quanto possível numa base (que fosse o essencial) quer em relação às práticas pedagógicas (sem desrespeitar a sagrada liberdade pedagógica e científica de cada professor), quer quanto aos conteúdos a ensinar em cada disciplina, quer quanto à ética e moral (a moral tem a haver com a nossa cultura, portuguesa, a ética é universal), ou seja, deveria haver uma base mínima de valores e atitudes aceites pela grande maioria dos partidos (não me parece impossível obtermos um acordo deste género). Também quanto às questões (estas questões são de outra natureza e não podem ser misturadas com o que acima enunciei) laborais não me parece impossível haver um acordo (haja bom senso, entre nós portugueses, não me parece difícil este acordo, desde que todos saibam pedir e também ceder com sabedoria tendo em conta o interesse nacional).

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