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Para As “Manuelas Mouras Guedes” Deste País!

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Tudo é um ciclo e este é o ciclo da mentira repetida à exaustão para que se torne verdade. Então sinto que devo gritar ao mundo que os professores e educadores deste país exigem e merecem respeito. Não é por acaso que, para hoje estarmos dentro das salas de aula, tivemos uma formação exigente e complexa de nível superior. Sujeitamo-nos a processos de selecção rigorosos e a concursos públicos sem compadrios. Seremos também os únicos profissionais que diariamente são avaliados por várias faixas etárias, desde o aluno até aos pais e familiares que o rodeiam, mais os amigos destes. Todos estes seguem de perto o desempenho dos docentes. Num sem número de vezes, opinam sem conhecimento, criticam desvalorizando e agridem sem respeito. Não mencionando os seus pares e agentes específicos para o processo oficial de avaliação, somos assim escrutinados minuto a minuto.

Considero ser a nossa a única profissão onde todos podem dar achegas. Seria interessante se no exercício de funções de um juiz, um médico, um advogado, houvesse esta invasão por um qualquer cidadão que entendesse ser seu direito ir contra algum procedimento com o qual não concordasse e, sendo assim, interferisse da forma que bem entendesse.

A nossa missão hoje é totalmente desvalorizada, pois foi repetida muitas vezes a mentira contra os docentes e inverteram-se valores, derrubaram-se hierarquias e permitiu-se a promiscuidade. De tal forma que qualquer um se sente autorizado e preparado para ensinar, perdoem a expressão, “ensinar a missa ao padre”. O desrespeito é tanto que a complexidade de ensinar, de moldar e preparar mentes não é obstáculo à intromissão de ‘aliens’ neste processo difícil e para o qual só os docentes foram preparados a preceito e com rigor.

Todos de facto deviam inclinar-se, pois qualquer conhecimento que tenham, qualquer frase que escrevam, qualquer opinião que possam emitir, qualquer profissão que exerçam, é aos professores que podem agradecer.

Não, não somos perfeitos, mas somos capazes e resilientes para, muitas vezes, fazermos milagres. Conhecemos os nossos alunos, as suas famílias, as suas realidades e agimos em conformidade. São eles que nos impelem a continuar apesar dos tantos pesares que sentimos. É por eles que, mesmo mal pagos, humilhados, agredidos, enxovalhados, e denegridos em praça pública, continuamos a ensinar como se não houvesse amanhã.

Mas a ordem do dia é sempre a desqualificação e culpabilização do docente, independentemente de a urgência ser verificar as condições de trabalho para docentes e discentes, as condições de saúde física e mental dos docentes, a precariedade dos salários destes profissionais. Como podemos cultivar-nos sendo impossível ter acesso financeiro a formas várias de cultura? Como podemos transmitir a verdadeira sensação de lugares diversos, se é insustentável conhecê-los?

Um dia seremos poucos, muito poucos. Tão poucos que a história vai ter de ser reescrita. E os filhos dos nossos netos vão perguntar porque lhes roubaram o direito de aprender a sonhar.

Maria do Rosário

Professora do 2º ciclo do Ensino Básico

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4 COMENTÁRIOS

  1. Muitos parabéns pela sua opinião.
    O que diz é um facto: não há nenhuma profissão que seja tão avaliada e por tanta gente diferente como a nossa OS PROFESSORES!

  2. Texto muito bem escrito. Parabéns! Só pode ter sido escrito por alguém que está “no terreno” todos os dias, há muitos anos. A realidade é esta e deveria ser partilhada por muitos, principalmente por aqueles que deixam que lhes lavem o cérebro através dos media e das redes sociais e falam de realidades que não conhecem com uma convicção e, simultâneamente, uma ausência de conhecimentos que até passam por convincentes. Só para alguns, felizmente.

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