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Os Bodes Expiatórios da Educação

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MariaO título também poderia ser “Desabafos de um professor”. Ao longo dos anos, nesta profissão, cada um vai recolhendo as suas vivências pessoais. Ao som de Piaget vai “assimilando, acomodando e equilibrando”. Vai entendendo o que o rodeia num equilíbrio constante entre quem é e o que vive. É assim que se molda a personalidade e o perfil do professor.

Os professores como em todas as outras profissões têm de se reger por princípios, por metas e por objetivos, e a nossa “mão-de-obra” são os futuros adultos e pensadores de uma sociedade. O poder é imenso e a responsabilidade ainda maior. E por ter estas características, o Mundo da Educação é provavelmente dos mundos mais difíceis de legislar, de encontrar pontes sólidas e entendimentos mútuos. Mexe com a vida de todos nós colocando frente a frente egos, fragilidades, vivências diversificadas carregando neste momento um rótulo pesado, um rótulo problemático que invoca ansiedades e incertezas, quase sempre um quadro desolador.

 Ainda que com ventos de mudança (ainda não sabemos bem quais) continuamos a manter uma comunicação social que insiste em desmotivar, incendiar e desacreditar tanto políticos como politicas educativas, professores e quando necessário pais e alunos. Não existe um equilíbrio entre exemplos de ações positivas, ou políticas positivas. Por uma ação positiva que lemos, somos bombardeados com dez ações negativas para perpetuar o panorama. Existem depois aqueles que contam com maior poder de reflexão e não se deixam arrastar por (na maior parte das vezes) opiniões medíocres de supostos entendidos dos meandros da Educação.

As opiniões surgem por vários motivos: Ou pertence a uma facção política diferente da atual e por isso tenha de jogar o jogo, ou porque a sua vivência (depois generalizada) o fez pensar assim sobre determinado assunto. Outros porque leram algumas coisas e viveram pouco outras e cheios de propriedade lançam o seu entendimento sobre o mundo.

Todos temos o direito à nossa opinião, mas também deveríamos ter o dever de parar para refletir sobre o que escrevemos, sobre o que dizemos e especialmente sobre o que lemos.

Recordo-me da última Audição Parlamentar intitulada “Necessidades Educativas Especiais – Deficiência e Escolaridade Obrigatória” onde Instituições, Professores, Pais e Alunos tiveram a oportunidade de partilhar a sua visão sobre este tema e contribuir com ideias e ações para melhorar a intervenção nas Necessidades Educativas Especiais. Após as intervenções uma das deputadas que assistia à Audição disse: “Estive a ouvir muito atentamente, concordando na maioria com todas as intervenções feitas, mas saio daqui com a sensação que era necessária legislação para cada caso”. As realidades de cada escola são tão diferentes que a nossa sensação é, quase sempre, uma legislação que não corresponde à realidade. E de cada vez que mudamos cai o Carmo e a Trindade ora porque se muda sempre ora porque não se muda, vivemos no filme do “preso por ter cão e por não ter“. Se existe Ministério mais difícil de lidar é o Ministério da Educação. Inunda fóruns blogues e monopoliza notícias. As escolas tornaram-se uma fonte de rendimento da comunicação social e as politicas educativas a mão-de-obra. E pelo meio o disparo de psicofármacos em alunos e professores vai aumentando.

O Despacho Normativo 1H-2016 e a Proposta de Despacho Organização do Ano Letivo 2016-2017 que foram dados a conhecer recentemente já tiveram a oportunidade de serem atacados, esmiuçados, mas acima de tudo entendidos sob a perspectiva de cada um. A nossa memória muscular impele-nos imediatamente a criticar, a ler com um ar desconfiado e a tentar encontrar a mínima alínea que seja para nos tramar. É este o clima que se vive e, acredito, vai demorar algum tempo até que Ministério e professores andem de mão dada.

E enquanto se discute a permanência de crianças NEE mais tempo dentro da sala; o papel mais ativo dos diretores de turma e os contratos de associação com as escolas privadas, permanecemos (ou lutamos contra) na nossa diletância de criticar tudo e todos, ou porque não é a mesma cor política e por isso há que criticar, ou porque naquele contexto isso não se aplica ou só porque sim.

E nesta roda-viva recordo-me dos bodes expiatórios da nossa sociedade: os motoristas, os taxistas, os políticos, os policias, os camionistas, as empresas, os trabalhadores, as empregadas, os empregados, a segurança social, os professores, os médicos, os enfermeiros, os defensores dos animais, os defensores das touradas, etc, etc, mas nunca, nunca nós próprios…porque o nosso ego esmaga tantas vezes a razão que deixamos de refletir sobre nós.

Maria Joana Almeida

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