Home Escola Ouvem-se alguns (CONFAP/ANDAEP/FENPROF )e dizem que são todos… Queixa ao jornal Público!

Ouvem-se alguns (CONFAP/ANDAEP/FENPROF )e dizem que são todos… Queixa ao jornal Público!

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Ex.mo Senhor Provedor do Leitor do Público,
Venho por este meio expor o meu desagrado, como leitor pagante de um produto, que julgo (por isso o contratei vários anos) produzido com o maior rigor, pela cobertura que o Público vem dando à situação da dialética entre fecho/abertura das escolas no atual confinamento.
Faço-o na forma de carta aberta, na suspeita de que as minhas singelas palavras de “leitor da província” não bastarão, por si próprias, para ser ouvido e que, alguma publicidade das observações, talvez leve a que o assunto mereça mais alguma atenção.
Não vou argumentar muito.
Começo por por em cima da mesa as regulares afirmações publicadas de que os “pais querem isto e aquilo”, “as escolas querem isto e aqueloutro”, “os professores querem aquilo e mais isto”.
Os pais são representados por associações de pais, mas o Público e restante imprensa quase só ouve, preguiçosamente, uma confederação (CONFAP), quase ignorando outra (CNIPE).
Além disso, se ouvirem as associações de pais de concelhos diversos e de várias escolas dispersas pelo país (diversidade), não as confederações (os do costume), talvez possam dar aos leitores uma visão mais consistente da realidade.
Alguma vez o Público se dedicou a verificar a efetiva representatividade, em pessoas, da CONFAP? E já foram verificar as fontes de financiamento para funcionamento desses organismos de cúpula? E não estou a insinuar que haja algum problema.
Como leitor, gostava mesmo de saber, por exemplo, se a CONFAP recebe subsídios do Ministério da Educação ou do Estado. Digamos que, se isso se passar (que não sei e muito estranharia), teremos de ver certas declarações a outra luz, certo?
Quanto às escolas, dizer-se que, porque um diretor falou (o do costume), as escolas “acham” o que quer que seja é muita ousadia de dedução.
Os diretores não representam toda a realidade coletiva chamada “escola” e, como agentes políticos (no sentido lato), também têm os seus interesses particulares de classe e individuais e podem, falando em nome da escola, não falar realmente por esse coletivo.
A escola como comunidade é, quanto muito, representada por outro órgão e, dada a forma de funcionamento, podemos chegar até a ter de concluir que essa realidade “escola” nem é legitimamente, e com propriedade do que é representar, representada por ninguém.
Por isso, ler nas páginas do Público que “as escolas” dizem isto e aquilo, quando são os diretores que dizem, é ver o meu jornal de sempre a acolher uma hipocrisia que machuca qualquer professor, como eu, e alinhar na manipulação governamental de que o sentir das escolas tem um único rosto em cada uma (a expressão “rosto da escola” tem aqui uma valência que merecia uma pesquisa para se atingir plenamente o que quero realmente precisar).
Usando e adaptando o nariz de cera que António Costa tanto usa: “os portugueses não deveriam tolerar ser iludidos desta forma.” E os leitores do Público também não.
O mesmo se diga quando se citam acriticamente políticos que agora deram em usar a expressão “comunidade educativa”. Julgava que o Livro de Estilo ainda obrigava a maior rigor conceptual.
O que é para o Público uma comunidade educativa?
Estudei vários anos administração escolar, com alguns dos maiores especialistas portugueses e não sei bem o que é, ou se existem, no rigor do conceito, nas escolas portuguesas.
Mas tenho a certeza de quem é que não as ouviu, existam ou não, para vir dizer que “aquilo que dividiu os cientistas uniu as comunidades educativas”. A técnica do falso consenso propagandistico, no seu esplendor.
Ouvir confederações de representatividade limitada, associações de diretores, desligados já da realidade dos professores e até sindicatos, não é ouvir “as pessoas das escolas”. É ouvir “corporações” e não as sensibilidades diversas da sociedade civil escolar.
Para ter uma percepção da realidade das escolas, sairia melhor retrato se colocassem um jornalista à porta de 2 ou 3 escolas, de vários pontos do país, e perguntassem a membros reais desse mundo escolar. 
À semelhança de uma marca de cosméticos, há uns anos, a comunicação sobre escolas tem de começar a ser feita com “pessoas reais” e não os do costume. 
Ou no Público não se tenta fugir à captura da sociedade civil por interesses políticos e institucionais, por se acreditar, ingenuamente, que não existe?
Assim, o que o Público vem mostrando vezes demais e nesta questão do fecho várias vezes, é um mundo educativo caricatural: “o pai do costume” (e porque não uma mãe diferente? É curioso, mas, sendo eu diretor de turma, a totalidade das encarregadas de educação da minha turma são mães, mas o “pai televisivo e noticioso” é quase sempre um), o “diretor do costume” (não acham curiosa a coincidência de que as cúpulas representativas de pais e diretores sejam ambas de Gaia?) e o “sindicato do costume”.
E, nesse capítulo, se há coisa que os professores têm é muitos sindicatos.
Porque é que, havendo sindicatos grandes, com tamanhos próximos das Federações, se ouvem quase sempre as federações e mormente uma delas? 
Não sabem os jornalistas que há um problema geracional nos professores, que se reproduz nos sindicatos? Já se deram ao trabalho de verificar qual a representatividade relativa dos sindicatos de professores? Acham mesmo que Mário Nogueira é a voz dos professores como um todo?
Penso que isto merece uma reflexão do provedor do meu jornal desde os 18 anos.
Porque não quero acreditar que seja intencional esta distorção de representatividade dos agentes educativos caricaturais, que a comunicação social escolheu para “representar” a educação portuguesa.
Acho, com a benevolência que os editoriais do Senhor Diretor do jornal já não merecem (mas talvez os editoriais sejam só um mal menor, sendo a instituição maior que os seus dirigentes…), que é só facilitismo e até alguma preguiça de seguir o caminho de aprofundar as coisas com outras pessoas, anónimas e sem lugar, nem vontade, de estar nas “corporações” a que a comunicação social reduz a vida civica, mas com maior proximidade ao real.
E a minha sugestão de consumidor das vossas notícias é simples: levantem-se da cadeira e vão para a porta das escolas. Ouçam quem assomar à porta. A imagem, se repetido o instantâneo será cada vez mais nítido. 
Quando o Público fez isso liderou na qualidade de informação sobre Educação.
E, finalmente, sobre o caso concreto do fecho/abertura das escolas, sendo um jornalista de grande qualidade e agudeza de espírito, reconhecida desde há largos anos, peço-lhe que tenha a paciência de confrontar estas duas notícias publicadas no jornal.
Uma (link 1) é o primeiro ministro a referir o que se passaria com os computadores nas escolas no início do ano letivo (falou uns meses antes do ano começar).
Outra (link 2) é a noticia do Público sobre as escolas no novo confinamento.
Link 1
Na 2 diz-se a dada altura “Todas as escolas estarão abertas, enquanto em Março estavam fechadas. O encerramento das escolas foi apontado como um grande factor de stress para os pais que em casa tinham de compatibilizar a novidade das aulas online com o seu teletrabalho. Além disso, foi visto como um factor de aumento das desigualdades, dado a falta de acesso a material informático por parte de algumas famílias. As creches também podem estar abertas.”
A passagem que destaquei não motiva alguém a perguntar-se: as escolas ficam abertas, ao contrário do que acontece por essa Europa fora, porque é bom para a saúde ou porque o PM, em 10 meses, não cumpriu a promessa de meios para o caso de terem de fechar?
Esta é a pergunta que os meus colegas da sala de professores, que acham que os “diretores da nação” andam a “tratar da sua vida” e de Mário Nogueira “já não interessa o que anda a fazer”, gostavam de ver respondida, com clareza, no jornal que vários de nós lemos.
Naquela comunidade educativa concreta, e em muitas outras em que a opinião não se expressa pela voz regulada da corporação, há várias opiniões sobre o fecho, que a manutenção do ensino presencial não uniu.
As escolas ficaram abertas pelo bem do Governo (para não se saber da incapacidade de cumprir promessas essenciais, agora sim, às escolas) ou realmente em nome do bem público?
Ou será que a hipocrisia latente sobre este assunto é o “mal maior”, que não se vai revelar, mas que fará milhares de trabalhadores com mais 60 anos arriscar a vida, frente a centenas de alunos, sem vacina, sem distância social e sem testagem, enquanto outros confinam?
Com os melhores cumprimentos,
Luís Sottomaior Braga (professor do 2o ciclo do ensino básico há 25 anos)

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