Home Escola “Os professores não estão só com medo do vírus, estão com medo...

“Os professores não estão só com medo do vírus, estão com medo da escola” – Raquel Varela

4827
3

Regresso à Escola, qual?

Não tenho simpatia por discursos anti-sindicais contra professores, ou contra seja quem for, soa-me sempre a um certo perfume de elitismo e ditadura. A resistência, cheia de acertos e muitos erros, é sempre pouco apreciada pelo poder em geral. E tenho muito respeito pelos docentes, que trabalham em péssimas condições. O que (ainda) existe de bom nas escolas deve-se sobretudo a eles. Mas a sinceridade exige a crítica, construtiva porque a escola e os docentes são centrais à sociedade.

Vejo agora uma determinação dos sindicatos com greves e protestos a regressar às escolas que nunca vi contra o ensino online que colocou em causa a saúde mental (e física) de centenas de milhares de crianças e jovens. Foi uma fraude, que levou ao sofrimento ético (sensação de fazer parte de uma mentira), hoje reconhecida até pelas mais liberais instituições, como a OCDE. Falhou em toda a linha. Estou em crer que a razão dos docentes é sobretudo uma – há milhares de professores em burnout que se sentiram menos mal em casa, com o ensino online, do que nas escolas, onde estavam sujeitos a condições adversas de trabalho, que os levam ao burnout. O risco do vírus- muito baixo, mas existente -, é na verdade usado para ocultar outro risco, alto e existente em todas as escolas – o mal estar laboral. O medo do vírus é muito mais longínquo do que o medo da burocracia, relatórios esquizofrénicos, avaliação e assédio, aulas inúteis, programas desinteressantes, indisciplina, directores.

Os professores não estão, na minha opinião, só nem sobretudo com medo do vírus. Estão com medo da escola. E isso não é novo – já tinham, na sua maioria, quase 80% declarava estar em exaustão emocional no trabalho quando conduzimos o estudo do brunout. E a verdade é que os sindicatos em geral lutaram muito mais contra o ensino presencial do que, de facto e com sucesso, contra as condições reais e diárias das escolas, que estavam muito mal, e adoeciam os professores, muito antes da pandemia.
Ora, só por pensamento mágico podem pensar que a recusa em voltar às escolas os retira do burnout. Na verdade todas as formas de teletrabalho não transformam o nosso trabalho na nossa casa confortável. É precisamente o contrário – a curto prazo a casa confortável será transformada no inferno do trabalho. Não é a casa que vai ao trabalho, é o trabalho que vai para casa.
Pensar que o retorno à esfera privada (casa) resolve os problemas da esfera pública (trabalho e sociedade em geral) é um crença, que durará – não creio – mais do que poucos meses a ruir. Como tantas outras.

Raquel Varela

3 COMMENTS

  1. Tal como o professor Santana Castilho, a professora Raquel Varela mostra-se sempre profundamente conhecedora da realidade escolar, sempre a acertar. A autonomia das escolas fez emergir o casamento entre a mediocridade e o oportunismo que rapidamente trepou por todos os interstícios da escola e marcou presença em todos os cargos da escola. Mérito para tal: capacidade de insinuação e talento para segregar burocracia inútil que absorve dois terços do tempo e da energia dos professores, vassalagem em relação ao poder e autoritarismo dos capatazes. A somar a isto a total arbitrariedade das decisões e o professor encurralado sem saber com que linhas se cose a sua profissão. Nunca se sabe o que aguarda o professor na escola no dia seguinte. Há quem diga que este desgaste é típico de profissões que lidam com pessoas mas a profissão de professor é mais desgastante ainda porque lida com a moldagem do caráter das pessoas e da sociedade. Tal como é habitual ninguém ouve os professores, parece ser que também não ouvem quem se dedica a estudar os problemas desta profissão. A sociedade ocidental pagará muito caro esse desdém, o preço será a democracia. Trump e Bolsonaro foram eleitos democraticamente.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here