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Os trabalhos de casa violam o código do trabalho

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(…) Explicado o enquadramento, penso que é importante percebermos que o “trabalho” das nossas crianças é estudar. Assim, faz sentido olharmos para o Código do Trabalho para esclarecer alguns aspectos:

Artigo 73º: 1 – O período normal de trabalho do menor não pode ser superior a oito horas em cada dia e a quarenta horas em cada semana.

Artigo 75º: 1 – O trabalhador menor não pode prestar trabalho suplementar.

Artigo 76º: 1 – É proibido o trabalho do menor com idade inferior a 16 anos entre as 20 horas de um dia e as 7 horas do dia seguinte.

Artigo 79º: 1 – O descanso semanal do menor tem a duração de dois dias, se possível, consecutivos, em cada período de sete dias (…).

Dá que pensar não dá? Mantenho a opinião que no 1º ciclo abusa-se nos TPC, que não se justificam tendo em conta as horas que as crianças passam na escola, como não se justifica a quantidade e complexidade das metas do 1º ciclo que obrigam professores a “roubarem” tempo precioso de descanso e da família dos seus alunos.

O Pediatra Hugo Rodrigues, neste brilhante artigo ao Observador, mostra os defeitos e supostas virtudes dos TPC, colocando questões muito pertinentes sobre esta matéria.

Há ainda algumas questões controversas relacionadas com os TPC que, apesar de não terem uma resposta objectiva, devem servir como ponto de partida para uma reflexão séria e sensata. Sei que são discutíveis e que podem levar a discussões bem acesas, mas vale a pena pensar nelas. Alguns exemplos são os seguintes:

1. Pode a escola estender-se para além da sala de aula? Faz sentido que os professores interfiram de forma deliberada na vida pessoal e familiar das crianças?

2. Será a actividade intelectual mais valiosa do que a não intelectual, particularmente nesta fase da vida? (Durante o meu curso de Medicina, todos os dias lia à entrada da minha Faculdade uma frase que dizia “Um médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe” e não podia concordar mais…)

3. Se os TPC ajudam a criança a tornar-se responsável, a decisão de não os fazer é sinónimo de irresponsabilidade ou, pelo contrário, pode ser encarada como uma opção consciente e responsável? Há responsabilização dos alunos nas salas de aula, nomeadamente o envolvimento nas escolhas que são feitas diariamente?

4. Serão os TPC sinónimo de currículo escolar rigoroso ou será apenas um rigor “aparente” para compensar o trabalho realizado na escola?

5. Serão os TPC uma forma de colocar todos os alunos em pé de igualdade ou aumentam ainda mais as desigualdades? É completamente diferente fazer os trabalhos num ambiente calmo e com todas as condições físicas e de envolvência necessárias ou fazê-los num ambiente de gritos e confusão, com os cadernos em cima dos joelhos…

Muito haveria ainda por dizer, mas parece-me que obrigar as crianças a fazer TPC só porque sim é assumir que elas são claramente preguiçosas e irresponsáveis e que não se pode confiar nelas (motivo pelo qual têm que ser forçadas a aprender) e isso não podia ser mais errado! Lamento desapontar algumas pessoas, mas eu não acredito no lema “sofrer é uma virtude” e, mesmo que acreditasse, não será seguramente aos 6-7 anos que isso se aprende.

E para um Pediatra, tiro-lhe o chapéu pelo conhecimento que tem da escola e dos pais atuais…

Sei que hoje em dia as turmas têm demasiados alunos e os programas são extensos, mas não é massacrando as crianças que se vai conseguir corrigir isso. É preciso ter coragem de assumir que alguma coisa está mal e não é à custa de trabalhos forçados que se vai conseguir alterar seja o que for. O problema é que com tantas burocracias e avaliações, os professores muitas vezes ficam presos num sistema que não permite tomar outro tipo de decisões. Mas tem que permitir, porque as crianças têm muitos anos para ser adultos, mas muito pouco tempo para ser crianças! É um crime não as deixar aproveitar esses anos!

Por fim, uma palavra para os super-pais, que são cada vez mais frequentes. Hoje em dia temos muitos pais que quase querem ser “profissionais” nesse papel e que se preocupam mais com o futuro dos filhos do que com o seu presente. É urgente perceber que o caminho se faz mesmo andando e não tudo à pressa, como se fosse “para ontem” e que as crianças não têm que ser óptimas em tudo. Se se encaixa neste perfil, deixo-lhe o último conselho deste texto: MUDE IMEDIATAMENTE! O seu filho não merece ter um pai/mãe assim, mas precisa seguramente do seu Amor, tempo e disponibilidade para ser Feliz…

Fonte: Observador

Há muito que defendo uma mudança radical no 1º ciclo: acabar com os TPC, reduzir conteúdos e alterar o horário dos alunos e professores.

(podem ver a proposta que fiz no artigo em baixo)

1º ciclo | Proposta de horário para alunos e professores.

6 COMMENTS

  1. Eu sou a favor dos TPC. Não sou a favor de uma sobrecarga de TPC. O artigo do Dr. Hugo Rodrigues é moralista, acusatório, e imiscui-se no trabalho da escola e dos professores. De igual modo gostaria de conjecturar se um professor começasse a fazer considerações sobre atos médicos …
    Pegar no Código do Trabalho para falar de TPC é simplesmente ridículo, e demonstra ou sofisma ou ignorância…
    O meu filho frequenta o 1º Ciclo e agradeço, muito, à sua excelente professora que lhe marca TPC, que ele faz sem grandes dramas, e, já agora, sem ”traumazinhos”…
    Infelizmente, o que vejo, inclusive em filhos de amigos que muito considero, é que não há tempo para TPC, mas há várias horas, diárias, de Facebook e Internet vária, futebol, musica, artes marciais, piscina, meditação, pintura, andebol, iniciação ao chinquilho, ballet, etc, etc, etc, etc… Mas não há vinte minutinhos para estar com os filhos a fazer dois algoritmos!
    Também já me chateia a mania com que se malha , continuamente, no 1º Ciclo…
    Você devia, Alexandre Henriques, se quiser, que eu não gosto de imposições nem em questões de TPC, é questionar o tão modernaço Ministério da Educação porque não tem a coragem, , parra mexer nos currículos do ”malévolo” Crato; de acabar com as turmas de vários anos de escolaridade; de reduzir o número de alunos em turmas, com manifestas dificuldades de aprendizagem! Sem fazerem isto tudo o resto é fumaça; demagogia e atirar para os professores , e para as escolas, o que não têm coragem política para fazer!
    Por último, não aceito ditaduras do políticamente correto: não queiram obrigar, usando recursos e argumentos no mínimo questionáveis, que todos pensem como acham que deve ser o mundo! Não querem que os vossos filhos façam trabalhos de casa? Por mim encantado, não façam! Agora não tentem um caminho incriminatório de quem pensa o contrário ! O meu filho, e muitas outras crianças por esse país fora, continuarão a fazer TPC, sem traumas e com serenidade! Não faltava mais nada era o Estado legislar sobre um assunto em que deve ficar manifestamente de fora!

  2. já agora… A FENPROF, organização sindical formada por professores, e para professores, não tem nada que se meter em questões pedagógicas, da Flexibilização Curricular, mas o Dr. Hugo Rodrigues, que é medico, que fala a título particular, já pode opinar sobre todos os assuntos da escola e até dizer aos professores, e aos pais, o que eles devem ou não fazer…

  3. Pois…. é isso mesmo! Todo o mundo opina sobre aquilo de que não tem conhecimento real. Opinam, opinam… cada um diz de sua justiça, baseado nas suas próprias”dores”. A educação não existe para satisfazer necessidades ou gostos individuais. A Educação é um problema da sociedade. Como tal deve ser uma prioridade para governos,políticos, etc. Mas não como arma de arremesso para conseguir mais ou menos votos… mais ou menos simpatias.
    Andamos há anos demais a mudar politicas educativas sempre que o governo muda. Nada resulta por isso mesmo e porque não existe consistência nem coerência. Só se conseguem cumprir objetivos e resolver problemas, quando as estratégias são sólidas e realistas. Passa-se o tempo a remendar, quando a educação exige reformas profundas de raiz.
    Os TPC agora são uma questão em moda… legislar sobre os TPC? Não há mais nada a fazer? É isto que vai melhorar a educação?
    TPC para alunos que permanecem na escola quase nove horas diárias, não são desejáveis, como não é desejável que crianças tão pequenas permaneçam na escola, tantas horas a fio, sem terem oportunidade de brincar livremente, de estar com os seus familiares. Este é um problema social que tem de ser resolvido, mas não é a escola que tem de assumir a solução.
    Muito para além dos TPC, temos de nos questionar sobre os currículos extensos e não adequados à faixa etária daqueles a quem se destinam.Temos de pensar como resolver várias questões, como o elevado número de crianças por turma, as turmas mistas(com vários anos de escolaridade); a distribuição de alunos do 1º ciclo por outras turmas em caso de falta do professor, facto que torna o trabalho impossível de realizar, o uso de manuais como único “instrumento pedagógico”.
    Urge uma reforma profunda e estrutural, sem velhos do Restelo a criticar, sem usar assuntos que são de mínima importância para mascarar outros.

  4. As escolas vão-se transformando em depósitos de crianças. A família é inconveniente para o sistema.
    Os pais desistiram de lutar por horários de trabalho menores e condições mais dignas, pois são mantidos “na linha” com um exército permanente de desempregados, e assim vão ficando caladinhos, a tudo se sujeitando, sem sequer se importarem com a total irracionalidade de entregar as suas crianças a um sistema onde passam nove horas por dia (quando não mais…) num estabelecimento que se vai aproximando funcionalmente daquilo que é, na prática, um orfanato.
    As crianças tornam-se “problemáticas”, “hiperactivas” e tudo o mais, mas ainda assim, não é o suficiente para merecerem a atenção e respeito que lhes são devidos, inseridas num sistema que deixa qualquer criatura sã à beira da loucura.
    Os TPC’s são mais um dos problemas menores, face à generalização da “inconveniência infantil”, que, do ponto de vista do funcionamento da sociedade, só serve para os pais perderem tempo em que não estão a trabalhar, nem ao serviço, ao dispor de quem neles manda.

  5. Sinceramente os TPC são antipedagógicos, porque uma criança assoberbada, cansada e desmotivada não vai aprender à força de TPC. Tem que haver outra maneira de captar a atenção das crianças para transmitir o saber.
    A criança tem que aprender, e há muitas formas de o fazer. Estar o dia todo na escola já é um aprendizado. Através de jogos, brincadeiras é uma maneira de aprenderem.
    É verdade que os currículos são extensos. Porque são extensos não há maneira de torná-los mais pequenos? Isso não é desculpa para sobrecarregar as crianças e os pais.
    Temos que seguir exemplos dos países como Finlândia onde as crianças não levam trabalho para casa. E passam muito mais tempo a brincar, jogos lúdicos.
    Os pais têm que passar mais tempo com os filhos, a fazerem jogos, brincadeiras e não a ajudar os filhos com TPC, quando não são eles a fazê-los. Já ouvi de casos.
    Este método de avaliar os alunos, é da época da pedra lascada, é arcaico. Com dois testes por período nas disciplinas básicas, é um atentado. As crianças acabam de fazer uns testes, os pais já têm que pensar como prepará-los para os próximos, é verdade que no período mais curto há só um teste, também pudera!
    Estamos a pensar em pais presentes, por que há aqueles pais alienados que só se dão conta que os filhos não fizeram o trabalho de casa ou perderam naquela matéria, quando levam recados dos professores para casa. E estas crianças à partida estão em desvantagem por não terem pais que os interroga sobre os trabalhos que levam para casa, sobre o dia dos testes, etc.
    Há crianças que são maduras o suficiente para estudarem por sua conta, sem ninguém lhes mandar, mas estas são a exceção. São os sucessos de um ensino destes.
    Estamos numa selva, onde não há tempo para descansar, pois quem para perde o autocarro e fica para trás.
    É inadmissível uma criança perder de ano, a vida de uma criança é supostamente atrasada por que não passou a matemática, português ou outra qualquer. Passamos do permitir tudo a não deixar escapar uma mosca. Nem 8 nem 80.
    Um teste por período era o quanto basta, e não seria o principal método de avaliar, teria que somar a muitas outras coisas, que muitas vezes os professores fazem de conta que usam, convenientemente, para baixar a nota de um aluno que não simpatizam ou aumentar a nota de um a aluno que simpatizam. Esse tipo de avaliação é usado conforme a vontade do professor sem sérios critérios.
    Esta maneira de lecionarem está a levar as crianças a odiarem estudar e ao insucesso escolar. Eu se fosse criança ia odiar.
    Tem que haver empenho nos professores em darem atenção às crianças e não simplesmente estarem interessados em despejar matéria.
    Os professores deviam optar por métodos menos tradicionais e usarem as novas tecnologias que temos para chegar aos alunos. Vivemos num período que temos ferramentas informáticas disponíveis e outras que podemos empregar no ensino.
    Há solução para o ensino, mas os pais, professores e todos envolvidos têm que pensar numa maneira mais dinâmica e menos penalizadora de ensinar. Ninguém devia perder de ano ou mesmo perder numa matéria, havia que procurar uma alternativa para os alunos que não gostassem de certos métodos ou mesmo matérias, até mesmo usar este sistema de decoração para aqueles que gostam.
    Este sistema de ensino está desatualizado, regredir na maneira de ensinar não é solução para um país moderno. Não estamos em tempo de ditadura, todos somos diferentes por isso os currículos têm que ser pensados para todos e não só para aqueles que os pais, presentes, têm que obrigar os filhos a estudar.
    Todos fomos crianças sabemos que há métodos de estudar e aprender que não são apelativos e o resultado deste sistema é obrigar as crianças a decorar e fazer 50 mil vezes um exercício para sabê-lo. Enfim voltamos só para base da decoração, pelo que se a criança quiser ter 100 a tudo, deve decorar, pois não há tempo para compreender e entender o que estuda, o tempo corre e acaba-se esta matéria e começa-se outra. Mas não podes esquecer da matéria dada para pois ela vai sempre aparecer e se não compreendeste azar o teu.
    Passamos da negligência para a exigência cega e é errado. Aprender é para toda vida e sem sermos forçamos aprendemos melhor.
    Não devia haver TPC, o tempo na escola devia ser mais que suficiente para ensinar.

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