Início Editorial O meu pai é o Ministério de Educação e é um chato.

O meu pai é o Ministério de Educação e é um chato.

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acorrentado computador

Mais cedo ou mais tarde, todos nós sentimos aquela necessidade de sair debaixo das asas dos nossos pais e atingir a tão desejada autonomia e independência. No meu caso em particular, lembro-me da alegria que senti quando experienciei pela primeira vez viver sozinho, fazendo o que queria quando queria e como queria, ignorando as débeis condições do meu “novo” apartamento (cruzes, como foi possível)…

A autonomia escolar é uma ambição antiga dos professores e demais filiados escolares. No reinado de Nuno Crato até surgiram uns pomposos contratos de autonomia com honras de telejornal e fitinhas para cortar, mas que não passaram de belos embrulhos com muito ar e pouco conteúdo.

Mas o nosso pai Ministério de Educação sente uma dificuldade profunda no corte umbilical e tarda em largar a mão, o braço, os pés, o pescoço, pronto… o corpo todo.

A obsessão pelo papel, onde tudo se regista, tudo se controla, criando intitulados “Registos Mortos”, constituídos por inúmeros falecidos que vão desde: relatórios; justificações; planificações e seus conteúdos, objetivos e competências; sumários; “grelhadores” para todos os gostos; registos de contactos; atas de reuniões; atas de departamento; avaliações externas, internas, de escola de professor; autoavaliações; dossiers de turma com caracterizações de turma, registos de faltas, comunicações com os pais, relatórios para CPCJ, psicólogos, PEIs, avaliações intercalares e finais; registos administrativos; etc, etc, etc e mais etc… Provam que tudo temos de provar para o pai acreditar/certificar.

Qualquer filho que se preze, fica chateado com este galináceo que não sai de cima e asfixia a liberdade laboral e criativa do seu descendente. Ele pensa que é para o nosso bem, mas não passa de um espírito poluído pela desconfiança, de marioneta na mão, brincando e brindando com correntes legislativas e reformas educativas.

Ai, pai pai… Conheci uma senhora e gostaria de te apresentar. É estrangeira, fala uma língua esquisita, mas parece que tem umas ideias interessantes

É necessário ter professores excelentes para existir um bom sistema educacional. Para que alguém se torne professor na Finlândia, tem de ter um nível bom, com cinco anos de formação que contemplam dois de mestrado. Então, sabemos que podemos contar com eles, não precisamos nos preocupar, pois sabem o que estão a fazer. Tudo é baseado na confiança.

A senhora é Ministra da Educação da Finlandia que já deves ter ouvido falar pela referência do seu ensino. Provavelmente não queres saber, mas começa a estar na altura de a ouvires um bocadinho… só um bocadinho…

Pois… não sei quanto a vocês, mas eu não sinto essa confiança por parte da tutela e muito menos a independência para realizar o trabalho necessário sem ter que justificar porque não dei isto e substituí por aquilo. Não sinto autonomia para simplesmente parar, esperar, e respeitar ritmos de alunos, pois metas têm de ser atingidas, currículos têm de ser cumpridos e rankings têm de ser publicados.

Um exemplo claro da falta de confiança por parte da Tutela, é a indicação no Estatuto do Aluno, da obrigatoriedade de realização de conselhos de turma disciplinares quando um aluno atinge a 3ª participação disciplinar do mesmo professor ou 5ª interpolada.

reuniões disciplinares

Nós professores, já com 10,20,30,40 anos de serviço pelos vistos não sabemos quando nos devemos reunir e nem comunicamos intervalo sim, intervalo sim, sobre as diabruras dos artistas. É preciso vir alguém de cima para dizer que temos de ficar depois das aulas sentados numa sala para falar outra vez sobre o Zé ou Maria.

Podemos chegar ao exemplo caricato, em versão extrema, de um aluno ter 4 participações disciplinares por agressões a professores, ter “usufruído” do mesmo número de processos disciplinares com 12 dias de suspensão cada um, e, 15 dias antes de acabarem as aulas ter nova participação disciplinar porque resolveu falar mais do que o normal. Semana seguinte estaríamos reunidos para analisar e propor uma sanção ao menino e passado quinze dias teríamos outro conselho de turma desta vez de avaliação. Mas a “malta” anda carente de convívio e estes conselhos de turma sempre servem para terapia de grupo…

É possível? Sim. Já aconteceu? Eu espero que não?

E agora multipliquem esta possibilidade pelos restantes 20 ou 30 alunos… E não se esqueçam que cada reunião vem sempre acompanhada pela adorável ata…

São este tipo de casos que são perfeitamente dispensáveis, que roçam o ridículo e provam a obsessão ministerial em controlar seus professores e suas escolas. Mas uma coisa tão simples, como saber a tipologia e dimensão da indisciplina escolar não são capazes, nem se interessam por saber.

Já que fizeram um novo simplex, podiam aproveitar o balanço para fazerem um também para a Educação, mas que cortasse as efetivas gorduras burocráticas das escolas e principalmente do trabalho docente.

Ok pai?

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