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Os Computadores Privados Dos Professores – Orlando Farinha

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A situação que vivemos actualmente tem levantado inúmeros problemas na organização do trabalho e contribuído para diversas e salutares tentativas de solução. Abordamos aqui uma questão, provavelmente menor mas relevante, no domínio do ensino nas nossas escolas.

As aulas da última quinzena do segundo período no ensino básico e secundário foram dadas através de computadores, tablets e smartphones. As reuniões de avaliação realizaram-se também por estes meios. Parece que as aulas do terceiro período vai ser assim que vão ser dadas, pelo menos parcialmente. Muita gente tem falado, e bem, das dificuldades, e das desigualdades decorrentes, que esta situação implica para os alunos que, ou por não terem acesso a computador, ou a computador sem acesso (ou acesso deficiente) à Internet, ou por terem os pais em teletrabalho a utilizar o computador da casa, ou por terem irmão (s) que também precisam de usar o computador, vão sentir óbvios embaraços na sua actividade. Nem toda a gente pode ter tantos computadores quanto os membros do agregado familiar…

Do que não temos ouvido falar é desta situação na perspectiva dos professores. Também eles têm filhos e cônjuges que precisam de utilizar estes meios, precisamente pelas mesmas razões e sofrendo dos mesmos embaraços. E mais, estes meios foram por eles adquiridos pessoalmente, o acesso à Internet é por eles pago e o seu uso, sob todos os pontos de vista e para todos os fins, é de natureza privada. O mesmo se diga em relação a todos os outros instrumentos de comunicação que possuem e utilizam. Não lhes foi nunca fornecido telefones, tablets ou computadores de trabalho nem os custos associados são despesas de representação. E, porém, é com tudo isto que toda a gente tacitamente conta.

Ninguém até hoje levantou esta questão. Sobretudo, os principais envolvidos que são os professores. Parece que para eles é óbvio que aquilo que é legítima propriedade privada esteja ao serviço da sua actividade profissional e pública que é ensinar os seus alunos. E não passou, nem passa, e estamos certos que nunca passará pela cabeça de nenhum deles levantar tais questões, neste momento ou em qualquer outro. O que só abona a seu favor mas não sabemos se é devidamente reconhecido. Porém, e por causa de certas coisas que se ouvem, escrevem e decidem, seria justo que Ministério da Educação, Encarregados de Educação e Directores tomassem isto em conta. Nem que fosse a benefício de inventário.

Fonte: Observador

15 COMMENTS

  1. É melhor IRES todos os dias para a escola para uma sala sozinha com um PC?
    Escolhe, ou compras um por 300 euros a prestações de 20 € por mês ou vais até a uma sala na escola.
    Poupas na viagem investes num PC.

    A NET é um pacote que dá para toda a família.

  2. Caro colega tem toda a razão! A a razão amplia-se, ainda, mais quando pensamos a forma como temos sido tratados. Espero que não se esqueçam de uma das frases ditas por um dos nossos governantes no momento do encerramento das escolas!

  3. Considero pertinente esta chamada de atenção referida no artigo.
    Contrariamente a um comentário que vi acima devo informar que se todos os professores da “minha” escola fizessem o que refere, a escola não teria computadores nem lugares para os sentar espaçados….
    Mas dando de barato a questão referida que para mim é importante mas “tolerável” neste contexto de ajuda mútua, há outro problema não abordado no artigo, que talvez merecesse ser questionado.

    Quantos professores (pois os alunos já foram inventariados) vivem em zonas em que o acesso à Internet é menos bom (apesar de caro) e que agora por força das circunstâncias (disparou o número de pessoas ligadas) ficou péssimo, impedindo assim que haja condições de trabalho aceitáveis?

    Note-se que as empresas de telecomunicações apesar de oferecerem aumento gratuito de dados móveis, não aumentaram as suas infraestruturas que os suportam piorando naturalmente o serviço prestado.

    • Pois… o melhor mesmo é voltarmos ás escolas como faz o empregado dos hipermercados, hospitais e farmacias (e nao so).

      Assim ja nao vai haver constrangimentos logisticos, ou entao as escolas passam a regime layoff , perdem 1 terço do salario.

      • Apetecia-me responder-lhe tão só e apenas “bora lá”, Amélinha simplista!
        Mas… Irei um pouco mais além…
        A) professora não deve ser… pois escrever dessa forma faz-me lembrar os alunos preguiçosos que nunca fizeram qualquer esforço para aprender e, talvez em consequência e como estes, não tenha tido oportunidade para uma opção de realização profissional mais “risonha” ( idosa sem ter tido oportunidade de frequentar a escola, não vem para aqui);
        B) por certo desconhecerá o objectivo de confinar um gravíssimo problema de saúde pública…;
        C) o sentimento de frustração é notório e nada mais fácil que projectá-lo na classe profissional que, certamente, inveja;
        D) Espero, sinceramente, que tenha emprego mas desejo que diariamente coloque o seu carro ao serviço do patrão e carregue os instrumentos e materiais (ainda que tais condições não constem do contrato de trabalho) que careça para realizar trabalho e ainda que, quando do regresso a casa, no final do dia, carregue consigo trabalho para levar feito no dia seguinte;
        E) caso esteja em lay-off… é um dos muitos casos que lamento profundamente… como cá em casa também existe e nenhum deseja que o outro também fique mas ambos desejam que termine a situação de lay-off de um deles … e muitos mais haverão e nesse caso… só não percebo a direcção da sua revolta pois as culpas não estarão em quem julga com notória mesquinhez;
        F) no desemprego não estará certamente pois, se fosse o caso, seria neste problema (verdadeiramente assustador e mais ainda para que nem sequer tem direito a qualquer subsídio) que se focaria…se, acreditasse, que pudesse ser a sua situação ainda lhe escreveria qualquer coisa sobre as razões da fragilidade do nosso “Estado Social” e da fragilidade dos trabalhadores – incomparáveis com muitos países das europa central, do Norte e países escandinavos… com muito menos corrupção, sem a usurpação do estado que aqui é habitual e com austeridade na utilização do erário público…

        Como já vai longo e mais não me apetece concluo que, das duas, uma:
        – ou é, tão só, alguém frustrada e roída pela invejazinha pequenininha(sei lá por que razões)…,
        – ou é uma das muitas camarilhas do ps, que adoram passear-se por estes blogues, envenenando portugueses contra portugueses – prática habitual – e atirando, desde já, com o barro à parede.

  4. Em favor ou em desfavor… é coisa que já não me afecta pois que a crítica aos professores e os atentados à sua dignidade continuarão… Assim, e como já por aqui ando há mais de 30 anos, movem-me apenas as questões de justiça e de equidade… seja em relação a quem for e a qualquer estrato/ grupo / comunidade populacional e profissional…

    Eu já falei disto (de resto, há muito que falo nisto e como eu outros o terão feito). Ainda há pouco tempo, em Março, o Alexandre, simpaticamente, publicou um artigo meu.
    Neste, não só equacionava a questão em apreço (que não, não é menor!) como a relacionei com muitos outros aspectos da Educação, desde as profundas desigualdades sócio-económicas que a Escola deveria, tudo fazer para debelar (por forma a que os que não nasceram em berço abonado tivessem as mesma oportunidades que estes últimos) e que as iria – infelizmente – incrementar; como a incapacidade de planeamento e de visão e o forte desinvestimento de que a Escola Pública tem sido alvo!

    A propósito do assunto em apreço e para além do que já foi referido (e que também já referi) acrescentaria a aquisição e renovação de licenças (diversificado software); a necessidade de substituir equipamentos e acessórios que vão ficando obsoletos e/ ou degradados,…, Sem que nada disto possa, SEQUER, ser dedutível no IRS de um professor que, em exclusividade, serve a Educação Pública!
    Temos um ME muito mal habituado – e, neste âmbito, a culpa é dos professores … que cada vez mais, mais lhes é exigido e NADA lhes é agradecido – subtraindo aqui os discursos políticos de ocasião… que a falsidade e a hipocrisia de nada valem!
    Imagine-se chamar o canalizador a casa e ele ser obrigado a pagar a que precisou dos seus serviços na sua casa, despesas de deslocação+ reparação+materiais.
    Fazendo um paralelismo com a saúde pública e o já mais que debilitado sistema de saúde (tal como nas escolas, resultado de décadas de desinvestimento que serviu para enriquecer outros)… será que os utentes achariam legítimo que para o exercício da sua profissão os médicos tivessem que pagar os instrumentos/ materiais/equipamentos?

    A isto em concreto poderia chamar-se requisição civil de bens privados…

    Já agora pensem, pois eu também tive que o fazer… Que razão e/ ou razões para decretar estado de emergência e não estado de calamidade pública: todas as medidas tomadas até aqui, poderiam ter sido tomadas no âmbito do estado de calamidade pública… mas queriam chegar mais longe: aos trabalhadores: proibição de greves (bizarro que num momento destes fossem convocadas… mas, nada como assegurar), afastamento das organizações sindicais das negociações, proibição de organização de trabalhadores,…
    O estado de emergência até faria sentido… para que num momento destes ( e da gravidade de todos os subsequentes que se estenderão no tempo) o estado OBRIGASSE os bancos (que todos andamos a sustentar) e não aquilo que faz: PEDIR ; que aproveitasse o estado de emergência para rever os milhões a mais que pagamos às PPP bem como os termos dos contratos; que aproveitasse para rever as rendas astronómicas que todos andamos a pagar para que alguns possam enriquecer vergonhosa e despudoradamente; que tratasse da “maltinha” que já anda a preparar-se para pedir indemnizações (tipo brisa e similares); que acabasse com uma série de Institutos públicos e os integrasse nos serviços do estado ( de onde nunca deveriam ter saído); que acabasse com uma série de empresas municipais e integrasse o pessoal nos vários serviços das Câmaras; que pudesse fim a todo e qualquer perdão fiscal aos grandes grupos económicos e a gentes milionárias; que criasse equipas especializadas para seguir o rasto do dinheiro que devia ser pago no país; que pegasse em empresas estratégicas para o país e as nacionalidades; que acabasse com uma série de MORDOMIAS de políticos, gestores públicos, membros/ secretários/assessores… governamentais, regionais e municipais; … , POIS! NISTO O GOVERNO ESTÁ QUIETINHO!

    Para que serve, então, o estado de emergência se o que deveria ser feito, para além suprimir direitos aos trabalhadores, não o é?
    Pensemos… pois as opções não são inocentes!!!

  5. Para alguns dos comentadores acima, pouco moderados, diga-se de passagem, o mundo é a preto e branco: isto é, ou os professores abrem as veias ou a alternativa é ir para a frente de batalha a toque de caixa, como os soldados, e boca calada.
    Um dos principais defeitos dos professores, até por formarem uma classe desequilibradamente constituída na sua maioria por membros do universo feminino (as mulheres têm maior tolerância à exploração), é serem abnegados e sacrificados até à exaustão, a tal ponto que, por falta de consciência profissional, se julga o professor na sua natureza com a obrigação intrínseca de ser um trabalhador multitarefas, sempre disponível a ser esbulhado, sem horário definido na prática e “pau para toda a colher”. Aqueles que assim se sentem, habituados a viver neste sentir alienado, indignam-se com quem, no seu profissionalismo, prefere a qualidade à quantidade e estranha e renega o desrespeito pelos mais diversos tipos de limites saudáveis, limites que existem noutras classes profissionais com naturalidade, que não na nossa. Muito do espírito de amadorismo e de carolice entregue voluntariamente pelos professores ao trabalho docente com total desapego, alastrou com caráter oficial e obrigatório a todos, assoberbando aqueles que não tinham tempo pessoal para oferecer, por não serem solteiros, viúvos, divorciados ou com filhos fora do ninho, ou por que mais não seja, se considerarem seres humanos com direito a vida própria e com direito a ter tempo livre para decidir em que gastar, inclusive na otimização dos seus recursos enquanto profissionais.
    É evidente que neste momento do Covid-19, somos todos soldados, somos todos Costa-Rio. Somos todos retaguarda dos serviços de saúde, compete-nos garantir que o vírus não anda sozinho e para tal faremos o que for preciso para estancar esta crise e este rasto de morte. Estaremos na linha da frente onde for preciso. Agora, convém que passado o aperto se lembrem disso, assim como têm obrigação moral de se lembrar de todos os que neste momento combatem pondo a sua saúde e vida em risco. A esses, se não tiverem dinheiro para compensar, porque não há dinheiro que pague o que fazem, devem-lhes concretamente muitos dias de férias para descansar, muitos mesmo, para que possam regressar à normalidade possível. Agradecimentos e honrarias não chegam, isso fazem sempre. Eles deram o corpo, é o corpo que deve ser recompensado. Porque de facto, convém não esquecer, que só em situações-limite é que somos “pau para toda a colher”.

      • Estou a cumprir a quarentena a que sou obrigada por lei para proteger todos contra a doença e a morte. Estou a garantir que o vírus que não anda sozinho, morra sem matar. 80% dos pacientes que se vêm obrigados a recorrer aos cuidados intensivos morrem. E tu estás a fazer o que deves para impedir essas mortes?

    • Nem mais!
      Agora elogiam, batem palmas, cantam serenatas…

      Num amanhã, quando tudo isto passar e vier a crise económica e social ( que já se manifesta) voltarão a atirar-lhes pedras e sempre que, na defesa de condições de trabalho (organização, equipamentos, materiais, recursos humanos adequados às necessidades, defesa de salários condignos) convoquem uma greve os insultos e a pequenina inveja emergirão de novo!

  6. Fala-se muito sobre os alunos que não têm capacidade económica para possuirem internet e computadores. E os professores, pá?
    Gostaria de destacar que:
    1- também existe distinção sócio-economica entre professores; eles não pertencem todos à mesma classe social, estando posicionados em diferentes classes como o resto da sociedade.
    2- há professores com menos capacidade económica. Apesar dos professores poderem terem a mesma função profissional, não auferem todos o mesmo salário, estando uns a ganhar centenas de euros mais do que outros porque estão posicionados em escalões diferentes. Além disso, a estrutura financeira hereditária e/ou a estrutura familiar (estatuto económico do cônjuge) também colocam os professores em patamares sociais diferentes.
    Portanto, não há só desigualdade entre alunos mas também entre professores, onde uns com maior capacidade económica podem ter condições materiais que proporcionam melhor qualidade de ensino, evidenciando-se na qualidade do trabalho, enquanto outros não têm possibilidade de o fazer.
    Ajuda digital tem de ser para todos: alunos e professores.

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