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Os “Meninos” Grunhos E Os Pedagogos Do Regime – Santana Castilho

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1. Longe de ser exaustivo, recordo o que foi possível ler na imprensa dos últimos dias: uma estudante de 16 anos deu entrada no hospital de Portalegre, em estado grave, depois de ter sido agredida por um colega; aluno de 15 anos foi hospitalizado, em estado grave, depois de ter sido agredido à facada em escola de Matosinhos; homem de vinte anos foi detido por ter agredido um agente da PSP no interior de uma escola, em Viseu; pai agrediu professora no Entroncamento; duas alunas foram agredidas por um colega em Benavente; aluno agrediu três professoras em Coimbra. Tudo isto poderá ser estatisticamente residual. Mas é humanamente intolerável.
O programa Prós e Contras de 3 do corrente, supostamente sobre a indisciplina e a violência que reina nas escolas, mostrou que há muitos professores que aceitam como coisa sua aquilo que é coisa das famílias, dos políticos e do Estado. Quando o programa ia a meio e o objecto do debate se perdera nas retóricas retorcidas e nos egos inchados dos participantes (excepção feita à objectividade digna de Luís Sottomaior Braga), já o meu enjoo superava a dor da “barriguita” da filha do “professor do ano”, muito culto e erudito, mas com alguma dificuldade em distinguir a obra-prima do mestre da prima do mestre-de-obras.
Apesar da função dos professores ser promover o conhecimento, ensinando com independência, o programa mostrou ainda que a propaganda oficial os coloniza e leva demasiados a aceitarem que os “meninos” são grunhos e violentos porque as aulas não são motivadoras, “flexíveis” e as escolas não têm teatro.
2. A inutilidade dos “chumbos” voltou a ser tema (chumbar um aluno “não serve para nada”, disse em entrevista a presidente do CNE). A presidente do CNE ajudou a confundir planos de análise que não podem ser confundidos. Se as suas proclamações ficassem sem contraditório, a diletância poderia ser tomada por realidade. E a realidade é bem diferente. Maria Emília Brederode está certa na proposição (fácil é reprovar os alunos, difícil é criar condições para que aprendam) mas erra, com dolo, quanto à solução. Porque sabe bem que as condições não estão nas mãos dos professores mas nas decisões políticas de quem a elegeu. Porque sabe bem que acabar com os chumbos só se consegue baixando o nível de exigência ou criando medidas sociais de erradicação da pobreza e de apoio à destruturação das famílias e medidas educativas sérias (mais tutores, mais professores de apoio, mais psicólogos e técnicos especializados, redução do número de alunos por turma e mais meios e materiais de ensino). A alternativa que implícita e hipocritamente sugere é a primeira. Porque sabe bem que as outras, as sérias, são incompatíveis com as mentes captas dos seus prosélitos e com a limpeza do balanço do Novo Banco (mais 700 milhões).
A “escola-alfaiate” (chavão “neo-eduquês” do Governo) torna-se risível quando o dono do boteco quer que o costureiro faça fatos, sem linhas nem fazenda, a partir do mesmo molde, para 30 corpos diferentes.
O sistema de ensino, tal como está organizado, destina-se, a partir de determinada fase, a manter na escola jovens que lá não querem estar. Em vez de diabolizar as reprovações, seria mais interessante questionar a legitimidade do Estado para obrigar um cidadão de 16 anos a frequentar a escola contra sua vontade e a vontade dos pais. Porque, por muito que esperneiem os pedagogos do regime, sem mudança radical de políticas, a única alternativa ao chumbo é passar sem saber.
3. Na violência, como no insucesso, os pedagogos do regime escondem e desvalorizam as causas e persistem em apontar o dedo aos mesmos de sempre, os professores. Hipocritamente, em nome de uma “autonomia” superiormente autorizada, orientam-nos para uma flexibilidade insensata, uma inclusão forçada e um sucesso a qualquer preço.
Se nas escolas continuarmos a preterir o que verdadeiramente importa a favor de trivialidades aparentemente livres e avançadas, estaremos a breve trecho face a uma sociedade com duas escolas: uma, que valoriza o conhecimento e premeia o estudo e o esforço, para os que a possam pagar e para os filhos e netos dos governantes e dos pedagogos do regime; outra, para o povo, “flexível”, manicomial, carregada de planos e projectos, onde só chumbarão (e cada vez mais) os professores/escravos.
In “Público” de 13.11.19
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3 COMENTÁRIOS

  1. Este, Senhor Professor Santana Castilho devia ser escrito a vermelho em todas as paredes, em todas as escolas , de todas as cidades, porque é a CRUA VERDADE! Depois deste não há muito mais a dizer, pois está tudo perfeitamente dissecado e na medida justa… Obrigado Professor Santana Castilho!

  2. Para variar, SC está certo. Claro que SC tem dito tudo ao longo dos tempos com precisão cirúrgica, mas os autistas recusam-se a ouvir. Só ouvem o seu próprio eco. A SC só coloco uma objeção: Os alunos e pais que não querem os jovens na escola com 16 anos, não têm querer. Vivemos em sociedade, todos desfrutamos dos bens da sociedade, todos temos a obrigação de contribuir para ela. Salvaguardadas as situações específicas de saúde e de equilíbrio mental, devidamente escrutinadas em idade precoce e com a adequada intervenção, todos os outros, a bem ou a mal, têm de participar na construção social. Se se sentam num sofá é porque alguém inventou as molas, se andam de autocarro é porque alguém inventou a roda, se curam as infeções é porque alguém inventou o antibiótico, se usam as máquinas de calcular é porque alguém inventou as pilhas, se falam ao telemóvel é porque alguém inventou a tecnologia digital. Têm também de dar o seu contributo. Não se aceitam bolsas de parasitas. Têm de ser alfabetizados e socializados. Não podemos devolvê-los à sociedade no estado selvagem em que entram na escola sem pensar que vamos receber a contrapartida disso com juros. O abandono e a negligência têm efeito boomerang. Não podemos desistir dos alunos. Seja em que idade for. Devemos dar-lhes todas as oportunidades, em diferentes momentos da sua vida.
    A discordância principal está no facto de alguns julgarem que os alunos só podem aprender a bem, que de outro modo não aprendem. Assim, vamos ficar para sempre à espera de Godot, a gastar os fundilhos na educação, não há economia que aguente esse desperdício, depois vem o disparate de deitem abaixo todos os muros, abram os portões, passa tudo à desfilada que reprovar fica caro. O slogan é já muito antigo: se a educação fica cara experimentem a ignorância.
    A maioria dos alunos de leste que chega à escola portuguesa vêm dois a três anos adiantados em relação aos portugueses em tudo, em atitude, progresso na aprendizagem, etc. Já outras nacionalidades apresentam atraso considerável em relação aos portugueses. Perguntem-se porquê? Eu respondo, diferentes pedagogias e diferente estado do reconhecimento da importância da educação pela sociedade. Nos países de leste não há contemplações com frivolidades. Há censura social para quem brinca em serviço.
    No serviço militar existe falta de praças, não querem a escola, muito bem, vão fazer o 12º ano como serviço militar obrigatório, não com as regras do ME fofinho, mas com as regras do Ministério da Defesa, os duches de água fria para quem tem capacidades, acordam para a vida. Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer.

  3. Importa pouco quem tem ou não razão se isso não resulta em alterações e decisões perenes. Importa sim que nos ouçamos uns aos outros (digo: governantes, familias, escolas, professores, auxiliares). Isto porque é preciso uma aldeia para educar uma criança. E isso não se faz há pelo menos quinze anos. Não há ano nenhum que não haja alterações dentro da escola, seja o regulamento interno seja fora dela, o despacho ou a Lei XPTO que, em todos os casos, não retira os 30 alunos que estão dentro da sala de aula para me dar a hipótese de oolhar para cada uma deles per si. NINGUÉM está satisfeito com este sistemas de ensino, apesar de dizerem que está melhor: NÃO está não! Fala quem imerge nele todas as semanas. A ESCOLA podia ser tão [melhor] diferente, com tanta tecnologia em redor, se todos pudessemos participar no processo e deixar que role durante 10 anos; contudo, continuo a estar distante dos meus alunos, a quem não posso ATENDER com a devida qualidade: quer dizer, identificar o que não percebeu, perceber o que já sabe, e dar uma orientação para que melhore. Por outro lado, não é possível entender CIÊNCIA se os alunos chegam a soletrar o que leem: isso é uma equação IMPOSSÍVEL! Mais um desabafo insensato de quem luta por uma escola melhor, justa e ajustada em que por lá anda nestes dias. E quantp à formação disponibilizada… é melhor nem falar… prefiro pagar a ter que assistir, porque vem ai o crédito para um aumento de 20 euros.

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