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“Overdose” Educativa?

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keep-calm-and-bip-bip--6Como referi no artigo “panelas de pressão”, as crianças em Portugal, principalmente as mais novas, “carregam” uma carga letiva bastante superior a muitos países da Europa. Estou convicto que esta questão influencia diretamente as questões disciplinares.

Se acrescentarmos à carga letiva os trabalhos de casa, significa que as crianças têm de dedicar 8 a 10 horas do seu dia às questões escolares. Tal como os adultos, também elas sentem o desgaste de um dia passado no local de trabalho. Então porque razão não temos isso em consideração?

É perfeitamente justificável que com o avançar da idade, o ritmo escolar fique mais intenso e a criança precise de dedicar mais horas ao estudo. Isso leva a uma maior exigência e estar “presente” nas aulas não basta para atingir determinados níveis de desempenho. Conforme mostrei na semana passada, noutros países a evolução da carga letiva vai aumentando consoante a idade. Parece-me que é uma mera questão de bom senso…

Para o ano a minha filha entrará no 1º ciclo do ensino básico. Tenho falado com alguns amigos que já têm os seus filhos na “escola dos sentados” e verifico a “ginástica” que estes têm de fazer para conciliar aulas, trabalhos de casa e atividades extracurriculares. Confesso que me faz alguma confusão ver crianças com 6,7,8 anos de idade, passarem o dia inteiro na escola e depois ainda levarem para casa tarefas suplementares. Não consigo deixar de pensar sobre os motivos pelo qual esta situação é tão frequente. Será que não tiveram tempo suficiente? Mas quantas horas terão as crianças de passar na escola para não levarem trabalhos para casa? Qual é o limite? O que é que se procura atingir com os trabalhos de casa? A autonomia? A assimilação de conteúdos? Mas isso não se adquire na própria escola? Será que este acréscimo de trabalho é apenas um mero exercício de osmose temporal? Não entendo, juro que não entendo…

E pelos vistos não sou o único…

 

Além do dia inteiro na escola e consequentes trabalhos de casa, muitas crianças também usufruem de atividades extracurriculares, uma prática cada vez mais comum. Para alguns pais as atividades extracurriculares pertencem à categoria “É menos tempo para a aturar”, no entanto para a maioria estas são vistas como uma mais valia. Mas não há bela sem senão, pois das 8, 9, 10 horas, passamos facilmente para 11, 12 horas por dia com atividades. Pela critica anterior, já devem estar a pensar que também sou contra essas atividades. Enganam-se, sou a favor… “Então afinal?” Dirão vocês! Permitam-me que explique.

Qual é a mais-valia das atividades extracurriculares?

São atividades que normalmente a escola não inclui no seu programa, ou que aborda de forma superficial. São atividades que permitem adquirir competências que dificilmente serão atingidas só com a escola. Aliás, as crianças passam pelas chamadas “fases sensíveis”, nas quais estão mais predispostas para a assimilação de determinadas competências. Não aproveitar essas fases, é desperdiçar uma oportunidade.

Fases Sensíveis
Desenvolvimento da Criança e o Desporto – http://moodle.edu.azores.gov.pt/ebsvfc/mod/resource/view.php?id=118

Os pais, na generalidade, querem o melhor para os seus filhos e pretendem dar-lhes condições para que obtenham uma formação transversal, onde a cultura e o desporto também possam ter o seu espaço.

Vivemos numa sociedade “bip bip”, onde é tudo muito rápido, talvez demasiado rápido… Certamente já repararam que depois das aulas, é preciso fazer trabalhos de casa, levar os miúdos às atividades, dar banhos, fazer jantar, jantar, preparar o dia seguinte e deitá-los. Isto tudo num espaço de 4/5 horas, até para cumprirmos com as horas de sono recomendadas que podem consultar no artigo “Está na hora, da caminha, vamos lá dormir…”Esta é a realidade para milhares e milhares de famílias.

Mas será que estamos a lidar com uma “overdose” educativa, ou estamos apenas a assistir a mais um passo na “escada” da evolução social?

Invertamos o raciocínio. Não acham que as crianças têm uma enorme capacidade de adaptação? Não são elas mais resilientes do que aquilo que nós julgamos? Estamos sempre preocupados com todos os pormenores do seu dia-a-dia, o que lhe faz bem, o que lhe faz mal, tens de ir para ali, tens de ir para aqui, cuidado com isto, cuidado com aquilo… Não estarão elas felizes com a sociedade “bip,bip”, com gadgets por todo o lado, informação no momento, acesso constante a tudo e a todos? Serão elas que têm de se adaptar a esta nova realidade ou somos nós?

A resposta é simples… Faça a seguinte questão a si próprio. “A minha criança é feliz?” Terá a sua resposta…

Não tenho dúvidas em afirmar que estamos na presença da geração mais bem preparada de sempre. Antigamente havia a escola e pouco mais, o resto do tempo era “queimado” com brincadeiras entre amigos (também importantes, não me interpretem mal) mas esse tempo não era orientado, planificado ou otimizado. Éramos felizes assim… Mas hoje as crianças também o são. Esta é a sua realidade, é o que sempre conheceram. Os dilemas somos nós que os criámos, em virtude de experiências passadas que evidenciam um saudosismo tão típico.

O importante é estabelecer um equilíbrio. Enquanto pais, temos a obrigação de verificar se a nossa criança aguenta a “dose” educativa e se é feliz com ela. A escola também tem de fazer essa análise. A formação das nossas crianças é, ou deveria ser, uma prioridade nacional, e quem decide/ensina por vezes é incapaz de ver além dos padrões há muito instituídos. Por vezes fico com a sensação que a escola, em diversos aspetos, estagnou, ignorando o que a rodeia e as potencialidades que daí advêm. A escola é o reflexo da sociedade e quando esta muda, tem de haver uma adaptação. Não é um capricho, é uma necessidade!

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