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Parece Que A Professora Isa É A Única Que Não Gosta De Ler… – Bárbara Wong

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Vi esta manhã que a professora Isa não gosta de ler. Quem? A professora Isa, a que inaugurou a nova Telescola, nervosa e simpática. Isa, que foi ao programa de Ricardo Araújo Pereira, caiu no erro de dizer ao Expresso: “Não sou leitora, nunca fui muito de ler livros, mas sempre adorei tê-los.” Como é que uma professora que ensina as primeiras letras não gosta de ler? Iram-se os comentários nas redes sociais. Da mesma maneira que uma professora que ensina os primeiros números não gosta de fracções, responderia eu, ao fim de duas décadas a acompanhar a área da Educação e, volta não volta, a ler estudos ou a cruzar-me com especialistas que mostram as fragilidades do sistema.

Há meia dúzia de anos, fui a um politécnico, a convite de uma professora altamente motivada, para falar dos deuses e heróis da Grécia Antiga às suas alunas do Ensino Básico — aquelas que, depois de licenciadas, estarão a trabalhar com as crianças do 1.º ciclo, a ensiná-las a ler, escrever, contar e, espera-se, outras coisas além do estudo do meio. Habituada a plateias do 1.º e 2.º ciclos de olhos curiosos e perguntas na ponta da língua sobre a colecção que escrevi em parceria com a professora Ana Soares, Olimpvs.net, foi com dificuldade que falei para aquelas raparigas de 20 anos, apáticas e a olhar-me como se eu falasse grego ou latim.

Os deuses do Olimpo, os heróis mitológicos, os animais fantásticos… Nada lhes dizia alguma coisa. Nada lhes fazia brilhar os olhos num reconhecimento longínquo de algo que tivessem lido quando estavam a crescer. “Não leram o Harry Potter?”, perguntei, para não ir mais longe. Duas ou três levantaram os braços. No final, souberam-me falar das dificuldades da classe, do Ministério da Educação não dar condições aos professores, e do mau comportamento das crianças — elas, que ainda estavam em formação, já tinham a cassete docente gravada e debitavam-na exactamente com os mesmos argumentos que os professores com 30 anos de carreira e razões reais de queixa.

A professora Isa não gosta de ler, mas gosta de matemática e de ciências, afinal, os professores do 1.º ciclo são generalistas, não são como os de Português, aqueles que estudaram numa Faculdade de Letras e especializaram-se em línguas e literaturas, li também nas redes sociais. Esses sim, gostam de ler, dizem os próprios de si mesmos. Aqui a teoria da nota do último colocado varia, pois há cursos que os aceitam com 10, mas também há o 16 na Universidade do Porto.

Nas redes leio ainda o argumento “no meu tempo é que era bom”. Confesso que cá em casa, tivemos azar: foram poucos os professores de Português que passaram pelas turmas dos meus filhos que expressaram o seu o amor aos livros e um conhecimento profundo da literatura. Lembro-me e recorro muitas vezes ao exemplo de uma dessas docentes. A professora trabalhava em aula o Eça, o Saramago e até alguns escritores mais jovens, mas o seu autor preferido era o José Rodrigues dos Santos. Sempre imaginei Os Maias ou o Ano da Morte de Ricardo Reis na sua estante, sublinhados porque fazem parte do programa, e as obras da Geração de 70 ou os Cadernos de Lanzarote escondidos por detrás de A Filha do Capitão ou A Amante do Governador.

Não é fácil encontrar culpados. Temos faculdades vetustas e que se julgam imunes aos preconceitos que existem em relação às ciências sociais e humanas, não os combatendo, convencidas que estão num Olimpo inatingível — há que lembrá-las que os deuses morreram. Temos escolas básicas e secundárias que trucidam professores, afogando-os em trabalho burocrático, em vez de lhes darem espaço para criarem, para fazerem alguma coisa em benefício dos seus alunos. Temos pais que acham graça à função decorativa do livro, que vivem em casas onde o ecrã da televisão é panorâmico, tal como o do smartphone. Temos filhos que “não gostam de ler”, porque ninguém lhes pôs um livro na mão nem no coração. Temos um Plano Nacional de Leitura activo, muito activo, com imensos projectos, mas cujos resultados pouco se vêem porque, afinal, os livros são bons para ter, mas não para ler. Temos uma sociedade que reflecte isso mesmo: bom é ter, não é ser.

Bárbara Wong, in Público, 20-7-2020

3 COMMENTS

  1. Temos os professores que merecemos. Os professores saem da população em geral, são como os médicos, os advogados, os jornalistas…comparemos frações, nestas profissões, quantos destes profissionais gostam de ler, quantos gostam de ter? são todos produto de 46 anos de democracia que não ressuscitaram a cultura sepultada por 48 de ditadura e analfabetismo. Teriam os avós dos professores atuais de 60 anos, livros em casa, no tempo em que não havia TV?
    Quem pensa que os professores têm uma cassete engatilhada e está vacinado contra ela não merece mais do que isto.

  2. E temos Escolas Superiores de Educação que fazem o quê? Alguém sabe?
    Tenho um testemunho muito próximo, que andou por lá durante dois anos. Como era da área das humanidades, gostava de ler e sabia escrever, passou o tempo a ser redatora e revisora de trabalhos, que eram quase sempre em grupo. Havia colegas que davam vários erros na mesma frase e não sabiam articular um texto, mas os professores não davam por isso. Esses colegas andam agora a ensinar os meninos a ler e a escrever.
    Por outro lado, ia à espera de rever e aprender a ensinar matemática, o que não aconteceu.
    O que aconteceu algumas vezes foi passar aulas, em grupo, a fazer traduções para o doutoramento do professor da cadeira…

  3. Não posso deixar de concordar, mas…
    Há muitos anos, numa reunião realizada em Miranda do Douro, com professores das diversas escolas do distrito de Bragança e responsáveis do Ministério da Educação, abordei a questão da importância da seleção de professores e dos perigos de uma formação centrada, essencialmente, nas didáticas. Nada contra estas, mas o problema era serem sobretudo estas. Os métodos têm um caráter instrumental (quem se terá esquecido disto?), servem para alcançar um determinado fim e qual era? É verdade que se pode saber muito e ser um mau professor, mas um professor ignorante nunca poderá ser, apesar de exímio em didática, um bom professor.
    Durante muito tempo desvalorizaram-se as humanidades, as tecnologias começaram a captar os melhores e, simultaneamente, o facilitismo, que conduziu à massificação, foi-se instalando. A professora Isa, com todo o respeito, é apenas um resultado de um sistema educativo incapaz e/ou fragilizado, apesar dos progressos, não tão significativos como se pretende fazer crer… Não consigo, por isso, lançar-lhe um olhar crítico. Seria injusto, profundamente injusto!
    Quando as notas se tornaram armas de sedução para angariar alunos e embelezar estatísticas, quando as melhores escolas foram ultrapassadas por diplomas com notas elevadíssimas, durante anos, e simultaneamente se recusaram os exames de acesso à carreira (sempre os defendi) o caminho estava aberto para a desvalorização da carreira docente.
    Há muitos anos, mesmo muitos, numa pequena vila do interior transmontano, com invernos rigorosos e sem aquecimento, alunos do 11.º ano, leram, ano após ano, um livro por período e havia sempre uma questão no teste de Filosofia que lhes permitia fazer uma reflexão, para além de poderem intervir oralmente sempre que quisessem. Fascinavam-se com “O Nome da Rosa”, “O Memorial do Convento”, “1984”, “O Triunfo dos Porcos”, “O Admirável Mundo Novo”, “Cem Anos de Solidão”…Havia cineclube e os filmes não eram fáceis, para além de outras experiências. O Discurso do Método” era de leitura obrigatória, ainda se devem lembrar. Hoje, vejo-me mal para que alguns alunos (e são cada vez mais, podemos mesmo falar de turmas) entendam um texto simples, para já não falar da expressão escrita.
    Eram todos bons na altura, não, mas havia a oportunidade de crescerem, a escola era a única saída para a esmagadora maioria ascender socialmente e muitos souberam aproveitá-la. Todos os professores eram bons, não, e alguns anos depois começaram a aparecer jovens professores de Português que diziam não poder exigir aos alunos que lessem Eça porque também nunca o tinham lido, o que me deixou estarrecida e me fez recordar com carinho e gratidão as minhas professoras de português, que me fizeram gostar dos Lusíadas (livro vermelho, com fitinhas de marcação), apesar da gramática e dos célebres “que”, e dos autores obrigatórios do ensino secundário, que li com paixão, e das muitas redações que me fizeram fazer!
    Agora começam a valorizar-se os percursos diretos, ao mesmo tempo que se desvaloriza a avaliação, como se de peçonha se tratasse, entre outros experimentalismos com “muita flexibilidade inflexível”. Parece que que a avaliação discrimina, que importa valorizar competências, seja lá o que isso for sem conhecimentos, traz infelicidade às crianças e jovens e outras coisas mais que transcendem o meu entendimento (talvez seja da idade).
    Creio que continuaremos a descer a ladeira, mas não acusem ou se espantem com as palavras da professora Isa, ela apenas dá corpo a uma realidade para que todos, com maior ou menor responsabilidade, contribuímos.
    Como Bárbara Wong convoca os deuses da Grécia Antiga, permitam-me que termine citando Nuccio Ordine: «Do tema do amor ao tema da verdade o passo é breve. Pensemos no célebre mito de Eros, modelado por Platão, que conheceu um sucesso extraordinário, sobretudo no Renascimento Europeu. No “Banquete”, o filósofo é comparado a Amor, porque ambos estão condenados ao eterno movimento dos opostos. Basta reler a “fábula” da conceção de Eros, contada pela sacerdotisa Diotima, cujas palavras Sócrates refere, para compreender melhor a comparação. Durante a festa pelo nascimento de Afrodite, Poro (deus do expediente), embriagado pelo néctar, concedeu-se a Pénia (deusa da pobreza). Da sua união nasceu Amor, destinado, devido às qualidades opostas dos seus progenitores, a perder e a obter todas as coisas. Nem mortal nem imortal, nem pobre nem rico, Eros desempenha um papel de “mediador”, conseguindo representar simbolicamente a condição do filósofo, sempre suspensa entre a ignorância e a sabedoria. Situado entre os deuses (que não procuram a sabedoria porque a possuem) e os ignorantes (que não a procuram porque julgam que a possuem), o verdadeiro filósofo, amante da sabedoria, tentará aproximar-se dela, perseguindo-a durante toda a vida.» ( in “A Utilidade do Inútil”, pp. 141-42).

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