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PAI…

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PAI, sempre entendi aquilo que me contaste quando ficámos em silêncio, quando me seguraste a mão fina de menina, quando me abraçaste adormecida no teu peito. Os teus silêncios ainda são luminosos e, neles, quero morrer muitas vezes….

PAI, ainda sinto a tua doçura quente, a fragilidade das tuas mãos a tocar os meus cabelos, o teu olhar secreto e húmido gravado numa face de doçura.. Sim, nos teus olhos verdes ainda há um mar de ternura que estremece no meu baloiço, um sorriso quente tão deliciosamente ingénuo, uma comoção lenta no nada do meu universo…..

PAI, falas sempre pouco quando me apertas a mão e, em silêncio, vemos a noite adormecida sobre a terra que, cálida e tranquila, repousa na planície banhada numa lua enorme. Nós, voltados para o céu e eu, menina, vestida de festa no branco de uma luz inquieta que me ilumina os olhos, sei que o que tens a dizer-me não cabe na paz longínqua que se enfeita de palavras ; é que, para além da tua boca que sorri, há as palavras graves que se sentem nos teus gestos, há um silêncio que me afoga e me enfeitiça…….

PAI, o que se ilumina é o teu maravilhoso olhar, os teus dedos abandonados que, num apelo trémulo de doçura, vagueiam na busca da minha mão, vagueiam à minha procura e, dentro de mim, todo o sangue vai correndo do avesso.

PAI, porque partiste muito antes de seres velho, quero dizer-te que sempre entendi aquilo que me contaste quando ficámos em silêncio.

PAI, quero dizer-te que ainda estou aqui e que te encontro em tudo que viveu para além de ti: a nossa casa, o nosso abraço, os meus brinquedos de menina, o nosso canto secreto, as flores amarelas do jardim, as cócegas no meu pescoço, os beijos no meu cabelo, o livro aberto sobre a mesa, o sorriso doce de um menino que foi pai, o meu PAI!!!

PAI, um longo abraço quente de ternura e de saudade sufoca-me na procura de um refúgio onde se esconde a minha alegria perdida………

PAI, porque sempre entendi aquilo que me contaste quando ficámos em silêncio, daqui, do meu inverno, desta noite em que te escrevo, tu, só tu, sabes o quanto te AMO!!  

Cândida Pinto, professora e filha…

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