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Os Professores De Abril Estão A Dizer Adeus Às Escolas. Vão Fazer Falta!

Constato uma geração de professores em claro sofrimento, pelo confronto ideológico brutal, onde a sua ética profissional se sente atacada por alegados facilitismos que estão a ser implementados nas escolas. Aos seus olhos, direi mesmo e sem rodeios que estes professores sentem-se violados profissionalmente, quer pelas questões da carreira, quer pelas pedagogias implementadas, forçadas por diretores que não compreendem aquilo que se está a passar com os seus "generais".

Ontem o Expresso deu destaque à saída de professores e consequente falta destes no futuro próximo. O gráfico seguinte mostra a evolução acelerada de envelhecimento docente comparando com a restante população.

Muitos destes professores vão abandonar o ensino na presente década, chamo-lhes os “Professores de Abril“, colando-os um pouco à imagem dos “Capitães de Abril“. Gente que sentiu na pele a opressão, as dificuldades de um regime castrador, tendo vivenciado momentos históricos que dificilmente voltaremos a constatar.

O 25 de abril moldou o caráter de muitos destes professores e são estes os que agora mais sofrem com a indisciplina reinante, pois viveram numa escola para alguns, de rédea curta e chicote na mão. Se por algum milagre tecnológico fosse possível regressar a esses tempos, ficaríamos chocados com o que se passava nas escolas de então, quer pelas condições de trabalho, quer pelas estratégias utilizadas para ensinar/domar os alunos. Eu que nasci em Liberdade, cheguei a levar reguadas por cometer erros e acreditem que a palavra “sumário” nunca mais deixou de ter acento…

Mas se um certo exagerado é dispensável, a verdade é que estes professores têm algo que os atuais não têm (e contra mim falo que tenho 42 anos). Uma capacidade quase inata de combater e resistir às opressões vindas de cima, com uma coluna vertebral de titânio, teimosamente determinada a manter padrões de exigência que agora se perderam.

Existe uma clara dificuldade em aceitar certos procedimentos/estratégias atuais e não o digo como uma crítica, até porque ninguém pode garantir a 100% que o modelo atual é melhor que o anterior. A escola vive por isso momentos bastante difíceis a nível interno, pois a média de idade dos professores ultrapassa os 50 anos.

Constato uma geração de professores em claro sofrimento, pelo confronto ideológico brutal, onde a sua ética profissional se sente atacada por alegados facilitismos que estão a ser implementados nas escolas. Aos seus olhos, direi mesmo e sem rodeios que estes professores sentem-se violados profissionalmente, quer pelas questões da carreira, quer pelas pedagogias implementadas, forçadas por diretores que não compreendem aquilo que se está a passar com os seus “generais”.

Estes professores merecem todo o nosso respeito, não podemos esquecer que aqueles que agora dizem adeus, foram os professores de todos os professores. Mereciam mais, mereciam sair em paz, com o sentimento de dever cumprido e a paz de espírito de sair sabendo que a escola fica bem entregue. Infelizmente sinto que saem amargurados, tristes e desiludidos, alguns deles mesmo partidos emocionalmente. Sofro genuinamente por eles, pois deram tudo pela Escola e sentem-se agora traídos pela Escola. Aquilo que leio, aquilo que ouço, abana qualquer espírito e questiono-me muitas vezes para onde vamos e se estamos a seguir o rumo certo…

Daqui a uns anos olharemos para as salas de professores e não haverá recordações de Abril, mensagens de sabedoria que só a História nos ensina. A sala de professores perderá os seus avós e que tão importantes são na vida dos mais novos.

Haverá sempre professores, mesmo que no futuro próximo tenhamos “professores” com o 12º ano de escolaridade… E em tempos onde o coração pulsará mais forte que a racionalidade da experiência, preocupa-me que as nossas escolas percam os seus faróis morais e pedagógicos, mesmo que haja divergências entre nós.

É na diferença de opinião que surge a luz e a argumentação só surge com profundo conhecimento dos factos e do contexto. Que sala de professores teremos daqui a 10 anos? Que qualidade de professores teremos daqui a 10 anos? Que Escola teremos daqui a 10 anos? Com quem vou discutir daqui a 10 anos???

Professores de Abril, vão fazer falta…

P.S – os professores mais “novos” podem sentir-se também eles mal tratados e têm mais que motivos para o sentir, mas caros professores, colegas, ainda não é tempo de despedidas e de agradecimentos 😉

Alexandre Henriques

14 COMMENTS

  1. Obrigada, Alexandre Henriques, pelas suas palavras e sentimentos que tão verdadeiramente refletem o meu pesar…
    Todos estes 41 anos de docente vesti a camisola de Professora com a minha alma, coração e profissionalismo.
    Neste momento, que tenho 62 anos…. Não foi para mim a lei de 2019 …”podem aposentar se os professores que tenham exatamente 60 ano de idade e 40 de serviço…”, ok, fiz 40 anos de serviço 12 dias depois de completar 61 anos de idade. Assim cá ficarei ansiosamente à espera dos famigerados 66…67…O que for para me reformar sem penalizações. Acho que mereço.
    Dei a minha vida desde a juventude a todos os alunos crianças e jovens que partilharam comigo as suas vivências e aprendizagens…de coração aberto.
    Agora espero conseguir sair deste castigo com dignidade e a minha auto estima ainda inteira. Obrigada Alexandre.

      • Bonito texto após o que li ontem vindo de um colega E mesmo e preciso coragem para nós os velhos ( em que “colegas” acham que temos privilégios) levarem para frente esta missão com 40 e tal anos de serviço e muitos anos de idade.

  2. Espero que o Alexandre sinta mesmo o que escreve e não esteja a ser politicamente correcto.
    Sinto a falta de muitos desses colegas, “professores de Abril”. Eram óptimos profissionais, deixaram saudades também nos alunos, saiam do pensamento da “box”, eram lutadores, expunham-se….e eram cultos, imensamente cultos.

    • Eu só escrevo o que penso e o que sinto Ana. Há muito que digo que os professores mais experientes podem ajudar os professores mais novos. Não quero com isto dizer que todos são um exemplo, mas a experiência é claramente uma mais valia.

  3. Leio com agrado que há professores que reconhecem a experiência de uma certa geração que ainda viveu ” naquele tempo” e que por nada deste mundo gostaria que a escola voltasse a ser o que era. Porém, esta que temos também não serve, não é a Escola dos professores de abril. É sim, a escola dos ” vendilhões do templo” que trocaram as suas ténues referências, por confortáveis lugares na política.

  4. Muito obrigada! Uma bela descrição dos professores de abril.
    Sim, gostei muito, professores de abril! Sim, moldados pelas dificuldades e pelo sonho. Muitos ainda guardam essa enorme capacidade para dizer NÃO, apesar do peso dos anos.
    Bem haja pelas suas palavras num tempo de memória curta e de especialistas apressados, senhores de tantas verdades…

  5. Os que já eram professores “naquele” Abril, os tais “profesores de Abril”, há muito se aposentaram. Foram tipos com uma sorte infernal. Viram a carreira valorizada financeiramente a um nível que nunca sonharam, e chegaram ao topo sem qualquer obstáculo, tirando aquele contratempo do 8.º escalão da carreira de Roberto Carneiro, que Guterres rapidamente obliterou. Finalmente, alguns com escassos 52 anos, aposentaram-se sem qualquer corte. Muitos ficaram com uma pensão superior ao vencimento que tinham.
    Ao contrário do que diz o Alexandre, não foram moldados pelas dificuldades, mas antes pelas facilidades. Caiu-lhes tudo no colo!
    Já não há nem um nas escolas portuguesas!
    Eu comecei a trabalhar no ensino em 10/01/1975, tenho 65 anos e, se me aposentar agora, levo uma enorme ripada com o tal “fator de sustentabilidade”.
    Ainda está pior para aqueles que andam nos 50 anos, porque nem ao topo vão chegar.
    De qualquer forma, não tenho qualquer dúvida em assacar as culpas aos sindicatos esquerdistas, porque esticaram tanto a corda, até que… partiu !

    • Pensei que quem faz corte de salários são , em geral , os Governos, mas andei até agora enganado… Medito para mim, para comim, que os seus companheiros, ou ex-companheiros, como Oliveira e Costa , Dias Loureiro e etc e tal… Banqueiros amigos dos citados, como o inefável Salgado, tiverem uma pequenina parte do descababro financeiro a que isto chegou… mas para o Agnelo a descapitalização veio dos doidivanas dos sindicatos que faziam o que deviam, sem roubar, e tentavam conseguir as melhores condições possíveis para os trabalhadores que defendem… não, não, me esquecerei de Vara e camarada Sócrates…
      Aliás ainda vemos a procissão no adro com novas suspeitas com algumas figuras gradas do regime a ”apropriar-se indevidamente” à fartazana , mas os malvados são os sindicatos…
      Espero que os seus companheiros sejam eleitos, neste caso preferia o Montetenegro, que tem um plano para pulverizar o Estado Social e as ” enormes benesses”, dos FP, espero que um dia lhe calhe bastante…
      PS. Entretanto seguem os biliões, aqui não falta nada, para os bancos! Catita!

  6. Agnelo Figueiredo, se começou a lecionar em janeiro de 1975, tendo agora 65 anos de idade, não sofre qualquer corte com o fator de sustentabilidade. Mais, deve estar a atingir a sua aposentação. Faça a simulação no sítio da CGA.

  7. Obrigada, Alexandre!
    Sim, fomos formados na estrondosa agitação da revolução dos cravos. Nesse “ferver” de ideias e emoções aprendemos a interpretar um mundo que nunca tínhamos podido conhecer. E aprendemos quão dura e perigosa é a ignorância, essa semente de radicalismos e violências. E, por isso, nos dedicámos de alma e coração a combatê-la.
    Soubemos, ao longo de mais de 40 anos de trabalho, contornar normas administrativas em nome daquilo que consideravamos correto. E em nome de um sonho, do sonho de um mundo melhor.
    Contudo, não fomos capazes de fazer compreender às gerações mais novas que merecemos e exigimos ser respeitados.
    Nesta luta pelo respeito tivemos contra nós alguns políticos menos esclarecidos ou menos empenhados.
    Tivemos uma ministra da educação que disse ter perdido os professores mas ter ganho o país. Engano puro! Digo engano, porque não quero dizer falta de honestidade.
    Quando se perde os professores, perde-se o futuro. E sem futuro não há país.
    Recordando alguns títulos de Daniel Sampaio, apetece-me dizer: inventem-se novos políticos!!
    Senhores políticos, sonhem caraças! Agarrem uma utopia! Levantem voo! Surpreendam-nos! Façam-nos acreditar de novo!
    Teria que ser muito crente para acreditar que alguém vai mandar uma pedrada no charco.
    Por aqui chafurda-se. É o verbo chafurdar. É isso mesmo. Na escola chafurda-se.

  8. Enquanto um governo qualquer não valorizAr a Escola Pública e só se interessar em fazer cortes orçamentais e em estatísticas de sucesso para inglês ver estAremos muito mal com ou sem profs de Abril.

  9. têm a sua cota parte de responsabilidade no estado a que a Educação chegou em Portugal e na transformação do mundo em geral!

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