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Os Percursos Diretos: Uma Nova Forma De Pressão Sobre Os Professores.

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Percursos diretos realizam-se quando um aluno faz o número de anos de um ciclo sem repetir qualquer ano. Ainda recentemente numa inspeção tive conhecimento de que os inspetores se centraram muito mais neste indicador, do que nos resultados dos exames e nas diferenças entre notas dos exames e a classificação interna. Logo este indicador tende a tornar-se central para muitas direções.

Mas, este novo indicador é mais uma fonte de pressão sobre os professores e conselhos de turma, quer nos percursos de prosseguimento de estudos, quer nos percursos mais profissionalizantes.

Nos cursos de prosseguimentos de estudo evita-se reprovar alunos, deixando para os exames a resolução de algumas situações, optando-se por votar notas. Nos cursos profissionais tem-se vindo a ser menos exigente nas Provas de Aptidão Pedagógicas (PAP), que é um trabalho final de curso. Verifico aqui um aumento do facilitismo, porque as PAP deveriam ser um processo acompanhado pelo professor, mas há cada vez mais alunos a apresentarem somente o produto final sem qualquer controlo anterior pelo professor, o que dá origem a fenómenos de copy e paste, e depois, mesmo que o aluno não tenha capacidade de explicar o que escreveu, tem a nota mínima para ter o percurso direto e a escola ficar bem na fotografia.

Nas inscrições para exames os períodos de inscrição são flexíveis (!), aparecendo em cima da hora novas inscrições, com os professores a fazerem as matrizes e as provas à pressa. Estes exames tendem a ser cada vez mais um trabalho, (de copy e paste?) que os alunos têm de defender perante um júri, quando os colegas fizeram testes ou trabalhos acompanhados pelos professores. Os alunos têm cada vez mais a expetativa de que se não fizerem um módulo no período de aulas, o farão por exame, sem grande esforço. A pressão dos percursos diretos está a abrir caminho a facilitismo nos exames de recuperação de módulos.

Concluindo, os percursos diretos, uma nova forma de acompanhar o desempenho das escolas, sendo uma alternativa aos rankings baseados em notas dos exames, é mais um fator que tem vindo a alterar o rigor que era apanágio do ensino público. Agora há menos controlo sobre o processo de construção das PAP, abrindo-se as portas à fraude, os exames de recuperação de módulos passam a ser facilitados e com grau de dificuldade menor que na avaliação durante o período de lecionação, criando-se a expetativa de que se um aluno não conseguir durante as aulas fazer um módulo deixa para exame que é mais fácil. Nos cursos de prosseguimento de estudos a lógica dos percursos diretos também aumentou as notas votadas.

Cada vez que se cria um instrumento para avaliar as escolas os atores subvertem-no e usam-no a seu favor, pouco preocupados se há incentivo ao facilitismo desde que fiquem bem na fotografia.

Rui Ferreira

5 COMMENTS

  1. Efetivamente, o rigor do passado, lamentavelmente , acabou.
    Arranjamse todo o tipo de justicações para transitar os alunos que não trabalharam durante o ano , que não adquiriram os conhecimentos essenciais e, muitas vezes, tiveram atitudes incorretas, denunciando a sua falta de valores.
    Principalmente os diretores de turma fazem essa pressão sobre os professores, levando os conselhos de turma a votar as notas dos colegas cujo nível é negativo.
    Premeia-se a preguiça, a má educação, desvaloriza-se o trabalho do professor, em nome do sucesso aparente. Onde foi parar o rigor do passado? Por lá ficou, o desgraçado, já ” ninguém” fala nele.

  2. Não sei se sabe,Ana, mas outrora, a escola portuguesa já foi conhecida internacionalmente pela qualidade do ensino, pela boa preparação dos alunos. Quem terminava a escolaridade obrigatória estava, efetivamente, bem preparado a todos os níveis, para a vida profissional e social. Agora há um sucesso maior, mas, sem dúvida, aparente.
    Os dts são pressionados, Luís, pelo próprio ministério da educação e impelidos pelas suas políticas de facilitismo, claro!
    Copiam-se os modelos de outros países, porque é “moderno”, o modelo antigo, dizem, estava desatualizado.
    “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” .

  3. É verdade. Há diretores de turma que só querem fazer favores à direção, aos amigos. Numa das reuniões, nem votei e nem repararam. Vou ver na ata se a soma de votos está correta, mas como o nome de quem vota pela subida nem é apontado – está aberto o caminho para a impossibilidade de análise da veracidade dos resultados.
    Chega a haver subida de notas por e-mail quando. a pauta já foi publicitada. Uma festa.

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