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Os desafios da reabertura escolar – Ricardo Arroja

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Neste ano lectivo que agora se aproxima teremos pela frente dois grandes desafios. Um é organizacional. O outro é pedagógico. Felizmente, são ambos endereçáveis.

O início do ano escolar representa habitualmente um momento de ansiedade tanto para alunos, como para encarregados de educação e professores. Este ano a ansiedade é reforçada pelo facto de o início do ano escolar coincidir com a reabertura generalizada das escolas após o encerramento compulsivo de Março passado. São muitos alunos que regressam ao ensino presencial e muitos empregos que se restabelecem associados à actividade escolar. Entre ensino pré-escolar, básico e secundário, existem mais de 1,6 milhões de alunos em Portugal. A estes acrescem ainda os alunos universitários que, daqui a semanas, também regressarão aos bancos da faculdade. Mas estará a comunidade escolar preparada para esta reabertura?

A ansiedade tem sido agravada nas últimas semanas pela ausência de indicações precisas sobre o modo de regresso às aulas. É certo que o primeiro-ministro já indicou a forma como serão isoladas as pessoas que vierem a contrair o vírus numa segunda vaga. Todavia, persistem outras interrogações, desde logo aquelas que ocorrerão a partir do primeiro minuto. Vão as turmas dividir-se em turnos alternados e como se fará isso? Vão os alunos utilizar máscara e a partir de que idade o vão fazer? Vão os alunos auxiliar na higienização das salas de aulas e com que meios o farão? Vão os alunos ter acesso a computadores e como será realizada a integração do ensino presencial com os meios digitais? Enfim, faltam muitas respostas à contra informação que foi surgindo nos últimos meses, em especial nas escolas públicas.

A experiência de ensino remoto dos últimos meses, é hoje consensual na sociedade portuguesa, foi globalmente insatisfatória. Não porque não tenha havido um esforço de todos, mas simplesmente porque a experiência de aprendizagem através do ensino à distância não é a mesma. Os alunos aplicados e disciplinados serão sempre bons alunos, em modo presencial ou à distância, e alguns destes alunos até beneficiarão mais do ensino à distância do que do presencial, tornando-se mais autónomos, maduros e responsáveis. Porém, para a maioria, em particular para os mais distraídos e para aqueles ainda em busca de vocação, o remoto representa uma perda. Estes alunos ficam para trás, ou até muito para trás quando as circunstâncias escolares e familiares são más.

A experiência dos últimos meses salientou quão importante é termos os nossos filhos numa boa escola (e também quão importante é para as crianças estarem numa boa família). Enquanto pai de várias crianças em idade escolar estou especialmente atento a isto. No meu caso, pude dotar os miúdos dos meios digitais necessários ao ensino remoto e o mesmo sucedeu do lado da escola. Ainda assim, os miúdos teriam tido melhor aproveitamento em ambiente escolar do que em casa. Mas as minhas crianças vivem num meio privilegiado e a verdade é que a generalidade das crianças não teve a mesma oportunidade. Os meus filhos mantiveram avaliações regulares até Junho e eu próprio me mantive em estreito contacto com professores e directores de turma. Mas outros não tiveram o mesmo acompanhamento nem a mesma proximidade.

Neste ano lectivo que agora se aproxima teremos pela frente dois grandes desafios. Um é organizacional. O outro é pedagógico. Felizmente, são ambos endereçáveis.

Primeiro, temos o desafio da organização dos recursos humanos nas escolas, porque entre 40 e 50% dos docentes do ensino básico e secundário têm mais de 50 anos de idade. É precisamente nesta fasquia de idade que aumenta a taxa de fatalidade em proporção dos casos confirmados. Até ao momento em Portugal, entre os 50 e os 69 anos de idade a taxa de fatalidade em proporção dos casos confirmados é de 1,5% (217 óbitos para 14.186 casos confirmados, dados a 28 de Agosto), por oposição a uma taxa de fatalidade de apenas 0,1% dos casos confirmados entre as pessoas com menos de 50 anos de idade. Ou seja, é essencial que exista um plano de contingência para efeito de eventual substituição temporária de docentes e que existam também acordos que facilitem a transferência de discentes para outras escolas se for necessário.

Segundo, temos o desafio da integração dos meios digitais com o ensino presencial, pois não faria sentido que se perdessem as coisas boas do ensino remoto. Há, pois, que aproveitar os fundos europeus que aí vêm para se dotarem os alunos de computadores e as escolas que ainda não entraram no século XXI de ligações à internet. É certo que existe um risco de desperdício, como infelizmente houve noutros tempos, mas, responsabilizados os alunos, encarregados de educação e as próprias escolas, as vantagens mais do que superam os inconvenientes. É impensável que na era da inteligência artificial o ensino se limite aos instrumentos tradicionais, que as escolas permaneçam em “off”, e que domínios pedagógicos como a linguagem de computação – que estará para a geração de hoje como o Excel está para a minha – não faça parte dos currículos de base desde muito cedo.

A realidade muda rapidamente e o futuro é incerto. Mas à medida que observamos as alterações provocadas pela pandemia há antevisões que se afiguram lógicas e razoavelmente seguras. A digitalização do ensino, e em geral a digitalização de toda a vida em sociedade, é uma delas, exigindo o envolvimento de todos – docentes e discentes – com vista à formação de cidadãos aptos para o século XXI.

A outra tendência consistirá no esbatimento das relações hierárquicas no mercado de trabalho. O trabalho no século XXI, sobretudo quando realizado de forma remota, tenderá a organizar-se através de projectos, equipas e missões, em alternativa às tradicionais divisões, hierarquias e rotinas. Esta evolução também levará o ensino a adaptar-se. Não percamos, pois, tempo. O futuro não é amanhã. O futuro é já hoje.

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