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Os Rankings Do Nosso Descontentamento – João Costa

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Os últimos meses, em que o vocabulário da educação se alterou, passando a incluir palavras como distanciamento, síncrono, Zoom ou a fazer renascer outras como telescola, foram pontuados — e ainda bem — por preocupações em notícia ou comentário com aquele que é o principal papel da escola: promover a mobilidade social através do conhecimento e da cultura. Esta terrível crise acelerou desigualdades, apesar do esforço de todos. Os vulneráveis ficaram ainda mais vulneráveis.

Foram meses de trabalho intenso. Os professores reinventaram-se para tentar não perder os alunos. As escolas reconfiguraram-se para garantir refeições, terapias, acolhimento aos mais desprotegidos. Os municípios foram parceiros da inclusão. O Ministério da Educação trabalhou em conjunto com as escolas, disponibilizando orientações, recursos, estabelecendo parcerias nesta corrida injusta em que a aprendizagem se viu mais comprometida.

Todos comentámos as principais dificuldades e conquistas e abrimos os olhos para aspetos fundamentais do sistema educativo: a proximidade, a proteção, o apoio, a relação estabelecida.

Todos desafiados: decisores, professores, técnicos, famílias e alunos. Como escreveu aqui no PÚBLICO Rui Pena Pires, o confinamento criou desigualdades cumulativas que nem passam pela cabeça de muitos. Foi um esforço enorme numa resposta de emergência, de esforços convergentes.

O ano letivo chegou ao fim, com a consciência do que ficou para trás, o que se constitui guião orientador para as decisões para o próximo ano.

Muitos falaram da mudança irreversível na escola. E qual podia ser a pior forma de terminar este ano, travando mudança e descentrando do que interessa? Com os rankings.

Tal como no Ethan de Steinbeck, invertem-se prioridades.

Já não vale muito a pena repisar a sua inutilidade. Não mostram a qualidade das ofertas educativas, refletindo mais o contexto do que o mérito. Não mostram o trabalho efetivo das escolas em que lutar contra o abandono e a exclusão é um trabalho muito mais árduo e frutífero do que a conquista da centésima no exame, resumida à verificação de que a explicação extraescolar funcionou. Não revelam que os alunos migrantes aprenderam o alfabeto romano e hoje falam português e chegam longe numa corrida desigual. Uma lista seriada em que se fazem reportagens com o top 20 sem se comentar a variabilidade aleatória do meio da tabela.

Mas vale a pena, em plena pandemia, dizer que estas listas não honram o trabalho feito nas escolas. As melhores escolas do país — não hesito em afirmá-lo — foram aquelas que, em bairros problemáticos, mantiveram todos os alunos ligados, foram aquelas em que a proteção contra a violência e negligência nunca falhou, foram aquelas em que a proximidade potenciou aprendizagem, foram aquelas em a comunidade no seu todo colaborou para o sucesso. E são-no todos os anos.

Nas últimas semanas, valorizou-se a importância da relação, mostrou-se que a dependência face aos encarregados de educação é penalizadora, deram-se os exemplos de boa cooperação entre famílias e professores como chave para o sucesso, mostrou-se a urgência das competências digitais, a necessidade de recuperar e apoiar. O debate público fê-lo e estimula-nos enquanto decisores a fazer mais.

Sejamos objetivos: estes rankings, sacralizados pelos que entendem que os resultados escolares servem para alimentar estudos, nada dizem sobre o que foi considerado essencial nestes meses. Não aferem competências digitais, não revelam a promoção da autonomia no estudo, penalizam o trabalho diferenciado e inclusivo, anulam o trabalho das comunidades mais vulneráveis. Pelo contrário, favorecem a lógica individualista e competitiva, inimiga da solidariedade que estes tempos requerem.

Temos sido muitos os que louvamos os professores pela sua capacidade de adaptação e resiliência. Mereciam um final do ano letivo com o aplauso que lhes damos, não com os rankings que empurram a escola para ser sobre taxas, desumanizando-se e penalizando os que a humanizam, e não sobre cultura e desenvolvimento.

Secretário de Estado João Costa, in Público, 27-6-2020


Quer saber o que faz uma escola? Não vá pelos rankings

“Ele anda numa boa escola”. Qual o significado desta frase? Não tenho a menor hesitação em responder. A escola boa é a que tem poder transformador, por receber todos e levar todos por um caminho de desenvolvimento pessoal e humano, em que o conhecimento, a arte, a cultura, a cidadania e o bem-estar são o instrumento para um sucesso pleno.

A escola boa não seleciona alunos à entrada. Acolhe todos e gosta de todos. A escola boa é um lugar vivo, em que as paredes com as produções dos alunos refletem o envolvimento de todos. A escola boa é a que estimula pensamento e curiosidade, a que ajuda a saber fazer perguntas antes de procurar se as respostas estão certas. É a que estabelece relações positivas com os que chegam sem acreditar em si próprios, vestindo demasiado cedo a camisola da incapacidade. É também uma escola em que há entreajuda à frente da competição desmesurada. Em que a presença do aluno com dificuldades ou problemas sociais é vista como uma responsabilidade de todos os alunos e de todas as famílias e não como uma questão só dele.

E eis que, no ano em que se tornam mais absurdos, nos aparecem os rankings. Se acha que refletem uma avaliação clara da qualidade da escola, desengane-se.

Os rankings são o resultado de uma lista ordenada a partir dos resultados dos exames nacionais. Ponto. É mesmo só isto.

Se procura qual a escola que mais consegue prevenir o abandono de crianças ciganas, não a vai encontrar no topo da lista. É, contudo, geralmente das que mais trabalha.

Se procura qual a escola que investe na saúde mental e harmonia como instrumento para a aprendizagem, não sabemos onde está na lista.

Se procura qual a escola em que se consegue cativar pais para a valorização do saber, inclusive trazendo-os para a formação nos Centro Qualifica, também não sabemos onde está.

Se procura a escola em que os alunos mais se desenvolvem na criatividade, pela arte, pelo desenvolvimento da sensibilidade estética, continuamos sem saber onde está.

Se procura a escola que desenvolve projetos de intervenção comunitária, formando verdadeiros cidadãos participativos e esclarecidos, aquele número que aparece em frente ao nome da escola não está a dizer nada sobre isso.

Se procura uma lista que não espelhe assimetrias territoriais e socioeconómicas, também não é esta a lista certa.

Se procura saber a qualidade do trabalho desenvolvido nos Cursos Profissionais, estas listas tendem a ser omissas.

Avaliar uma escola e o seu desempenho é muito mais do que ordenar um ficheiro Excel por ordem descendente de resultados.

O Ministério da Educação tem vindo a disponibilizar um manancial de informação, presente no Infoescolas, que permite olhares muito mais abrangentes e esclarecidos. Refiro o indicador Percursos Diretos de Sucesso, que compara realidades comparáveis e mede o progresso efetivo dos alunos, não construindo avaliações que anulam o ponto de partida. Os vários estudos produzidos pela Direção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência, muitos deles sob a responsabilidade do Doutor João Baptista, permitem estabelecer correlações entre sucesso e qualificações, mostrar que a pobreza não é uma fatalidade, detetar assimetrias regionais, medir o desempenho dos cursos profissionais, perceber assimetrias entre escolas dentro do mesmo agrupamento, conhecer o perfil de resultados de todas as disciplinas.

Os relatórios individuais e de escola das provas de aferição dão informação detalhada, descritiva e qualitativa, sobre desempenhos e têm servido de base ao desenho de respostas em função das dificuldades específicas.

O Programa Nacional para a Promoção do Sucesso Escolar tem divulgado estudos de eficácia de estratégias pedagógicas que permitem a melhoria sustentada de resultados.

A Rede de Bibliotecas Escolares avalia e disponibiliza os dados das suas intervenções, centrando-se no impacto dos seus programas.

Todos estes instrumentos permitiram construir, ao longo dos dois últimos anos, um novo referencial para a Avaliação Externa das Escolas, que tem sido reconhecida nacional e internacionalmente como um dos fatores que tem possibilitado a melhoria do nosso sistema educativo.

O novo referencial não descarta resultados, mas inclui vários outros domínios que se traduzem em respostas a perguntas como: Quão inclusiva é a escola? Que resultados consegue a escola na mobilidade social dos alunos? Como se estabelece a relação construtiva com as famílias? Que projetos e instrumentos se promovem para que as aprendizagens sejam perenes?

Estas são as perguntas que ajudam o sistema educativo a crescer. Muito mais do que a glória fútil de ser a número um da lista ou o olhar paternalista e desmobilizador sobre a escola do fundo da lista.

Quer saber o faz uma boa escola? Visite-a. Fale com os alunos, veja-a como um todo. Se não quer que o seu filho se transforme numa média, aposte numa educação centrada no humanismo e na valorização de todos. Porque é isso e não uma centésima o que lhe dará asas para chegar mais longe.

*Opinião de João Costa, secretário de Estado Adjunto e da Educação

1 COMMENT

  1. E eu de acordo com o secretário adjunto da educação, João Costa, quem diria…trabalho incontornável que fazem as escolas públicas.
    De qualquer forma, não podemos esquecer que quando estamos a atravessar uma ponte ou numa mesa de cirurgia, ansiamos ficar nas mãos de alguém que tenha passado as provas com distinção.
    É bom, por isso, que cultivemos a mente aberta, estamos a meter na mesma lista coisas diferentes, estamos a comparar alhos e bugalhos, como diz, Mário Nogueira. Ambas ofertas educativas são fundamentais, cada qual, cumpre a sua função, a escola pública deve cumprir as duas, a da excelência e a da integração, sem perder de vista o horizonte e misturar tudo. O que, por vezes, acontece.

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