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Os motivos do “divórcio” entre os professores e a escola

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“Dou as minhas aulinhas e não quero saber de mais nada, estou farto disto!!!”

Já ouviu isto na sala dos professores? Eu já… E ouviu mais do que uma vez? Eu já…

Com “flores” ou sem “flores”, este é o estado de espírito de muitos professores.

E porquê?

É pelos alunos? Não…

É pelos colegas? Não…

É pelos pais? Em parte, mas com isso vivem os professores bem…

Então que raio se passa?

(suspiro)

Bem, não quero ser muito longo pois o “modernismo” social limita o número de carateres por artigo, de modo a acompanhar a vida estilo “vite vite” que todos levamos, por isso vou sintetizar, sem ordem específica:

Exclusão das decisões

Nem que façam o pino vão conseguir motivar um grupo de professores que são tratados como meros prestadores de serviços, onde as suas opiniões pouco contam e decisões não são tidas em conta. Um dos principais motivos pelo afastamento do corpo docente pela escola é exatamente a exclusão do Ministério da Educação e diretores, que pouco ou nada querem saber da opinião docente. Órgãos como o Conselho Pedagógico, são meros certificadores das políticas educativas, ocos em si mesmo, vazios de significado, pois não passam de rádios de transmissão para os restantes professores.

Solução: Mudar o sistema de gestão, integrar os professores nas decisões, para que possam sentir parte do processo, parte de algo que também é seu e também contribuíram.

Horário ao minuto/excesso de trabalho/ horas extras

1100 minutos, é este o horário “fabril” do professor, como se o ensino pudesse ser medido ao minuto. Um medida “iluminada” de gabinete que ignora toda a envolvência de uma aula e de uma escola. Além disso, temos um sistema abusivo que perdura ano após ano, de reuniões em horário pós-laboral, sem a devida compensação. Se o horário é 1100 minutos, quando ocorrem reuniões extra horário, deveria ocorrer nessa semana, ou na próxima, o respetivo ajuste.

Não, as horas a mais são um dado adquirido e aquilo que me irrita mesmo é saber, que quem bate o pé é visto de lado, não só pela direção como pelos próprios colegas… E não me venham com a conversa das férias pois os domingos são dias de descanso e normalmente os professores passam os ditos ou parte deles a preparar aulas, corrigir testes, etc.

Solução: acabar com o horário ao minuto, fazer pausas letivas para que as reuniões possam ocorrer em horário laboral.

Carreira

Exemplo prático e até sou dos felizardos que já está no quadro. Dou aulas há 19 anos e aguardo por subir para o terceiro escalão. Além disso, tiraram-me 6 anos de serviço e o topo da carreira é apenas uma miragem. Se querem profissionais de qualidade no Estado, paguem o seu valor, os professores não podem ser vítimas do seu elevado número.

Solução: devolver o tempo de serviço, ou substituir por uma redução da idade da reforma, ou um crédito de algo palpável.

(In)Disciplina

O melhor da docência é dar aulas, é o contacto com os alunos, é ver aqueles pequeninos a aprender e a crescer. Porém, a indisciplina é um cancro escolar que tornou-se “aceitável”, “desculpável”, “implícito”. Tal só acontece pois a escola não tem estrutura para o resolver, não tem recursos para o resolver e por se ter transformado, em parte, num “depósito” dos desvarios de famílias que de família só o nome têm…

Solução: criar gabinetes de combate à indisciplina. Fortalecer as equipas sociais e psicólogos. Criar um sistema alternativo de ensino, extremamente prático, com reduzida carga letiva, muito focado para o mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, terminar com o ensino obrigatório até aos 18 anos.

Burocracia

Tudo é preciso justificar, tudo tem de ficar registado, não há uma “porcaria” de uma decisão ou medida que não precise do seu papel, que passado uns anos termina inevitavelmente num arquivo morto e posterior reciclagem. Tretas!

A docência deixou de ser uma profissão confiável, tudo tem que ser provado, tudo tem que ser declarado. E aqui a culpa é principalmente das escolas, dos seus professores e diretores. Aliás, a frase “onde é que isso está escrito” não surgiu por acaso…

Solução: eliminar uma série de documentos e registos inúteis, valorizar a voz do professor, a palavra do professor. Criar uma equipa de trabalho para “rasgar” papel.

E podia continuar, falar no distanciamento familiar, falar nos contratosp precários, etc. Mas em resumo, cito uma frase do artigo de Carmo Machado que representa muito bem o estado de espírito dos professores “Deixei de fazer amor com a escola. Agora só já fazemos sexo…”

Tão paradigmático, tão cristalino, tão representativo, tão verdadeiro…

Os professores estão a desaparecer e os que ficam estão saturados, mas o pior de tudo isto é sentir, e saber, que nada vai mudar, que caminhamos para um triste fim, onde em última instância quem vai sofrer vão ser os alunos.

E depois há quem fique surpreendido por não haver professores…

Alexandre Henriques

10 COMMENTS

  1. Excelente texto!
    Quem me dera ter 7 horas de trabalho na escola incluindo-se nessas 7, todas as horas para preparação das aulas, consulta de manuais e livros especializados, correção dos inúmeros instrumentos de avaliação e os infindáveis e, muitas vezes, inúteis relatórios, reuniões de departamento, intercalares, de avaliação, mais sínteses descritivas, lançamento de notas etc, etc, etc.e depois vir para casa descansadinha, sem pensar em mais nada, a não ser na minha família!E, já agora, ter os fins de semana sem trabalhar para a escola, que é coisa que não acontece nunca!!
    Quem me dera poder ter férias em setembro ou junho ou abril, como as outras pessoas têm, e pagar por um alojamento metade do que pago em agosto (porque só posso tirar férias em agosto, não me dão outra hipótese).Até quando continuar com esta anedótica forma de viver exclusivamente em prol da escola?
    Sim, às 35 h na escola e às zero horas fora dela. Sim, aos 22 dias de férias, no momento em que o nosso cônjuge as tem.
    Para que se acabe com as piadas dos ignorantes que acham que não há motivos para reclamar e fazer greve, nomeadamente ao trabalho extraordinário, para que, finalmente, possamos ter vida!

  2. Agora já estou aposentada de professora do 1° Ciclo. Mas, ainda há 3 anos, nos períodos de avaliação, acabava as aulas às 17h de sexta-feira e na segunda-feira logo às 9h tinha de ter a avaliação da minha turma pronta para ser lida em reunião de avaliação. Muitas vezes a minha turma era a primeira a ser avaliada. Passava o fim de semana inteiro a trabalhar.

  3. Bravo! Parabéns! Tudo dito!
    Concordo e subscrevo! Ninguém valoriza o trabalho do Professor, o visível e o (muito) invisível em casa… só mesmo por amor à camisola!…
    …”E depois há quem fique surpreendido por não haver professores…” 🔶

  4. Sou professora há 43 anos e sofro do mesmo desencantamento dos meus colegas.
    Ser professor já foi um contentamento, uma realização, mas há já muitos anos sinto que a deterioração é cada mais e maior…
    Não merecemos, devíamos ser reconhecidos, pois não é verdade que ao ensinar os alunos de hoje, estamos a preparar os cidadãos de amanhã? E como podemos dar-lhes um bom exemplo se não passamos de mulheres e homens frustradas/os que não podem fazer nada para alterar o mau sistema educativo instituído?
    O Ministério limita-se a aprovar leis de gabinete, sem ir ao âmago das questões mais técnicas, importantes e específicas do espectro letivo.
    Sr. Ministro da Educação (que devia ser do ensino), comecem a “fazer a casa dos alicerces para o telhado” e não vice versa.
    Quem conhece os verdadeiros problemas/carências dos alunos, é quem convive quotidianamente com eles, tanto do ponto de vista pedagógico, como social, económico ou familiar.
    Não pode haver leis transversais, feitas à revelia do meio social em que a escola está inserida. Lá diz o velho ditado: ” quem vive no convento, é que sabe o lá vai dentro! ” e é bem verdade.
    Um pouco mais de autonomia às escolas e mais respeito pela nossa classe, seria a melhor receita para uma escola de excelência.
    Dulce Tavares

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