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Muitas Escolas Têm Os Critérios De Avaliação Errados

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Se não estão todos, estão quase todos. Passo a explicar.

Todos conhecemos os critérios de avaliação, estes estão definidos por áreas, cada uma delas com um peso específico na avaliação. Desde que me lembro de ser professor que é assim e julgo que continua a ser assim na esmagadora maioria das escolas.

Porém, existe um choque claro entre a ideologia flexível de ensino atual e respetiva avaliação, que não bate certo com a rigidez dos critérios de avaliação. Se a flexibilidade curricular fomenta uma adaptação sistemática, onde o perfil do aluno é o telhado que cobre a cabeça de todos nós, os critérios de avaliação devem evidenciar essa mesma flexibilidade. Evidentemente que não é isso que está a acontecer.

Goste-se ou não, concorde-se ou não com a flexibilidade, continuo a dizer que o maior problema (fora outros) desta vaga onde contam mais os processos que os resultados, é a falta de ligação entre a sala de aula, os critérios de avaliação e respetivos exames nacionais. É um casamento arranjado, uma relação imposta e quando assim é, a ligação dificilmente fará faísca e o fracasso é um dado adquirido, faltando apenas conhecer o dia em que ambos seguem caminhos diferentes.

Mas vi a luz, ou melhor, fiquei encadeado com ela. Numa formação que estou a frequentar sobre a dita flexibilidade, o assunto foi abordado e ainda bem que o foi, pois finalmente percebi o que querem que as escolas façam.

Os atuais critérios de avaliação são bastante pormenorizados, alguns deles chegam ao ponto de dar percentagens à assiduidade, pontualidade, testes e afins. O que agora se fomenta não é nada disso, são patamares de competências onde encaixarão as escalas avaliativas. Por exemplo, 5 níveis de competências, transversais entre disciplinas, onde os professores no seu interior incluem a especificidade da sua disciplina.

Estamos por isso perante critérios muito gerais, onde facilmente se pode atingir o sucesso se a escola assim entender. Algo que não acontece nos atuais, onde a inclusão de classificações para testes, trabalhos, comportamentos e afins, ditam automaticamente uma classificação.

A questão do esforço ou do “processador” do aluno que está nas máximas rotações, onde o seu desempenho equipara-o a um fiat 600 encravado na 1ª mudança, não pode ser “camuflado” nos critérios atuais, pois são estanques nas suas percentagens. Porém, uma avaliação por competências permite um jogo de cintura completamente diferente, salvaguardando inclusive eventuais recursos de encarregados de educação.

Vantagens:

Começa a bater a bota com a perdigota, um ensino individualizado precisa de critérios abrangentes. Não faz sentido o atual regime, onde temos critérios inflexíveis numa avaliação inteiramente flexível.

Desvantagens:

Fica aberta a porta a uma certificação de incompetência, se é que podemos falar em incompetência a nível pedagógico. O tão falado facilitismo, que tantas dores de cabeça traz aos professores pelo conflito ético que origina, pode agora ser implementado se as direções assim o fomentarem.

Incompreensível:

Não se compreende o que se está a passar nas escolas, sabendo que os diretores têm sido “massacrados” com formações e palestras sobre flexibilidade. Por que não mudam os critérios? Será falta de confiança na durabilidade desta reforma? E o Ministério da Educação, está a par da situação? Ou a autonomia atribuída aceita este tipo de incongruências?

Conclusão:

Os critérios de avaliação estão errados, tendo em conta o que se pretende e pratica nas escolas. Atenção que o termo errado baseia-se no caminho que está a ser seguido, não em qualquer tipo de ilegalidade. Se os atuais critérios estão certos, então não faz sentido a avaliação que se pretende aplicada nas escolas.

Estamos por isso naquela zona morta, na terra de ninguém, onde surgem dúvidas e conflitos que deviam ser definitivamente resolvidos se houvesse uma orientação clara. E enquanto funcionário do Ministério da Educação, não há nada pior do que ficar baralhado num momento tão importante como o de atribuição de uma classificação.

Alexandre Henriques

21 COMENTÁRIOS

  1. Percebi… é necessário tornar os critérios de avaliação em nada…para que os que nada aprendem, e os que nada ensinam, os que nada trabalham… possam ser avaliados como se fizessem alguma coisa e também soubessem algo… Genial!

  2. Continuo sem perceber. Admito que a limitação seja minha. O que vejo é sucesso fabricado, em força, por todo o lado. Ainda não consegui perceber o potencial desta reforma, apesar do esforço para compreender.

  3. Caro Alexandre,
    Não poderá disponibilizar um exemplo do que fazem na formação para tornar mais claro o que se pretende?

  4. Caro Alexandre,
    ando à procurar, já algum tempo, de uma formação nesse âmbito e de qualidade. Seria possível partilhar qual é a formação que frequentou/frequenta e a entidade/formador organizadora?

    Obrigado
    AM

  5. O problema é sempre o mesmo. Quando se solicita a exemplificação, ou não é apresentada ou fala-se da disciplina de português!
    Mais liberdade não é necessariamente melhor. Pode conduzir ao melhor e ao pior. Como a avaliação externa é ostracizada, não há qualquer controlo do processo! O problema é que se está a jogar com o futuro dos alunos e estes não podem estar sujeitos às nossas idiossincrasias. É tudo tão vago que aflige!

    • Sinto o mesmo problema, já assisti a palestras e várias formações no âmbito da flexibilidade, os exemplos são sempre relacionados com disciplinas de Português, História… nunca assisti a experiências partilhadas no âmbito da Matemática. Acima de tudo existe pouca orientação, pouca exemplificação de como fazer, incentivam muito o processo mas sem mostrarem os procedimentos para uma nova formatação do modelo que querem implementar, pouco auxilio na condução do projeto, pouca precisão, apenas palavras motivadoras para aplicar a mudança em que acreditam. Entrega-nos a construção do monumento sem os desenhos arquitectónicos da obra.

  6. Compreendo perfeitamente.
    No entanto, é difícil mudar mentlidades. Numa classe docente com a média de idades da do nosso país, sedentária, com a desvalorização da carreira e a desmotivação, torna-se ainda mais difícil.
    Procuro acompanhar de perto as mudanças, atualizar-me e adaptar-me, concorde ou não, e já desde há muito vou descortinando este tipo de discrepâncias na realidade das escolas por onde vou passando.

    • Ora, desculpa a franqueza, o trabalhador intelectual, que deveria ser o professor, na sua plenitude… Sempre que há legislação nova, no âmbito pedagogico e metoloógico, o professor reflexivo moderno, não tem uma atitude crítica, concordante ou não, com a senda legislativa… Pura e simplesmete faz umas formaçõezinhas e joga ao ” chefe manda”… Depois critíca os colegas dizendo que estão velhos e , assim sendo, é difícil mudar mentalidades… Quando entrar para lá outro ” Crato” a colega joga no mesmo tabuleiro e faz o ”trabalhinho” como lhe mandam!!! Está tudo dito sobre, peço desculpa pela dureza das palavras , a falta de conhecimentos e postura intelectual de muitos dos professores… O que vai valendo a isto não descambar são mesmo os velhos: já viram muito e não rumam o barco para onde sopra o vento, nem se deixam embalar por cantigas demagógicas, como a do atual secretário de estado… Sim, eles estão velhos , mas ainda pensam pela cabeça deles e procuram o que é melhor para os alunos, não se deixam invadir por ideologias bolorentas que são apresentadas como novas! Muitas das vezes quem precisa de estudar são mesmo os professores !!!

    • Olhe, eu estou a pouco mais de meio da carreira e deixe que lhe diga que, se o ensino não está pior e se os nossos alunos ainda vão tendo alguma formação de jeito, isso deve-se muito aos “velhos”, que têm décadas de experiência, pensam pela sua cabeça e não embandeiram em arco com cada nova pérola que o nosso Ministério deita cá para fora.

  7. Perdidos? Confusos? Pudera! Vão atrás dos devaneios dos srs Costas, do primeiro e do subalterno…
    Só é enganado quem se deixa enganar. Mais cego é quem não quer ver.
    Não veêm que o rei vai nu?
    Não. Obviamente que não. O objetivo é mesmo esse. Enquanto estiverem ocupados e entretidos com flexibilidades e afins, não pensam. Touchéz!

  8. Caro Alexandre,
    É verdade. Andou distraído. Então há tantos anos a trabalhar com os níveis de 1 a 5 (NÍVEIS, PERCEBEU?) Ainda não tinha percebido que níveis são uma escala de proficiência e desempenho, a qual coabita com uma escala qualitativa (boa para processos) e com uma escala percentual boa para conhecimentos? OMG. Infelizmente porque ninguém percebeu o que eram níveis de desempenho, os alunos tb não, nem os pais. Então, todos pensam que apenas concluir um trabalho lhes dá nível 5. Não compreendem rendimento (tempo), correção, rigor, qualidade, apresentação, relação, etc. Agora compreendo a loucura que se instalou. Eu sabia que era diferente mas tanto também não. Sabe porque agradeço o seu testemunho para confirmar quem esteve sempre certo e tem tido que atravessar o deserto da loucura docente onde ninguém faz autoformação nem se apropria de conceitos novos porque uma boa maioria não pesquisa e não pesquisa em inglês, logo não há aports significativos a não ser em formações um tanto más… parabés pela sua. Mais vale tarde que nunca. Henriques

    • Boa Henriques ! És o Cristino Ronaldo da avalição. Também sabes fazer pesquisa em estrangeiro… Boa , ó Herrique, tu encostas os colegas aos postes… e defumas-lhes as caras com o teu bafo de domínio do nirvana avaliativo, na língua do Grande Bardo, ainda pro cima… Lá dominar a de Camões, e esbulhá-la de modo claro, é que já és mais fraquinho… Escreveste, a coisa acima, como o saudoso driblista Futre, fazia com o coiro cosido: fintaste uma dúzia dentro da cabine do telefone e não a mandas-te lá” pra’ dentro”, ou seja, não disseste nada! Ah, Grande Henrique… deves ser um dos xalentes, mas incompreendido, claro… como bem o dizes, aliás…

  9. Este período na escola do meu filho bati-me com essa questão… alteraram os critérios mas aspetos que tanto deveriam ser valorizados como indica o perfil do aluno, nomeadamente os valores, passaram a estar inseridos dentro de cada disciplina, sem grande abrangência transversal e às vezes, com indicadores difíceis de se evidenciarem. Resultando: a componente do saber-estar praticamente desapareceu. Algo me parece errado…! Estarei eu a interpretar mal?

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