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Os Ricos Ficam Com As Vagas Dos “Melhores” Cursos

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Apliquei o termo “melhores” pois é assim que são vistos pela sociedade, as medicinas e as engenharias, têm um estatuto que por exemplo os cursos de educação não têm. Não é por isso de estranhar que se diga que os professores são profissionais medianos, pois quem julga, baseia-se muitas vezes apenas nas médias de entrada para o Ensino Superior. Só que como todos sabemos, ou deveríamos saber, as médias não significam um bom desempenho profissional, veja-se as notícias de negligência médica que pululam por aí…

Os resultados do estudo Edulog não são surpresa para ninguém, diria mesmo que é há muito um dado adquirido. A escola, principalmente a pública, apesar de todos os esforços, não é capaz de mudar os tecidos sociais, pois enquanto o aluno rico vai para casa, para um ambiente onde não falta comida na mesa, onde existe uma empregada para limpar, onde as tecnologias e os explicadores estão sempre disponíveis e onde os pais são normalmente pessoas instruídas. O aluno pobre, ao chegar a casa, depara-se muitas vezes com uma série de tarefas para cumprir, substituindo muitas vezes os encarregados de educação, não tendo ao seu dispor um apoio, uma explicação, ou condições físicas para se dedicar ao estudo com o recato e qualidade necessárias.

É um problema estrutural, a escola não termina na escola e enquanto assim for, as diferenças sociais vão sempre fazer a diferença no sucesso dos alunos.

Alexandre Henriques


A escola face aos desafios da desigualdade

Acreditar que o sistema público de ensino seja capaz por si só de resolver o problema da igualdade de oportunidades é uma utopia que o tempo e a realidade se encarregaram de provar. Mas se a escola, principalmente nos primeiros anos da educação das crianças e jovens, não consegue eliminar as desigualdades que nascem da diferença dos rendimentos ou dos níveis educativos das famílias, é exigível que, ao menos, as mitiguem. O estudo do Edulog que o PÚBLICO revela esta quarta-feira dá que pensar precisamente por nos mostrar que esse papel de nivelador social do sistema educativo está longe de alcançar os resultados devidos. Os filhos dos pais com mais formação são os que acedem em maior quantidade aos cursos universitários que supostamente garantem os melhores empregos. Mesmo que na tendência geral haja felizmente excepções (15% dos estudantes de medicina vêm de agregados familiares mais pobres), a regra geral prova que o sistema reproduz a ordem socioeconómica prevalecente e não promove a mobilidade.

Haverá seguramente muitas formas de questionar o modelo que sustenta esta realidade, desde a selectividade no acesso ao ensino superior até aos instrumentos que o ensino básico e secundário tem para garantir que todos os alunos, de famílias pobres ou ricas, possam dispor de condições próximas para obter notas altas. E mesmo que seja injusto e inviável pedir aos professores e às escolas que corrijam nas salas de aula as condições de desigualdade presentes no todo social, é importante que este problema disponha de mais tempo no debate do sistema educativo. Se a escola pública é um bem imprescindível para uma sociedade que se pretende mais justa, é crucial dar-lhe meios para que corrija o mais possível a desigualdade de oportunidades entre os seus alunos.

É por isso que custa a perceber que não haja alternativas na escola às explicações que só as famílias com mais posses conseguem pagar. E custa ainda mais entender como é que, passados tantos anos de estudos a provar o fenómeno da inflação das notas que se repete em algumas escolas privadas, não haja ainda uma resposta para o debelar. São, claramente, pequenos detalhes num imenso problema. Mas se é impossível apagar os efeitos que a pobreza, a desestruturação das famílias ou a iliteracia deixam nos alunos com menores índices de aproveitamento escolar, estes são dois temas que a escola pública e o Estado tinham o dever de debelar. Não resolveria o problema por inteiro, mas, ao menos, deixaria a sensação de que o país está a fazer muito mais para que os filhos dos pobres tenham as mesmas condições de acesso aos cursos que estão na prática reservados aos filhos dos mais afluentes.

Manuel Carvalho, editor do jornal Público, 26-06-2019


Filhos de pais com mais estudos ocupam maioria dos cursos com médias mais altas

O sistema de Ensino Superior em Portugal continua a ser influenciado pelas desigualdades sociais, com alunos de famílias mais favorecidas a entrarem nos cursos de maior prestígio e os alunos mais pobres a entrarem sobretudo em institutos politécnicos.

De acordo com o estudo da Fundação Belmiro de Azevedo da Edulog, consultado pelo Público, existe uma seletividade socioeconómica no acesso às universidades e a estatística que melhor espelha esta realidade é a área da Saúde, onde 73,2% dos estudantes de Medicina são filhos de pais e mães que têm o ensino superior como habilitação literária, enquanto 73% dos alunos de Enfermagem são filhos de pais com qualificações inferiores – ensino secundário ou inferior.

Para o coordenador do conselho científico do Edulog, Alberto Amaral, existe uma “barreira de acesso” criada pela capacidade financeira da família. “Quem não tem possibilidade de ir para um colégio privado ou ter explicações, não consegue bater essa dificuldade [e atingir médias para cursos com médias superiores]”, afirma ao jornal o também presidente da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES).

Ao mesmo tempo, Medicina é também o curso que acolhe menos bolseiros, em especial em Lisboa – na Universidade de Lisboa a percentagem de alunos não chega aos 8% – e no Porto – onde o ICBAS tem apenas 11% de alunos bolseiros no curso. Ao todo, apenas 15% dos estudantes inscritos em Medicina vêm de agregados familiares mais pobres.

Fonte: Revista Sábado.

1 COMMENT

  1. Eu acho que a questão é exatamente aquela que refere no primeiro texto: em casa, famílias pobres têm menos apoios disponíveis para a educação dos filhos. Contudo, um caveat: eu fui aluno bolseiro, não porque os meus pais fossem paupérrimos, mas porque tinham quatro filhos, a dada altura todos a estudar (preparatório, secundário e superior). Nunca nos faltou coisa alguma, mas o dinheiro não jorrava. Eu e as minhas irmãs agarrámos nas oportunidades que nos foram dadas, lutámos com sangue, suor e lágrimas e conseguimos chegar longe. Eu tinha colegas claramente “ricos” ou pelo menos “mais ricos” que podiam ter mais dinheiro, mas não tinham a vida mais fácil: todos chegaram longe, mas tiveram de lutar tanto quanto eu. Isto para dizer: 15% de alunos com bolsa em medicina quer dizer que 15% são pessoas que precisam MESMO, não quer dizer que os outros 85% sejam “ricos”. E não podemos estabelecer uma relação causa-efeito entre estatuto social e acesso à universidade, porque nem sempre uma coisa implica a outra. Às vezes pais pobres têm muito melhor cabeça e capacidade educativa que pais ricos.

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