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Pais vs Professor

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pais-vs-professoresA incapacidade parcial ou total de pararmos e dedicarmo-nos uns minutos à introspeção, resulta nesta “cegueira emocional” de apontar de forma leviana o dedo aos outros, sacudindo a água do capote, quando somos parte do problema e também nos cabe responsabilidades na sua resolução. Ao que parece, o insucesso, a indisciplina, a falta de educação de um grupo significativo de alunos, deve-se à total incompetência e impreparação dos professores, que ainda se guiam pela cartilha educacional do século XIX e são incapazes de dar respostas pedagógicas adequadas, aos alunos do século XXI. Quem tiver alguma paciência (e começa a ser complicado tê-la) e gastar algum do seu tempo, a passar os olhos pela vasta “literatura”, que um número vastíssimo de “especialistas” nos presenteia diariamente, percebe facilmente, que debaixo de alguns floreados, as opiniões convergem, os únicos culpados do estado da educação são os PROFESSORES. Os alunos consideram a escola chata, os professores uma seca e não se divertem o suficiente. Uma maioria de encarregados de educação confunde o professor com o animador, com a babysitter, com o psicólogo, com a assistente social e alguns até, com o seu papel de pais. Confundem educação com formação, o insucesso dos seus filhos deve-se à desmotivação dos seus professores, a indisciplina é falta de preparação e formação dos mesmos para lidar com as crianças e jovens de hoje. Queixam-se do excesso de horas que os seus filhos passam na escola, mas exigem escola a tempo inteiro, onde os possam depositar. Para os políticos a educação é uma paixão e cabe aos professores trabalhar de graça, ter os dons da omnipresença e da omnisciência. A comunicação social arranjou um tema para gastar resmas de papel e de tinta e a globalidade da sociedade acha-nos demasiado bem pagos para o trabalho que fazemos. Os professores interiorizaram essa culpa.

No entanto, esta é uma visão simplista e deturpada da realidade escolar. Existe necessidade de simplificar currículos, de um ensino mais experimental e em estreita ligação com a realidade que nos rodeia, de professores mais motivados, com mais autoridade e estabilidade, mas não só. Existe necessidade que alunos, encarregados de educação e a restante sociedade valorize a escola e os seus profissionais e que estes se valorizem. Milhares de professores diariamente gastam não só o seu tempo a ensinar, como também a resolver toda uma infinidade de problemas dos seus alunos, desde a falta de higiene, de vestuário, de alimentação, violência no seio familiar, problemas económicos, emocionais e psicológicos. Trazem de casa o seu computador, as colunas, o projetor e outros materiais para proporcionar novas experiências de aprendizagem. Fazem-no muitas vezes, sacrificando a sua vida pessoal, o seu descanso e o seu dinheiro. Em contrapartida, muitos dos nossos alunos e encarregados de educação confundem a boa vontade dos professores com obrigação, habituaram-se a receber sem dar nada em troca. A escola passou a ser encarada como a ATL moderna, onde se largam os meninos para que estejam ocupados, enquanto os pais fazem a sua vida. Para muitos dos nossos alunos, aprender tem de ser sempre de forma lúdica, mas que não dê trabalho nenhum. O uso de tecnologia serve apenas de entretenimento, é demasiado complicado responder ao questionário de um vídeo, de um filme, fazer uma pesquisa sem plagiar. Escrever e ler está fora de moda, conhecer a sua história, ter cultura geral, adquirir hábitos saudáveis, competências pessoais, sociais e laborais, princípios e valores não faz sentido, são tudo aprendizagens do século XIX, pouco adequadas a crianças e jovens do século XXI. Por isso a indisciplina, a falta de respeito e a total falta de interesse pelo que quer que seja, está devidamente legitimado, fundamentado e tolerado. Para um número significativo de encarregados de educação, que precisa da escola a tempo inteiro, que precisa que os professores façam o seu trabalho e o deles na educação dos seus filhos, a escola só existe para satisfazer as suas necessidades e as suas exigências. São incapazes de meter a mão à consciência no que toca à sua cota parte de responsabilidade no insucesso e ausência de regras dos seus filhos. Desconhecem conceitos como respeito e solidariedade com todos aqueles que cuidam dos seus. Apontam o dedo, denigrem a imagem, maltratam, alguns inclusive, agridem física e psicologicamente os educadores dos seus filhos, outros ainda, acham-se donos das escolas e patrões dos professores, mas na hora de envolverem, de se chegarem à frente com soluções, ninguém os vê, nem os ouve. Os professores fazem muito e mais do que devem pelos vossos filhos. Eles passam demasiado tempo dentro da escola, é o direito deles à educação que todos temos obrigação de salvaguardar e é o futuro deles que está em jogo. Querem uma escola com qualidade para eles, assumam a vossa parte da responsabilidade, apoiem, respeitem e sejam solidários com os educadores dos vossos filhos. Envolvam-se, cooperem, apresentem soluções e sejam tão exigentes convosco próprios e com os vossos filhos como são com os professores.

Cassilda Coimbra

Professora

9 COMMENTS

  1. Subscrevo inteiramente cada palavra…

    Passo 7 horas por dia com os meus alunos, tento que aprendam, que comam, que sejam tolerantes, amigos, cidadãos responsáveis, solidários, enfim…
    os pais ainda acham que têm o direito de contestar as minhas tomadas de posição quanto a sanções e atrevem-se a julgar, quando as horas que passam com os filhos, por dia, são menos de metade das que eu passo. Ah, eu tenho filhos também, e dedico-lhes as horas que me sobram…e depois trabalho noite dentro para os filhos de quem nunca tem uma palavra de agradecimento apenas de recriminação.

  2. Concordo 100% com tudo o que está escrito neste post.
    E remetendo para a minha área, é verdade o que se diz de alguns E.Educação.
    Algumas crianças de 3 anos entram no Jardim de Infância , como se estivessem a entrar na creche.
    a)não comem sózinhas, ( e não há pessoal suficiente para ajudar todos os que ficam com os braços para baixo, à espera que alguém lhe dê na boca);
    b)não controlam os esfíncteres (e às vezes não há pessoal suficiente para lhes trocar a roupa ou para passar a esfregona no chão )
    c)não aceitam as regras de socialização da sala, fazem birras enormes, e frustrados agridem os adultos e outras crianças ( e se são impedidos de continuarem a agredir, através dum simples conter /abraçar/ com firmeza, ai que del rei que é agressão ao menino)
    d) algumas mães dizem-nos: não lhe consigo dar o antibiótico, não quis tomar o pequeno almoço, não quis vestir o casaco….
    Já chega!!! as mães têm que começar a ter outra atitude.
    Se 1 mãe não consegue educar 1 filho,
    1 educadora/ professora não consegue educar 25 filhos, cada um de sua mãe!!!

  3. Concordo plenamente, Cassilda…O que escreves-te, é o que apetece-me dizer muitas vezes….mas faltam-me as palavras! É o cansaço, por mais desmotivada que esteja, ainda gosto de estar com os meus alunos, gosto de ensinar e sobretudo transmitir valores, como o da tolerância, o respeito pelo outro….cada vez mais em falta neste mundo. Bravo, Cassilda!

  4. Bom dia,
    Li atentamente o post e as respostas…
    … meditem e apenas gostaria de dizer que concordo mas, quando foi diferente?
    Os meus pais nunca foram à escola por minha causa, nem levar. Tinha professores para poder dar uma aula pedia por favor para sairmos e assim dar a aula a quem ficasse, 2.
    Estragaram os carros dos professores… oh meu Deus.
    Seríamos nós diferentes?
    Tenho certeza que é como em tudo na vida, se os professores olharem à sua volta tenho certeza que conhecem excelentes professores mas, também muito maus profissionais. Como exemplo os miúdos aturam alguns destes profissionais durante 35h semanais e ainda devido ao trabalho dos seus pais, ainda vão outras tantas para centros de estudos (até para colmatar o vosso mau trabalho) os Senhores professores dão 24h lectivas e tem 15h para outras tarefas (decerto que os miúdos também gostariam de mais tempo para desanuviar).
    No que diz à disciplina, não vou falar dos miúdos até porque são miúdos e faz deles diferentes mas normais, e se vêm de famílias destruturadas … que dizer senão ajudar, mas vos digo já estive em algumas situações só com professores e sim vi indisciplina, porque um adulto esse sim, tem de saber estar. Por isso, a vida de hoje não é diferente da de ontem nem vai ser da de amanhã. Temos de ser ‘Um’ em tudo que a vida nos trás…

    Um Pai que ama a filha, o filho, a esposa, a vida é os outros

    Manuel Lopes

  5. Demasiado facioso.
    Há bons e maus alunos?!… Como há bons e maus professores!!… Tão maus que nem querem ser avaliados… (um tipo quando é bom não tem medo de ser avaliado).
    Vou dar um exemplo de uma grande professora que tive o prazer de conhecer: Estou na Suiça, mais precisamente no Ticino, conheci aqui um sujeito, português, que era chefe de sala num grande hotel. A mulher deste era professora em Portugal, quando chegavam as férias da Pascoa juntava-se ao marido, findas as férias metia um atestado médico e depois outro e outro até o ano lectivo acabar, iniciavam as férias do verão e aí não precisava de atestado. Vinha o mês de setempro e com ele o inicio do ano escolar, arranjava mais um atestado médico e no fim deste outro ainda de modo que regressava a Portugal e ao seu emprego de professora por meados ou fins de outubro, de maneira que era paga como professora em Portugal durante todo o ano mais seis meses na Suiça como servente de mesa. E fez isto durante vários anos, só parou quando a efetividade naquela escola começou a ficar em risco. Eu até acredito que fosse uma boa professora!!… que ela de estupido não tinha nada.

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