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Os professores e os seus rastilhos…

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Após ler centenas de participações disciplinares, já conheço os “botões”, que ao serem carregados por este ou aquele aluno, acionam um movimento de abdução do braço do professor, apontando com o dedo indicador para a porta da rua, associando este gesto com um audível “põe-te na rua imediatamente!”.

rastilhoTodos somos diferentes e construímos os nossos níveis de tolerância assentes num conjunto de variáveis que vão desde a educação que nos foi dada, à turma que temos pela frente, e aos níveis de fadiga e motivação que apresentamos. Isso leva a que cada professor tenha um rastilho próprio, que vai queimando a uma velocidade variável consoante a sua personalidade e estratégias que implementa.

“Todos diferentes, todos iguais” é uma frase cliché, mas que na disciplina assenta que nem uma luva, pois apesar dos mesmos deveres e direitos, por vezes as situações não tratadas da mesma/melhor forma. O facto de existir uma equipa que trata dos assuntos disciplinares, permite estabelecer um critério transversal a todos os professores, assistentes operacionais e alunos. Um centro de análise que é capaz de ver o quadro todo e que está imune aos “humores” de acusado e acusador.

As participações disciplinares são um recurso que está à disposição dos professores, bem como a repreensão registada, e esta deve ser entendida como tal, mas tendo a noção que existem outras que o professor pode e deve utilizar.

Porém, continuam a existir professores que optam sempre pela solução mais rápida que é colocar o aluno fora da sala de aula, passando por cima das medidas intermédias. Não é por colocar sistematicamente um aluno na rua que se conquista a autoridade, estamos apenas a exercê-la e exercê-la não é conquistá-la… Ganhar o respeito do aluno dá trabalho e implica tempo, e não é o livro de ponto que nos protege das “diabrices” dos pequenos, isso faz parte do passado.

Aliás, esta é uma questão central, não é novidade para ninguém que um professor ao apresentar-se numa escola nova, sente o comité de boas vindas de alguns alunos mais “carinhosos” e “compreensivos” com a nossa chegada, num ato de “profundo amor” e “compreensão”. Atualmente, um professor só é professor depois de o provar que é, quer pelo seu conhecimento quer pela sua conduta, até lá não passa de um mero individuo que por acaso entra numa sala de aula.

Resolver as questões disciplinares dentro da sala de aula, provam ao aluno, mas também aos restantes, que o professor é capaz de lidar com situações adversas, sem utilizar o recurso mais simples. “Queimar” o recurso da saída da sala de aula antes do tempo, a longo prazo, faz perder o aluno, mas também o professor, pois o sucesso deste é o sucesso dos seus alunos.

A ordem de saída da sala de aula, tem várias vantagens e é utilizada frequentemente como tomada de posição em situações pontuais. É isto que felizmente a maioria dos professores faz e bem.

Do lado oposto, temos os professores que nunca utilizam a dita, e até se podia achar que têm menos problemas disciplinares, mas na prática constatamos que existe uma incapacidade em reconhecer a sua própria inaptidão em resolver a situação pelos meios citados. O passo seguinte seria a ordem de saída da sala de aula, mas a recusa em utilizar esta estratégia, diz ao aluno que nunca se dá o passo seguinte, mantendo-se no “Zé, está quieto”, “não fales com o Rui”, “senta-te”, “está calado”, “ninguém te perguntou nada”, “não te aviso outra vez”, “da próxima vez vais para rua” e nunca, nunca vai… Ao contrário do que o docente pensa, o aluno não encara estas constantes 2ª e 3ª chamadas de atenção como 2ª e 3ª oportunidades. Na sua cabeça e desculpem a frontalidade, o aluno pensa “este gajo é um totó e está no papo…”

Bom senso é a solução, e cada caso, cada realidade, são únicos. Por isso é raro dar conselhos a um colega sobre a utilização – devida ou indevida – da medida corretiva “ordem de saída da sala de aula”, pois além de não ser mais do que o colega, a gestão da sala de aula é da sua competência. O caminho faz-se percorrendo e também este tem de reconhecer que a sua estratégia não está a resultar. Só assim será possível aplicar as mudanças necessárias e que se imperam.

A entrada em campo pela equipa da disciplina em contexto lato ou individual, carecem normalmente da solicitação do professor ou diretor de turma. Há que respeitar quem está na linha da frente e frequentemente sobre fogo cruzado.

Este artigo vem abordar os excessos que se cometem por ausência de filtros, mas desta vez do lado do professor. Estes são adultos, licenciados, mas são humanos, e a nossa formação está a anos-luz no que concerne à gestão de conflitos. Eis alguns exemplos de situações que no meu entender, não justificam a ordem de saída da sala de aula, mas que são utilizados como tal:

  • Chegar atrasado (utilizar a falta de pontualidade).
  • Intervir na aula despropositadamente.
  • Conversar/brincar durante as aulas.
  • Levantar-se sem autorização.
  • Provocar os colegas.
  • Mastigar pastilha elástica.
  • Ter atitudes despropositadas dentro da sala de aula.
  • Usar bonés, gorros, capuzes dentro da sala de aula.
  • Sujar a sala de aula.
  • Entrar ou sair da sala de aula aos gritos e empurrões.
  • Não ter material (utilizar a falta de material).

O que referi acima baseia-se num ato isolado, naturalmente que a repetição sistemática das situações descritas, ainda para mais depois da advertência dada pelo professor, justificam a saída da sala de aula. Que não fiquem dúvidas que a repetição de um ato de indisciplina leve, com o passar do tempo torna-o grave ou mesmo muito grave.

Já diz o ditado “pedra mole em pedra dura, tanto bate até que fura”…

Sim, é verdade, antigamente tudo o que referi encaixava no cardápio das ocorrências graves. O facto é que a banalidade da indisciplina amoleceu as nossas reações e a nossa indignação, mas temos de perceber que o mundo mudou e não faz sentido curar uma constipação com um transplante de pulmão. Por isso caros colegas, este artigo tem como objetivo induzir em nós um momento de reflexão sobre as nossas estratégias perante a indisciplina. Se acionamos o botão vermelho frequentemente, porque não ponderarmos se podemos fazer as coisas de outra forma. E se o botão nunca é utilizado e continuamos a assistir a atos de indisciplina, se calhar está na altura de acioná-lo mais vezes, sem complexos e com assertividade.

Bom trabalho 😉

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