Início Editorial Os Alunos Podem Passar Todos Mas Há Consequências Que Terão De Ser...

Os Alunos Podem Passar Todos Mas Há Consequências Que Terão De Ser Assumidas

20770
42

Ano após ano a história repete-se. Seja pela reforma educativa vigente, seja pelo diretor, seja pelos encarregados de educação, seja pelo diretor de turma, ou seja pelo professor “A”, “B” ou “C”, a verdade é que as reuniões de avaliação do 3º período são as mais tensas do ano. O motivo é sempre o mesmo, a transição ou retenção dos alunos.

Se me permitem uma certa cronologia pessoal, comecei a carreira dizendo que se o aluno sabe deve passar e se o aluno não sabe deve reprovar, que a minha nota ninguém mexe e quem a quisesse mudar levaria com toda a minha fúria pois considerava uma falta de respeito para com o meu trabalho.

Após alguns anos, comecei por encarar o conselho de turma (CT) como o senhor todo sabedor e as minhas propostas não passavam disso mesmo, de propostas (aliás, é o que consta na lei). Cabia ao CT definir qual o melhor caminho para o aluno, mudando as notas que precisava de mudar, através de uma visão macro que contemplava o projeto educativo da escola, as competências adquiridas, etc.

Recentemente passei para uma nova fase, a da responsabilização do aluno, dos respetivos encarregados de educação e da sociedade em geral. A reprovação é um problema para os alunos e uma dor de cabeça para os professores, um foco de pressões e de guerras internas e externas, das quais sinceramente estou farto.

Encaro a escola atual com uma visão mais empresarial, sem o romantismo de outros tempos. Hoje sou um prestador de serviços, as chapadas levadas pelas constantes mudanças ideológicas e desrespeito para com a carreira docente, levaram-me a ser muito mais pragmático.

Agora vejo tudo de uma forma mais simplista, ninguém chumba, saiba ou não saiba, ninguém chumba. Além do custo económico, não há garantias de sucesso no ano seguinte, os alunos ficam mais desmotivados e a percentagem de insucesso tende a aumentar fruto da falta de resposta que a escola tem para os diferentes perfis de reprovação. (lembro que os alunos para seguirem uma via alternativa no ensino básico são obrigados a reprovar 2 anos, isto não faz qualquer sentido.)

Está na altura de implementar aquilo que há anos tentam aplicar nas escolas, sem a coragem de o assumirem verdadeiramente.

O aluno terá 12 anos de escolaridade e nesses 12 anos, terá de adquirir os conhecimentos necessários para entrar no mercado de trabalho.  Ao fim desses 12 anos, haverá naturalmente diferentes níveis de competência, resultado de um ensino mais individualizado e da heterogeneidade dos alunos.

Que se lixe o cumprimento do programa, que se lixem os exames, vamos adaptar o currículo a todos e todos terão sucesso. Mas depois não se queixem com o aumento de disparidade entre a nota interna e externa, ou das notas inflacionadas na escola “A” ou “B” para alimentar as receitas do seu negócio educativo.

Há um custo a pagar e esse custo será pago no final da escolaridade. Pais e alunos serão penalizados pela conduta imprópria perante a escola, pela negligência, pela indisciplina, pela sua desvalorização. Esse custo também será pago por toda a sociedade, pois um cidadão inútil ou desenquadrado não irá simplesmente desaparecer do mapa e tem, evidentemente, um custo…

Enquanto professor farei o meu trabalho, se os outros não fizerem o dele, não serei eu a assumir as consequências de alunos que terminam o 12º ano com competências mínimas ou insuficientes.

As escolas têm demasiadas dificuldades e não precisam de mais guerras e pressões. Passemos os alunos todos, os exames dirão depois de sua justiça, uma contradição absoluta a um sistema de ensino que visa o acompanhamento de cada aluno de forma individual, respeitando ritmos e adaptando currículos.

Eu sei que muitos professores associam a transição automática ao facilitismo e o chumbo é a “arma” que têm para penalizar o desleixo, a preguiça, em suma, o insucesso. Mas se pensarem bem, a maior penalização/consequência é a falta de aquisição de competências para a integração do aluno no mercado de trabalho. E esse preço é muito, mas mesmo muito elevado…

Assumamos de uma vez por toda que a escola é uma passagem e cada um deve aproveitá-la como achar melhor. Julgo que a nossa vida ficará muito mais tranquila, ao nível de uma consciência que há anos dorme descansada pela dedicação diária para com aqueles que querem e não querem aprender.

Simplifiquemos a nossa visão do ensino, simplifiquemos a nossa vida, que quem de direito assuma as escolhas que estão a ser feitas.

Alexandre Henriques

COMPARTILHE

42 COMENTÁRIOS

  1. AH!AH!AH!AH!isto vai acabar muito mal… É que conferir um certificado, digo eu, mas que já sei eu???… é dizer que um indivíduo sabe? Apreendeu? Uma série de competências e conhecimentos curriculares… Doutro modo é uma vigarice! Ou se calhar não… já me situo pouco neste tempo onde a ignorância e a calaceirice são certificados…

  2. E aguentar os meninos dentro de uma sala de aula, tentar que façam alguma coisa, que aprendam algo? Se agora já é tão difícil, imagine -se o que aí vem… Em Educação Física talvez seja possível, mas noutras nem quero pensar…
    E os pais e encarregados de educação, não se manifestam?
    Aceitam o falso sucesso dos seus educandos com um encolher de ombros? Ainda bem que os meus filhos são de outra geração! Safa!

  3. Costumo dizer que muito em breve as nossas crianças não saberão sequer o que é isso de chumbar ou passar… Porque essa questão deixa de existir e de fazer sentido…
    Haveremos por tanto de dizer: “antigamente, no meu tempo, os alunos repetiam os anos(?! como se o tempo se pudesse repetir…) Por isso, o importante é mentalizar os alunos, os pais e a nós professores, que a avaliação já não é mais da aprendizagem, mas para a aprendizagem… E o valor dessa avaliação, do que se aprende, só vale e importa para si mesmo, para cada aluno (e para toda a sociedade) e que isso nunca, ninguém, lhe poderá tirar!!!

    • É uma belíssima ideia… E os passarinhos chilrearão … e nós viveremos num eterno paraíso floral… Pena é que existe uma coisa chamada MUNDO! … e nesse Mundo a China já tem na mão a maioria do Capital e dos factores de produção; existe uma mudança climática que altera o acesso aos alimentos e à água; os orientais, nomeadamente os chineses, têm um sistema de ensino altamente eficaz e com milhares de anos… Resumo: quem não for realmente bom está frito… E mesmo para os bons, a nível de conhecimentos, a coisa não será fácil para os mimados ocidentais…
      E , já agora, no final de uma coisa que se chama VIDA, parece que há um falecimento!!!
      Sem avaliação e sem consequências não criaremos mais do que um sistema medíocre e onírico tudo resta é conversa para entreter… meninos!

  4. Estimado colega Alexandre Henriques,
    Antes de mais, deixe-me dizer-lhe que respeito integralmente a sua opinião, mesmo que seja discorde. E, tudo o que possa dizer neste comentário, nada tem contra si ou contra o conteúdo do seu texto.
    Mas permita-me, com franqueza, dizer-lhe: sou pai de uma daquelas crianças que, segundo o colega, não aprendeu os conteúdos… nem o programa… e que, na opinião do colega, deve ficar retida.
    Mas eu garanto-lhe Alexandre que, no próximo ano letivo, também não vai aprender… pelo menos, os conteúdos e as metas que os professores dela querem. Logo, vai reprovar outra vez!
    Sabe Alexandre, a minha criança não tem nada de especial… tem apenas as capacidades dela! Teríamos de ficar aqui muitas horas a discutir neurociência na educação. Mas, adiante!
    Entretanto, os professores da minha criança, ou o CT (como lhe chama) nunca se preocuparam com as lágrimas da minha criança… com a sua auto-estima… com a sua tristeza… com a sua desmotivação… com o que sentiu quando o professor “A” lhe deu 2. Qualquer criança vale muito mais do qualquer programa, meta, conteúdo, objetivo… ou lá o que quer que seja!
    E sabe Alexandre, eu só quero uma coisa para todas as crianças… QUERO QUE SEJAM FELIZES! E, a sociedade (onde a escola se insere) tem essa obrigação. Tem a obrigação de zelar pela felicidade de uma criança!
    Permita-me a ousadia da pergunta. Desde quando é que saber os conteúdos… ser um excelente aluno e ter nota 20 é sinónimo de felicidade, hoje e no futuro? Quer que lhe diga quantos alunos, “excelentes” alunos, notas de 19 e 20 são acompanhados por psicólogos devido a estados emocionais de infelicidade?
    Em resumo, Caro Alexandre, vamos deixar as crianças crescerem, serem felizes e aprenderem, naturalmente, aquilo que são capazes. Está demonstrado que, por mais que os professores façam o pino, há crianças que nunca vão aprender o que os programas “querem”.
    Então, vamos deixar que as crianças sejam felizes.
    Cordiais cumprimentos.

    • Estimado José, sou o Carlos que também colocou aqui um Post. Tem também razão, com toda a certeza, por isso é que cada caso é um caso especial e é para isso que existem nas escolas pessoas especializadas para esses casos. Eu sou professor do ensino Universitário e também já dei aulas no ensino corrente. Tenho neste momento alunos com necessidades educativas especiais, e são tão bons ou melhores que outros alunos. Não podemos generalizar, mas tem de concordar comigo que hoje em dia escancarou-se a porta das transições de anos e não deveria ser assim. Passou-se a uma certa libertinagem, não se leva a escola a sério, passando os pais a encarar a escola como um depósito dos seus filhos e que alguém os ature. Se a escola tivesse aberta até às 24 h, tenho a certeza que muitos pais só iriam mesmo à noite ter com os seus filhos. Nem todos poderão ser doutores ou engenheiros, mas poderão ser excelentes técnicos noutras áreas, ou simplesmente excelente pessoas, mas sim sempre excelentes, seja no que mais tenham jeito, mas excelentes. É isso que a escola deveria dar, e é isso que os pais, como o senhor deveria pedir à escola, excelência na educação do seu filho. Infelizmente está-se a perder, e as escolas estão a ser um repositório de crianças mal comportadas, agressivas, pois a escola está ali para Ensinar e os pais para Educar, mas não o fazem, prejudicando outros alunos que queremser execelentes, dentro das suas capacidades, cada um com a sua motivação. Mas não está a funcionar…

      • Caro Carlos, é fácil concordar consigo. Naturalmente. Talvez seja impossível expressar tudo o que penso e sinto em relação a esta matéria neste formato de comentário e resposta. Estou plenamente convencido da necessidade de ouvirmos o que as ciências da educação, a neurociência, a psicologia, a psicologia do desenvolvimento e muitas outras áreas têm para nos dizer sobre educar/ensinar. Felizmente, recentemente, tive a oportunidade de visitar e conhecer sistemas de ensino onde, imagine, nem notas há! Não há 3, nem 10, nem 20! Coitados! Devem andar loucos! Como é possível ensinar sem “dar” notas? Como é que se aprovam, ou reprovam, os alunos? Como é que se constrói uma sociedade? Quem são os médicos? Quem distingue o rim do coração? As pontes estão a cair?
        Tenho a particular oportunidade de, todos os anos, poder folhear milhares de páginas de exames realizados pelos alunos. E, não tenho dúvidas, as capacidades de interpretação, compreensão, reflexão, criatividade, expressão e raciocínio (… entre outras) é tão distinta de aluno para aluno. Acredite Carlos, os futuros médicos e engenheiros (sem desrespeito por outras classes profissionais) são facilmente identificáveis. Para outros, e como já sei disse, nem que os professores façam o pino, nem que permaneçam 3x no 7. ano, vão chegar a “doutores”.
        Tenho uma certeza (na minha humilde opinião). Também estas crianças nasceram nuas e, sim, têm o direito de ser felizes! Sim, felizes. E cidadãos mais felizes vão, seguramente, originar uma sociedade melhor!
        Reitero a minha preocupação com a sensibilidade (ou falta dela) que alguns adultos demonstram quando revelam a uma criança um “não satisfaz”, um “insuficiente” ou um “2”. “Não satisfaz”, “insuficiente” e “2” são uma arquitetura de adultos! Para uma criança representam uma percepção de incapacidade, insucesso e frustração.
        Curiosamente, alguns adultos (os mesmos que dizem “não satisfaz” e “insuficiente” à criança) rejubilam de felicidade quando recebem a sua avalição de “Muito bom” (para não dizer “Excelente”)… mesmo sabendo que… pronto… vá adiante… não interessa!
        Imagine Carlos o que sente uma criança quando sente que é capaz! Que também ela consegue!
        Que ninguém me tire o sonho de um mundo diferente.
        Obrigado pela paciência Carlos.

        • Estudo sistemas de ensino diga-me onde é esse país, por favor? É que não conheço nenhum país que não tenha sistemas de admissão ao Ensino Superior onde não haja provas de conhecimento curricular, com uma classificação, inclusive a Finlândia, onde a admissão e a selecção de alunos é feita por axames extremamente exigentes e rigorosos.Não falarei sequer dos orientais, onde os exames são uma instituição centenária e de prestígio.

          • Estimado amigo à procura do que não sei,
            Digo com todo gosto! Sem problema! O princípio é ajudar e colaborar. Só lhe peço um favor: não misture escolaridade obrigatória (em Portugal, 12 anos) e ensino superior (facultativo).
            Os países a que me referia são: Islândia, Suécia e/ou Finlândia onde, por exemplo, os programas não são metas… são guias! Eis outra grande discussão! Os programas são metas ou guias?
            Se me permite a analogia, numa corrida de 100 metros, a meta é igual para todos mas não vão chegar lá todos ao mesmo tempo! E já agora… só 3 vai ao podium e para os restantes a vida continua. Sem dramas!

          • 1º Na Finlândia a procissão da nova reforma ainda vai no adro e já há bastante contestação, não sei se sabe… ” 2º – A Finlândia, a Suécia , os países nórdicos em geral, são letrados há séculos e não se podem sequer comparar com Portugal; 3º Os alunos finlandeses, segundo os estudos, são os mais infelizes de toda a velha Europa… mas isso importará pouco… 4º Como por lá há civismo não temos professores a serem ameaçados diariamente nas escolas nem alunos indisciplinados e se o são isso tem consequências para os pais; 5º Escolheu muito mal o exemplo da Suécia porque o que se passou , nas últimas décadas na Suécia, a nível de reformas educativas foi muito mau… é só procurar um bocadinho na net… 6º Não sou sequer contra que se acabem com as retenções , agora meias-tintas, como o que existe agora é que não me serve… Toda a legislação , 54 e 55, é muito má, no geral, e só traz confusão e desvario às escolas … 7º O que se está a passar com a nova legislação não é dar novas oportunidades a alunos com diferenças , mas apenas a baixar o nível geral da exigência , 8º Acho que já aqui o disseram : os sistemas de ensino não devem baixar o nível de exigência , mas exigir o máximo a cada um , segundo as suas capacidades: é esse o busílis da questão…
            9º O que já se passa nas escolas não é nada disto, mas o governo assobia para o lado , com retórica demagógica e apoiado em meia dúzia de académicos medíocres que vivem de onirismos e de fé teológica educativa e não de factos…10º Ter a ideia que reter um aluno, se ele pode fazer e consolidar aprendizagens, é negativo não passa de um opinião que eu não aceito… Álias o que sempre se alegou contra as retenções foi, em primeiro lugar , as questões de ordem financeira; 10º Não aceito um sistema que trata alunos medíocres e calaceiros , atenção que não estou a falar de alunos, que são diferentes no seu ritmo de aprendizagem , como de alunos que precisassem de auxílio quando o que precisam é de regras , educação e trabalho…

          • Sr. João Carvalho, com o devido respeito… 1º – Dizer que não está preocupado com as avaliações é grave, porque a Lei não é um estado de alma… 2º – Estando no Ensino Público é muito grave o que afirma sobre o Programa, julgo que quer dizer o Currículo, porque ele é prescritivo para cada um dos ciclos e, neste aspecto, não houve mudanças legislativas. 3º – Se não cumprir os ´´programas” além de não cumprir a Lei prejudica o futuro académico dos alunos. Isto não é uma opinião são factos alicerçados naquilo que afirmou.

        • José Carvalho! Sou professora do 1o ciclo há 23 anos e concordo inteiramente consigo! Já trabalhei para exames e agora trabalho para desenvolver competências nas minhas crianças que são todas diferentes umas das outras e sou muito mais feliz!

          • … e quando voltarem os exames no 1º Ciclo, e garanto-lhe que poderão voltar , porque sei, ou quando a avaliação dos professores estiver indexada aos resultados de qualquer prova externa, pode não lhe chamar exames… a srª professora volta a trabalhar para o que já trabalhou! É a vida!

          • Estimada Ana Cristina Viana,
            Bem-haja pela capacidade de mudar de paradigma. Reconheço que não é fácil mas, também eu, tenho alunos mais felizes, uma sala de aula mais disciplinada, mais interessada, mais participativa e uma atmosfera mais positiva! Tudo porque, os meus alunos, atualmente, sabem e sentem que são capazes de ter sucesso! São capazes de ter o sucesso que as capacidades deles permitem alcançar. O que mudou? Entre outras pequenas coisas… o programa deixou de ser uma meta para todos e passou a ser um guia. E, no caso de alguns alunos para quem o ensino já tinha sido penoso, nasceu-lhes uma “alma nova”.
            Neste momento, na mesma sala de aula, convivem todos os alunos! Ajudam-se reciprocamente e quem era bom, continua bom ou muito bom e quem tinha reduzidas expectativas, passou a acreditar em si. Dia-a-dia, não estamos preocupados com notas ou avaliações. Isso não é relevante no nosso trabalho!
            Eu sei que somos poucos a pensar desta forma mas vale a pena acreditar num futuro diferente e melhor!

    • Sendo assim, em vez de irem para a escola, criava-se parques de diversão enormes e eles que brincassem o ano inteiro.
      A questão não se pode colocar na base da felicidade, nem se pode esconder as crianças da frustração e do insucesso, pois não estaríamos a preparar as mesmas para a vida real.
      Não sou fã das retenções, pois ao longo dos anos não me lembro de muitos casos em que uma retenção se traduzisse num aluno mais motivado e conhecimentos cimentados no ano seguinte.
      Concordo que os percursos alternativos deveriam ser aplicados sem critérios de retenção, pois assim talvez encontrássemos alunos que precisassem desses percursos alternativos em vez dos tradicionais aglomerados de alunos mal educados e sem interesse algum pela escola.

    • Sou pai de duas filhas. Ambas têm frequentado os mesmos anos de escolaridade desde o ano letivo de 2017/2018. Este ano frequentaram o 8º ano. Uma, a mais nova, sempre foi aluna de 5, a outra, depois de ter ficado retida 3 anos (um ano no 1º Ciclo e dois no 7º Ano), passou a ser, desde então, aluna de 4 e 5. Não venham falar em combater problemas com a flexibilidade curricular. Eu assumo as minhas responsabilidades, admitindo que negligenciei o devido acompanhamento escolar em casa. As crianças apenas são felizes com regras e o ensino só funciona com elas… e muitas!

  5. Sim a felicidade é boa… mas sem fome!
    Os alunos que têm 20 ficam traumatizados pela escola, por trabalharem para o 20.
    Os que não conseguem aprender os conteúdos, e acho muito bem que a Escola adapte o currículo às características das crianças, também ficam traumatizadas porque repetem o ano…
    Eu acho que trauma, trauma mesmo, é crianças que querem ir à escola e não podem; que fazem milhares de quilómetros, a pé, durante um ano, para poderem aprender, crianças que estudam à luz de candeeiros; crianças em que chove em cima dos seus livros quando a chuva vem; crianças que não conhecem um abraço; crianças que, em vez de chuva, lhe caem bombas sobre os telhados; crianças que ao lado dos seus livros têm armas automáticas; crianças que morrem por quererem comer do outro lado do mediterrâneo, crianças que que foram dizimadas de qualquer esperança; crianças que viram explodir os seus familiares; crianças que não bebem água, porque não há; crianças que não comem pão…. crianças que a escola é a rua e o trabalho… crianças que são vendidas como gado… crianças que nunca tiveram o trauma de um professor que as ensinasse, que um teste lhes caísse à frente do rosto numa sala sossegada, pintadas de branco; crianças que nunca puderam rasgar uma lágrima pela pergunta que não sabiam; crianças que nunca experimentaram a terrível exigência de um currículo, porque o único currículo que conhecem é o de acarretar terra de uma funda mina; crianças que nunca tiveram traumas porque nem sequer chegaram a ser humanos… CRIANÇAS!!!

  6. Como forma de combater essa frustração e ajudar na luta contra a potencial falta de requisitos dos alunos no futuro, procure ver o que se está já a fazer em Portugal (continente e Açores) ao nível das comunidades de aprendizagem. Procure no Facebook e Internet Rede de Comunidades de Aprendizagem e pode, se houver interesse, inscrever-se e acompanhar o processo, nem que seja só por curiosidade.

  7. O que se tem vindo a passar, é que os alunos transitam sempre até ao 9º ano, sem adquirir as mínimas competências, passam muitas vezes com 5 e 6 negativas vindas do 1º e 2º periodo e de repente por obra do Espírito Santo no 3º período transitam. O que faz a maior parte das vezes impancarem no 9º ano, e mesmo com alguma sorte consigam passar para o 10º ano, aí não terão a mínima hipótese, fazendo com que muitos mudem para o ensino profissional ou mudem completamente de área. Sou testemunha este ano de um grupo de 30 alunos que transitaram para o 10º ano de ciências e tecnologias, e mais de 90 % tirou uma série de negativas, que coloca em causa o seu futuro. Pergunto se esses alunos tivessem ficado retidos nos 7ºs 8ºs e por aí, não viriam mais bem preparados para o secundário?

  8. “QUERO QUE SEJAM FELIZES! E, a sociedade (onde a escola se insere) tem essa obrigação. Tem a obrigação de zelar pela felicidade de uma criança!”
    A conceção de escola propiciadora de felicidade acima da aquisição de competências mínimas de um currículo nacional e metas é legítima, mas deve ser opcional, pois só faz sentido numa lógica de contraciclo com toda a organização social e económica, meritocrática e exigente, que seleciona e faz seriação em quase todas as dimensões da vida.
    Neste entendimento, a escolaridade obrigatória de 12 anos não faz qualquer sentido e cada pai ou mãe escolherá o tipo de educação que quer para os seus filhos, assumindo as implicações que isso venha a ter no futuro dos filhos. Cada criança é uma criança, o verdadeiro ensino individualizado e adaptado às potencialidades e ritmo de cada criança é uma utopia numa escola pública massificada, onde o controle de custos é o fator maximizante de gestão. A escola uniformizada é uma necessidade do Estado e da sociedade, que tenta preparar as pessoas para a os modelos sociais e económicos que temos, imperfeitos é claro, mas ainda não inventaram nenhum perfeito e temo que nunca inventem,dado que o Homem congrega em si mesmo a perfeição e a imperfeição. Há quem deseje filhos felizes, apenas, (seja lá o que isso for) e quem deseje filhos felizes, mas bem preparados para ingressarem em cursos exigentes, que ainda garantem o acesso a uma profissão bem remunerada. Temo que ambos tenham razão, o difícil será a escola pública massificada satisfazer ambos com qualidade, a não ser que assuma a diferença de opções e ofereça currículos diferenciados o que introduz desigualdade no sistema. A igualdade absoluta, aqui como noutras dimensões da vida é uma utopia. A generalização é perigosa e ineficaz, há miúdos felizes, apesar da exigência, e miúdos infelizes em modelos de educação holísticos.

  9. Caro José Carvalho,
    Sou professora, mas também sou mãe, e concordo inteiramente consigo. Os alunos são pessoas e são muito mais do que números. De que vale ter 5 a tudo só porque se limitam a “vomitar” aquilo que ouvem? De que vale ser um “excelente” aluno e não ter espírito crítico ou capacidade de resolução de problemas, entre muitas outras coisas? Quantas vezes não é dito em conselho de turma de que “aquele” aluno não vai a lado nenhum, não vai fazer nada da vida e, anos mais tarde, se revelam pessoas bem sucedidas?
    Há que parar para pensar. Há que mudar a nossa visão do ensino. Há que mudar a escola. Hoje o caminho tem de ser outro.

    • Peço-lhe desculpa mas essa conversa é muito bonita, mas quando alguém está a ser operado, entre a vida e a morte, há-de fazer a questão ao paciente:” Ó meu caro queres ser operado por este médico brilhante, que se desunhou para ter estas qualificações e te poderá salvar?… ou queres ser operado por aquele outro, muito criativo, cheio de ideias e espírito crítico, que não vomita nada porque nada sabe?”
      Já agora não sei como se pode ter espírito crítico, nem capacidade de resolução de problemas, sem uma sólida formação académica… Deve ser formação em ”achismo”, uma especialidade bem portuguesa…
      Essa de conhecer sem estudar duramente só mesmo esoteria… Gostava de conhecer um desses génios bem sucedidos, academicamente, ou nas letras , ou nas artes , ou na ciência, que não tenham uma forte formação académica… com isto não quero dizer que todos tiveram o maior sucesso na escola, ou que foram os melhores alunos… Mas, com certeza, estudaram muito para subir ao sítio onde chegaram .. Não há coincidências , como dizia um velho sábio, daqueles que já não se recorda o nome: ”Ex nihilo nihil fit”, o que resume tudo o que é necessário dizer sobre a escola e o conhecimento…

  10. Caro José Carvalho,
    Sou professora, mas também sou mãe, e concordo inteiramente consigo. Os nossos alunos são muito mais do que números! De que vale ter “excelentes” notas só porque se limitam a “vomitar” a matéria, mas não sabem relacionar conteúdos, não sabem argumentar, são pouco autónomos e não têm capacidade de resolução de problemas? O que impede um aluno com maus resultados agora de se tornar um bom profissional amanhã?
    Há que refletir. Há que mudar a nossa visão do ensino. Há que repensar a escola. O caminho tem de ser outro.

  11. Acho que alunos com necessidades educativas especiais é uma coisa (caso do José Carvalho), outra coisa são alunos preguiçosos, baldas e insolentes.
    Esses deveria ter uma penalização, tal como acontece na VIDA REAL.

    Como diz um colega anterior, vamos ser todos muito felizes quando as pontes e os edifícios forem concebidos por ex alunos felizes, quando forem operados por Alunos felizes, quando forem. ensinados por pessoas felizes , etc etc…

  12. “mas não sabem relacionar conteúdos, não sabem argumentar, são pouco autónomos e não têm capacidade de resolução de problemas? ”
    Para atingir estas capacidades é preciso trabalho e estudo e os bons alunos têm estas capacidades sim, apesar de se pensar que o ensino ainda é enciclopédico, isso não é verdade, para resolver problemas complexos é preciso ter conhecimento sólido, resultado de muito trabalho.
    A falácia de se dizer que não é preciso estudar, porque o conhecimento está no telemóvel, é isso mesmo, uma falácia, antes o conhecimento estava nos livros e nas enciclopédias e por se estar diariamente numa biblioteca não se adquiria conhecimento.
    O igualitarismo não funciona na sociedade, como a falência dos regimes comunistas provou, e também não funciona na escola. O currículo deve ser adaptado aos alunos, mas então é preciso assumir que nem todos adquirem ao mesmo tempo, as mesmas competências, mais uma vez isso esbarra com a concepção de plena inclusão e de igualdade; ninguém assumir a existência de percursos alternativos, pois defende que são estigmatizantes ; o que farão alunos de 15 anos que não conseguiram aprender a ler e interpretar, numa aula de FQ ou de BG do 10º ano, por exemplo? Trabalho diferenciado, dizem os líricos que há muito deixaram de pisar as salas de aula, se é que alguma vez lá estiveram. Para ser exequível este tipo de ensino individualizado e inclusivo é preciso salas espaçosas, com múltiplos recursos operacionais e com vários professores e técnicos em simultâneo a acompanhar o trabalho de grupos de alunos heterogéneos. Em que parte do mundo é possível uma escola publica assim, generalizada?

  13. É uma perda de tempo este debate, a escola é fundamental e a seleção é natural. Mesmo que determinados alunos passem sem conhecimento porque o CT assim decidiu em algum momento este aluno será confrontado com os conhecimentos adquiridos e aí só avança quem tiver conhecimento. Os restantes tem que procurar outras soluções, naturalmente criativas.
    Mas acreditar que todos tem as mesmas capacidades e que se ficarem retidos o tempo suficiente eles vão conseguir esta errado, porque alguns por mais que tentem nunca conseguem e neste caso tendem a seguir caminhos desviantes.
    Como pai questiono se acham produtivo colocar numa turma do 6º ou 7º ano um jovem com 3 ou 4 retenções? Não irá este aluno “atrapalhar” aqueles que querem aprender e influenciar outros uma vez que sendo mais velho o seu comportamento será imitado por outros miúdos que vejam nele um modelo a seguir.

  14. Paulo Coelho no teu tempo algum repetente te atrapalhou?
    Não? Ok…
    Talvez se atrapalhasse ia para a rua e 3 faltas a vermelho chumbava.

  15. Continuo e continuarei a propor retenção para todos os alunos que não acompanhem minimamente o currículo. Se depois o Conselho Pedagógico achar que os deve passar … que o façam, mas eu ficarei sempre de consciência tranquila. A escola nunca deverá ser só para punir mas tb não deverá ser um corredor imenso com carpete aveludada para que todos cheguem ao fim desse corredor sem que lhes fosse exigido o mínimo esforço. Veremos o que nos trazem os novos tempos. Espero que alguém de visão ponha a mão nisto e mude as regras do jogo. Algo vai mal no Condado Portucalense.

  16. E se, independentemente dos níveis atribuídos, transitassem todos? Seria talvez mais honesto. Os EE seriam confrontados com todas as notas resultantes do trabalho do seu educando e não seria enganado com níveis 3 e achar que afinal ele não estava assim tão mal!

    • Subscrevo também, nada de retenções, notas reais, representadas em números ou letras, correspondentes ao trabalho de cada um, eliminação do conceito entre negativa/positiva, alunos com acumulação de baixa avaliação sujeitos a medidas do 54, incluindo redução/alteração de currículos e/ou percursos alternativos.
      Há crianças que precisam de outras respostas e não se pode considerar isso como exclusão ou segregação. A retenção é medida ineficaz para a maior parte dos repetentes, deveria ser implementada apenas por indicação psicológica e anuência dos pais. Manter os pais informados sobre os resultados reais dos alunos, sempre, tem de ser um imperativo. A consideração de que percursos alternativos são discriminatórios é gravíssima, porque fará baixar a exigência e diminuir os currículos, sob o pretexto de uma falsa inclusão que afastará muitos alunos de escolas que não garantam a aquisição de conhecimento para os que têm mais capacidades/ambição.

  17. Então chegado o momento de uma possível entrada numa Universidade, como todos transitaram e como não houve qualquer tipo de avaliação, todos deverão entrar nos cursos que acharem por bem. Talvez deste modo se resolva a falta de alunos nas Universidades. E já agora todos terão direito a um grau no final, pois nas Universidades também não haverá retenções…No final teremos médicos que provavelmente tinham jeito para a mecãnica, e mecânicos com propenção para cirurgiões, etc, etc.

  18. A medicina aqui tão evocada existe, porque existe a ciência que é o pilar principal de sustentação da escola, esta última alvo de imensa investigação científica há anos – Pedagogia. Por outro lado, as “escolas” estão inseridas em sociedades, com ideais diferentes… ao ponto de mudarem o currículo a cada legislatura.
    Não basta mudar os alunos, é necessário em primeiro lugar tornarmo-nos sociedades, escolas, professores “aprendentes”. ” A formação torna-se uma necesssidade permanente, porque a escola já não é mais um espaço para a aprendizagem exclusiva dos alunos, “o surgimento dos conceitos actuais de escola aprendente ou de aprendizagem organizacional — que percepcionam a escola como contexto natural e básico para a construção do currículo, para a formação de professores, para a melhoria da educação e para a reconstrução progressiva das mesmas escolas como organizações educativas (Escudero & Bolivar, 1994) — adquire um maior sentido numa sociedade entendida também como sociedade cognitiva ou educativa, numa perspectiva de formação ao longo da vida”. Alonso, L, et al. (2001) P51
    “…urge desenvolver um pensamento estratégico sobre cada escola e o seu futuro, considerar a formação contínua dos professores como um meio imprescindível (ao lado de outros, obviamente) de sustentação das mudanças e das inovações desejadas”. Esteves, M. (2011)

  19. Que grande confusão por aqui anda. Desde o texto inicial até à maioria dos comentários. É o vale tudo. Felizmente na prática a maioria dos professores demonstra uma sensatez que está longe disto.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here