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“Ó pá, raça do moço mordeu-me outra vez!”

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desesperoO calor peganhento do Verão tardio alaga a sala de aula. A luz do sol, no seu caminho oblíquo em direcção ao poente, bate nas mesas e mistura-se com os cheiros de um dia inteiro de actividades, brincadeiras e correrias. Nas mesas há uma profusão de cores e materiais. Os estojos descuidadamente abertos derramam lápis de cor e canetas de feltro, nas folhas brancas começam timidamente a despontar as criações artísticas. A aula ainda há pouco começou e já a professora não tens mãos a medir: circula de mesa em mesa, no afã de acudir a tantos braços no ar. “Ó professora, chegue aqui”, chama um do fundo. “Professora, não consigo fazer, sai-me tudo mal”, queixa-se outra do outro lado. “Ó professora, o Manel tirou-me o lápis”, brada um terceiro. “Já vou, já vou”, promete ela, e afasta com impaciência uma madeixa que teima em deslizar pela face transpirada.

Na primeira mesa, mesmo em frente à sua secretária, duas meninas com necessidades educativas especiais sentam-se em silêncio, o olhar parado na folha imaculada, os lápis intocados sobre o papel, no rosto espelha-se a resignação paciente de quem está habituado a não conseguir. A professora respira fundo e faz a sua voz sobrevoar o burburinho generalizado. “Ora vamos lá a ter calma. Eu sei que precisam que eu os ajude, mas eu sou só uma, não é verdade? Não é por me chamarem com muita força que eu vou conseguir desdobrar-me e atender todos ao mesmo tempo, é ou não é?”

Um coro de “siiiiiiiiiiins” descontentes brinda a sua intervenção. “Ok. Vão então fazendo a vossa tarefa que eu irei aos vossos lugares não tarda nada”. Aproxima-se das meninas da frente com um sorriso luminoso e encorajador. Explica e torna a explicar, toma nas dela as mãos pequeninas e desajeitadas, prende-lhes o lápis nos dedos e acomoda-os na sua própria mão que desliza pelas folhas. “Está a ficar muito bonito”, enaltece, como se não fosse ela a autora camuflada da obra.

A algazarra cada vez mais intensa leva-a a levantar os olhos, à procura de uma perspectiva panorâmica do cenário. Dois rapazes debruçam-se sobre as folhas entretanto encardidas e simulam uma luta com os x-actos. Um garoto franzino ao fundo da sala, cansado de aguardar pela ajuda que tarda, cola na parede pequenas bolas de papel impregnadas de saliva. Uma miúda segura os braços gorduchos do colega do lado, enquanto a da frente tenta escadear-lhe o cabelo com a tesoura de recorte. A professora sobressalta-se e ralha, o rosto congestionado e vermelho. Percorre as filas rapidamente, a repor a ordem, tenta ajudar quem precisa, mas a sala está cheia de miúdos e ela não pode deixar de supervisionar.

De repente, um ribombar no fundo da sala apanha todos de surpresa. O Vasco, talvez desassossegado pelo barulho ou sabe-se lá porque razões, levanta-se num rompante, atira ao chão com estrondo a mesa e a cadeira, afasta com um safanão a professora do apoio e rodopia pela sala numa espécie de dança desarticulada e assustadora, que acompanha com sons guturais e incompreensíveis. O Vasco é um aluno portador de uma patologia severa que lhe concede o estatuto de inibidor da formação de turma. O Vasco quase não fala, não escreve, não lê, não interage com os colegas, não é autónomo na maior parte das actividades diárias. Os alunos quedam-se, num misto de apreensão e pesar. Alguns não conseguem esconder o medo, quando o vêem investir cegamente contra tudo e todos, enquanto solta gritos aflitivos.

As professoras tentam como podem repor a serenidade, acalmar o rapaz, persuadi-lo a parar de esbracejar e de gritar, mas a tarefa é árdua e o caos instala-se. O Vasco está agora junto à porta, movimenta-se desarticuladamente para cá e para lá, em vigorosos movimentos desconexos, como uma traça a bater na vidraça. Uma das professoras agarra-o pelo braço, na tentativa de impedi-lo de continuar a bater com a fronte, onde um ‘galo’ avermelhado começa a inchar, mas é ela que solta um grito involuntário e sentido. “Ó pá, raça do moço mordeu-me outra vez!” exclama e mostra o antebraço, onde um semicírculo arroxeado lavrou com perfeição a suavidade da pele.  O silêncio estarrecido da turma é agora polvilhado aqui e ali por risinhos abafados. As professoras lançam-lhes um olhar gélido de censura e continuam, resignadas e briosas, a tentar gerir as vicissitudes da escola inclusiva, com a mesma eficácia de quem recebeu um garfo para comer canja.

MC

Professora e autora do blogue Estendal

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